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UM DOCUMENTÁRIO NETFLIX
É algo espiritual, estar ligado ao mundo natural,
ao ambiente natural.
Acalma-me e dá-me paz e tranquilidade.
Logo, quero estar ligado à água sempre que possível.
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE MERGULHADORES NEGROS
Durante o tráfico, foram feitas mais de 40 mil viagens
que envolveram mais de 12 mil navios.
A grande ironia é que, a nível arqueológico,
só foram documentados cerca de cinco ou seis desses navios.
Cada um desses navios conta uma história única.
Isto é como se tivéssemos o solo da aldeia Macua, em Moçambique.
Isto são contas de troca.
Já deve ter ouvido falar disto.
Trocávamo-las por muitas coisas, incluindo corpos africanos.
Eu pego nelas e enfio-as…
Fazemos…
Antes de mergulharmos, fazemos um ritual.
Falamos sobre porque estamos aqui.
E temos de…
Na água, temos de ouvir.
Temos de ouvir as vozes ancestrais
que nos tentam levar até aos destroços.
Logo, fazemos um ritual
e levamo-las connosco até as vozes voltarem a ficar vivas.
O TRÁFICO INTERNACIONAL DE ESCRAVOS PARA OS EUA FOI ABOLIDO EM 1808.
EMBORA A POSSE E A VENDA DE SERES HUMANOS
TENHA CONTINUADO NO SUL DOS EUA ATÉ 1865,
A NOVA IMPORTAÇÃO DE CATIVOS DE ÁFRICA ERA UM CRIME FEDERAL, PUNÍVEL COM A MORTE.
SEGUNDO A LENDA LOCAL, O ÚLTIMO NAVIO NEGREIRO TRAZIDO PARA A AMÉRICA,
O CLOTILDA, AINDA ESTÁ ALGURES NAUFRAGADO AO LARGO DA COSTA DE MOBILE, NO ALABAMA.
Que desilusão.
Os destroços encontrados no delta do Mobile-Tensaw,
não são do Clotilda.
… os peritos têm provas de que não era o Clotilda…
O Clotilda trouxe 110 escravos para os EUA…
… retirados do atual Benim, na África Ocidental…
… pensámos que após 160 anos os restos do último navio negreiro…
Vieram para a América e…
Muitos acham que nunca o encontrarão.
Africatown reuniu-se para saber porque o navio não era o Clotilda.
Nunca procurei o navio.
Nunca liguei a isso, porque quando contavam as histórias
bastava-me ouvir que saímos do mar. Era isso.
Se for encontrado, os descendentes dizem
que contará a história de sobrevivência dos seus antepassados.
Se o encontrarem, adoraria tocar-lhe e vê-lo.
O grupo de busca acredita
que está no oeste da ilha Twelvemile.
Não sei. Talvez o encontrem. Talvez não.
Poderemos ter a certeza esta semana.
Talvez o Clotilda possa ser encontrado algures nesse cemitério.
Desde miúda,
aprendi que era uma descendente direta.
AVÓ
Na altura, não se referiam a nós como descendentes diretos.
Referiam-se a nós como um dos africanos.
Logo, éramos alguns dos africanos que viviam em Africatown.
Na altura, não lhe chamavam Africatown,
mas sim Magazine Point e Plateau.
A casa da minha avó, onde ela cresceu,
ficava na Estrada South Magazine.
Temos o livro Barracoon .
Quem leu o livro?
Eu li o livro.
Está bem. Três? Quatro? Cinco?
Sou descendente direta do Charlie Lewis, um dos sobreviventes do Clotilda.
Este é o Kazoola. Cudjo, como é conhecido.
O Charlie, em Lewis Quarters.
É o avô do meu tetravô.
Não quero falar muito sobre mim.
Podemos começar a ler alguns excertos da história do Cudjo.
Quando veem esta linguagem, sei que pensam:
"Conheço quem fale assim."
Estou na página 92.
"O velho Charlie é o mais velho a vir de África.
Um domingo, após a minha esposa me deixar,
ele veio com os outros que atravessaram a água e disse:
'Tio Cudjo, faça-nos uma alegoria.'"
Chamo-me Zora Neale Hurston e vou cantar uma canção
que reuni em 1935.
Não me lembro do nome do homem que ma cantou.
A história é como um puzzle que se encaixa.
À noite, a minha avó sentava-se junto à lareira
e contava-nos histórias
para que as contássemos como eles as teriam contado.
Agora, chamam-me a guardiã do tesouro da família.
Tento manter a história viva
ao contá-la a quem a quiser ouvir.
DESCENDENTES
CENTRO COMUNITÁRIO REV. ROBERT L. HOPE
PLATEAU, ALABAMA - 10 DE JULHO DE 2018
Esta é a vossa história enquanto comunidade de descendentes.
Logo, vamos seguir o vosso exemplo, por assim dizer.
Chamo-me Kamau Sadiki.
É um prazer voltar aqui.
Vejo algumas caras familiares.
Tal como foi dito, pertenço ao Slave Wrecks Project,
que investiga naufrágios de escravos no mundo inteiro.
Há 150 anos,
cerca de 110 almas chegaram a esta terra estrangeira
sem saberem nada sobre o seu futuro
e a saberem que nunca mais veriam a família.
Chegaram a uma terra estrangeira
e a um país destroçado pela Guerra Civil.
Quando localizarmos o navio,
será um bom artefacto para contar a história.
O Clotilda representa um canal.
Um canal para o passado dessa história e desta comunidade
e para um futuro muito poderoso.
Um futuro poderoso para esta comunidade.
EM JULHO DE 2018, VÁRIAS ORGANIZAÇÕES
COORDENAM UMA BUSCA PELOS DESTROÇOS DO CLOTILDA.
SEM ESTAS PROVAS FÍSICAS, A HISTÓRIA DA CHEGADA DO NAVIO, EM 1860,
E DOS SEUS 110 CATIVOS, SÓ TEM SIDO MANTIDA ORALMENTE.
A minha mãe contou-me
que Timothy Meaher, um empresário local,
apostou que, após a abolição da escravatura,
ainda conseguiria trazer africanos para o país.
Foi buscar um grupo de africanos
e trouxe-os de volta para a foz do rio Mobile.
Deixou-os sair do navio e queimou-o para ocultar o crime.
Sei que tudo se resumiu a uma aposta
e que Timothy Meaher disse: "Podemos fazer isto."
William Foster, que fez o Clotilda,
zarpou em abril de 1860,
foi até Daomé, o atual Benim, capturou esses indivíduos,
voltou para a Baía de Mobile
e conseguiu libertar essas pessoas,
vendê-las a compradores, e escravizá-las.
Foster levou-o rio acima e incendiou-o.
O que sobrou acabou por afundar no rio.
Incendiou-o para isso,
para que nunca se encontrasse o navio nem nenhuma documentação.
Foi apagado aos poucos.
Está a desaparecer.
Tanto quanto me lembro, nunca apareceu nos livros de História.
Sempre se soube que isso aconteceu ali
e que as pessoas eram descendentes de quem veio num navio negreiro
que naufragou e ardeu,
mas ninguém transmitiu isso, porque tinham medo.
Os africanos ouviram durante anos: "Não repitam esta história.
Nem a mencionem fora da nossa casa,
porque podem ser mortos.
Podem ser linchados por fazerem tal acusação."
Estamos a falar de 1860 até aos anos 60.
São 100 anos sem poderem dizer nada.
UNIVERSIDADE DO SUL DO ALABAMA MOBILE, ALABAMA
Quando estudamos coisas de há 25 anos, é como irmos ao cemitério,
porque já morreram todos,
e tivemos pressa em apanhá-los antes disso.
Tenho o filho do Henry Williams, mas não o próprio. É uma pena.
A verdade está nos fragmentos.
Alguns folcloristas juntam-se aos historiadores
e reúnem coisas que revelam alguma verdade.
Eu gosto quando há caos e é tudo uma grande mentira.
Esta é a tia Martha do Gary e da Em.
Ela veio para casa para morrer.
… o bairro onde foi criada.
Nasci e fui criada em Plateau.
Também se chamava Africatown,
porque o avô da minha mãe, Cudjo Kazoola Lewis,
natural da Região Oeste do Gana, em África, era onde estava na América.
Eles vieram para os Estados Unidos em 1859.
DESCENDENTE DO CLOTILDA
Este lugar foi chamado mais tarde,
depois de ser povoado, Africatown.
O que gosto nisto é de ela ser muito régia.
É muito régia.
Vocês percebem.
Entre todos nós,
os historiadores e os folcloristas locais, temos o material.
Temos o material, mas…
… da geração que acabou de falecer.
Não uso um vídeo há uma eternidade.
Vamos lá.
Falo de algumas destas coisas ao acaso,
porque não estão organizadas na minha cabeça como eu gostaria.
Tal como foi dito, o capitão Foster tinha uma arma nas duas mãos
e ameaçou balear ou matar
que tentasse sair do navio.
Algumas pessoas foram levadas para Plateau,
algumas foram levadas para Selma,
e algumas para outro condado do Alabama.
Sempre dissemos que falávamos sobre isto entre nós,
mas não podíamos falar publicamente.
Por isso é que a história não se espalhou.
"Primeiro, dão-nos roupa e, depois, levam-nos pelo rio Alabama acima
e escondem-nos no pântano.
O Tim Meaher levou 32 de nós.
O capitão Bill Foster levou os oito casais.
Alguns enviaram rio acima e o Jim Meaher ficou com os restantes."
Há muitas coisas esquecidas nestas histórias,
mas é importante recuperá-las e recordá-las.
É importante ser-se humano, inteiro outra vez.
Sobretudo sobre navios negreiros. Têm histórias para contar.
Não só os grilhões, mas a panela.
Talvez sejam as contas que alguns africanos
levaram consigo a tentarem agarrar-se a algo
que fazia parte da sua cultura e herança.
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