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PARA A MINHA MÃE
Istambul, 13 de maio, 2016
- Bem-vindo, Orhan. - Obrigado.
O Deniz queria ter ido recebê-lo, mas surgiu uma reunião urgente.
Devia ter ido primeiro ao hotel.
Não é preciso. Ele quer vê-lo já. Por favor.
Orhan, não se preocupe. Espere aqui.
Fique à vontade. Quer beber alguma coisa? Chá, café?
Não, obrigado.
Porque estás aí parada? Já te disse para levares isso para cima.
Cuidado. Se viveres no passado, vais perder o presente.
E Istambul? Está como a deixaste?
- Basicamente. - Cansado?
Nem por isso.
Podemos começar já. Tenho muito para te perguntar.
Também tenho perguntas. Ainda bem que vieste.
- O quarto está pronto. - Vou para o meu hotel.
Fazemos o seguinte.
Toma um duche e muda de roupa.
Falamos depois, sim?
Bem-vindo.
Vais fazer-me borrar tudo.
Imagina a cara da tua visita quando acordar de manhã
e vir que a mobília desapareceu toda de casa.
Sabes o que devíamos fazer?
Tirar a cama de debaixo dele, enquanto ele dorme. Que tal?
De manhã, nem saberá o que lhe aconteceu.
Só tu pensarias em receber visitas
na véspera de esvaziares a casa.
Olha para mim.
Mãe, a sério. Isso incomoda-te?
Muitas pessoas já passaram por esta casa,
e já viram de tudo. Discussões, brigas...
E quase um homicídio.
Não gosto da ideia de ter um estranho a ver-nos deixar esta casa.
Mãe, é o Orhan.
Bem-vindo, Orhan. Entre, por favor.
- Sente-se. - Obrigado.
Obrigado.
O meu filho disse-me que vive em Londres.
Sim, já lá estou há alguns anos.
- Cresceu em Istambul? - Sim, em Kalamis.
Kalamis.
A velha Kalamis já desapareceu.
A sua famosa doce serenidade e tudo o resto. A sério.
Sinto-me um pouco como o Orhan.
Uma estranha no meu próprio país.
Já não saio de casa.
Istambul sobrevive apenas em memórias.
O Deniz quer sempre ter razão.
Seja inteligente e deixe-o pensar que leva a dele avante.
- O que sabe ele sobre escrever livros? - Mãe.
- O seu é com pouco açúcar, certo? - Sim.
Obrigado.
Orhan.
Quero dizer uma coisa.
Agora...
Vais conhecer personagens do livro. Versões reais.
Quando as conheceres, podes perguntar...
Não lhes faças perguntas. Fala comigo. Combinado?
Vim para te ajudar. Faço o que disseres.
Além disso...
... quero que sejamos nós.
Tu, eu e o livro.
Trabalhamos melhor aqui.
Posso deixar-te no hotel amanhã. O que me dizes?
Preferia ir para o hotel.
Mas está bem, é como quiseres.
- Tens um cão? - Não.
Porque perguntas?
Para não ficares preso.
De que raça é o teu?
É rafeiro. O Tommy.
O Tommy do livro. Como o teu cão de infância.
O Tommy.
Sempre o Tommy.
Neval.
- Sim. - Orhan.
- Estava ansioso por te conhecer. - A sério?
Porque estavas ansioso por me conhecer?
Para saber se o Deniz te descreve corretamente no livro.
Que tipo de livro escreveste?
A mesma coisa de sempre.
Gosto de misturar os factos com a ficção.
Sabes que gosto de florear as coisas.
Deve ter sido difícil para ti.
Então, como é que ele me descreve?
Caramba.
Como a melhor amiga dele.
No livro, conhecem-se muito novos.
A Neval estuda Belas Artes e ele estuda Cinema.
Ela torna-se artista restauradora e ele muda-se para a Europa.
Ele torna-se um realizador famoso, mas nunca perdem o contacto.
Trocam milhares de cartas.
Vá lá! Não são milhares.
Passam sempre as férias juntos. Na casa de verão.
É lá que têm um caso amoroso.
- Também incluí isso? - Um caso amoroso?
Era mesmo um caso amoroso?
Neval, pronto. Acho que incluí isso.
Foi só uma noite. Quero dizer...
Foi importante para mim.
Mas isso é injusto. Começaste já com uma vantagem.
Já sabes tanto sobre mim.
E eu não sei quase nada sobre ti.
Conheço a Neval do livro. A ti não te conheço.
E os autores usam as personagens para falarem um pouco sobre si mesmos.
Nos livros de contos também?
O Deniz falou nisso.
A ideia de o seu editor ser famoso
por um livro que escreveu tão novo, divertia-o.
Mas ele disse que não voltaste a escrever.
É mesmo verdade ou ele estava a ser malicioso?
As festas em Londres são assim aborrecidas?
Os amigos do Deniz são todos assim?
Ele não tem amigos.
À exceção de mim.
Todas as pessoas que vês
são meros admiradores. - Ou amantes.
Especialmente antigos amantes convencidos de que são insubstituíveis.
Claro. Tu és o único que és insubstituível.
A única pessoa que o Deniz leva a sério.
O único do qual ele aceita críticas.
- Ele não refere isso no livro? - Oguz.
Conheceste o Orhan.
Sim.
O Oguz é o anfitrião.
Também é um autor soberbo.
Os livros dele são sempre bestsellers. Tens de ler.
Isto é, se os sinais dos tempos te interessam. Já leste algum?
O nome é-me familiar, mas ainda não calhou.
Toma.
- Orhan. - Não, obrigado.
Tudo bem.
- Pode dar-me uma água? - É para já.
Nós já nos vimos.
A tua cara é-me familiar.
Talvez uma versão mais nova com mais cabelo.
Talvez nos tenhamos conhecido numa festa.
Antes de deixares a Turquia.
Vais ficar muito tempo?
Não, não muito. Até acabar o livro do Deniz.
Então, não queres ficar.
Deves achar-nos insuportáveis.
Acho que esta cidade me considera insuportável.
Istambul é uma autêntica rameira.
Não recusa ninguém.
Brindemos ao teu regresso.
Já não bebo álcool.
Um abstémio?
Não confio em pessoas que não têm maus hábitos.
Antes de vir, passei três dias fechado em casa a ver os teus filmes.
Na tua escrita, não há uma curva narrativa.
É verdade que tanto nos filmes como no livro há emoção e entusiasmo.
Mas no livro, estás disperso.
Obrigado, querida.
Obrigada. Até à próxima.
Alguém chame uma ambulância.
Os meus papéis.
Os meus papéis.
Os meus papéis.
Os meus... papéis.
Irmão, os meus papéis.
Voaram todos.
Não deixes os sacanas levarem-nos.
Hoje apanhei tantos.
Foram-se.
Foram-se todos.
Irmão...
Ajuda-me... Vamos voltar a apanhá-los.
E então?
O que devemos fazer?
Quanto ao livro?
O livro, os meus filmes, tudo o que eu faço...
É tudo uma farsa.
A minha vida.
Sabes isso, não sabes?
Pelo amor de Deus, acreditas mesmo nisso?
Sabes quem és. E porque escreves.
Também conheces a parte mais forte do livro.
E qual é, em nome de Deus?
O funeral do Yusuf e tudo o que envolve o Yusuf.
Vai-te foder.
O ritual de lavar o corpo dele.
A morte dele.
Acho que o Yusuf é uma personagem incrível.
Adoro-o.
Digo-te já que é a personagem mais forte do livro.
Sem dúvidas.
Do que é que gostas mais nele?
Ele ser um falhado?
É isso?
Vejo o Yusuf como uma traça atraída pela luz.
Isso é enfadonho.
Mesmo tão enfadonho.
Escrevi-o assim.
Mas ele não é assim.
Tem de haver algo de verdade.
Por isto de verdade,
mudaria as vidas inteiras de todas as minhas personagens.
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