Polar Bear

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Zveřejněno: 2022-04-25
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Casa.

É o lugar onde a infância e a memória vivem juntas.

Mas a casa da minha infância está a mudar.

O gelo de que dependemos está a derreter.

Eu e a minha cria temos um futuro incerto.

URSA POLAR

Nasci numa caverna de gelo, bem alta nas montanhas.

Mas o mar gelado, o gelo do mar, era a nossa casa.

Aqui é o lugar das minhas primeiras memórias.

A brincar com o meu melhor amigo,

o meu irmão gémeo.

E ela nunca esteve longe de nós.

A nossa protetora.

A nossa mãe.

Eu era mais forte do que o meu irmão. Mais curioso.

Mas ele era o independente.

Eu sempre segui os passos da mãe.

E havia todo um mundo que ela nos queria mostrar.

Havia tanto para aprender aqui.

Ela era a nossa única professora.

Eu copiava tudo o que ela fazia.

Não sabia, mas estávamos a caçar...

...por algo.

Por um odor.

Um odor debaixo do gelo.

Fosse o que fosse, era um bom odor.

O meu irmão também estava pronto para atacar...

Mas a mim, por norma.

A mãe continuava a bater no gelo.

Eu queria ajudá-la, mas...

...estava ocupada.

Depois, de repente, tudo se tornou claro.

Estávamos a caçar focas.

Bem, a mãe é que as caçava.

Ela era a nossa heroína.

Tê-la-íamos seguido para onde fosse.

E bem precisávamos.

Os machos de urso passam o inverno a remexer o gelo e são muito esfomeados.

Eu e o meu irmão seríamos uma refeição fácil.

Então, a mãe levou-nos à orla do gelo, ao oceano aberto.

O problema era que não sabíamos nadar.

Nem nunca tínhamos estado na água.

Estava um gelo.

E a única terra firme em vista era a minha mãe.

Ela sabia que não íamos aprender a nadar desta maneira.

E havia boa razão para nadar.

Finalmente, um lugar para descansar... pensei eu.

E eu estava errada.

Eu e o meu irmão não podíamos nadar mais e ela levou-nos para terra.

Nunca fui tão feliz a ser mordida e puxada pelo cachaço.

Estávamos a salvo.

Agora, podíamos descansar.

Em todas as primaveras, com o Sol a subir mais alto no céu,

os dias tornam-se mais longos e quentes.

O nosso mundo de gelo maciço começa a quebrar-se.

Aprendi que esta era a forma natural das coisas.

Mas era difícil de me habituar a este terreno novo, quebrado e movediço.

Acompanhar a mãe não era fácil.

Um pequeno passo para ela era um salto de gigante para nós.

E agora, pela primeira vez, ela deixou-nos sozinhos.

Ela tinha uma missão nova.

Vi-a a desaparecer silenciosamente, a tornar-se uma só com os bancos de gelo.

A mestre da caça.

A mãe sabia por experiência própria que, para poder apanhar uma foca,

teria de estar sobre o banco de gelo.

Logo que fosse à água, ela já não o poderia apanhar.

Não podíamos fazer muito.

Esperávamos apenas o seu regresso.

Mas ela não regressou. Ela continuava a caçar.

A mãe apanhou muitas focas nesse primeiro verão.

Fomos bem alimentados, sem que nada nos faltasse.

Na altura, a vida na nossa casa de oceano gelado era segura.

Hoje, o gelo do mar, outrora nossa casa, está a desaparecer.

As focas precisam do gelo do mar para procriar.

E nós precisamos de focas para caçar.

Somos ursos do gelo.

Como vamos sobreviver sem gelo?

A nossa mãe protegeu-nos e aqueceu-nos naquele longo inverno.

Para além das luzes dançantes no céu,

houve escuridão completa durante metade do ano.

Pensei que o Sol desaparecera, para sempre.

Lembro-me do dia em que, finalmente, reapareceu.

Eu e o meu irmão adorávamos a luz solar.

Podíamos partir à exploração, de novo.

Mas a mãe ia usar toda essa energia.

Ela tinha toda uma primavera planeada para nós.

É na primavera que precisamos de apanhar quase toda a comida para todo o ano...

...e rapidamente.

Em breve, irá desaparecer a maioria do gelo do mar e, com ele, as focas.

Este ano, a mãe esperaria muito de nós.

Ela queria que entendêssemos de verdade a caça às focas.

Acabou-se o tempo a observar entre lutas a brincar.

Eu também aprendi a não baixar a guarda.

Os machos eram uma ameaça sempre presente.

E este apanhou-nos completamente de surpresa.

Ele estava esfomeado, focado e sem piedade.

Não há distância segura de um urso-polar macho.

Mas há gelo seguro.

E a mãe sabia como o encontrar.

Ela seguia as fendas que levavam à orla do gelo do mar.

Era tão fino aqui, um urso macho grande cairia logo.

Mas, mais importante, para mim e para o meu irmão,

era podermos brincar juntos.

Nesses dias, cada momento sobre o gelo ensinava-nos algo novo.

Sobre os vários tipos de gelo,

as várias espessuras,

como planear um mergulho de barriga perfeito.

Foi uma tarde de puro descanso.

Com algum treino extra de caça às focas, para o meu irmão.

Uma cambalhota rápida na neve para secar o nosso pelo...

E seguíamos viagem de novo.

Tornámo-nos muito mais confiantes naquela primavera.

Mas a mãe era ainda o centro do nosso mundo.

Hoje, há pouco tempo para brincar.

Toda a nossa energia é gasta à procura de alimento.

Quero ensinar a minha filha a procurar focas.

Mas os lugares que me mostraram são cada vez mais difíceis de encontrar.

Quando o verão apareceu outra vez, o gelo parecia diferente desta vez.

Parecia mais quente. E derretia mais cedo.

Mas a quebra do gelo permitiu que presas novas aparecessem.

Presas que não eram as focas que outrora conhecíamos.

Baleias-brancas.

Nunca tinha visto uma baleia-branca.

Mas a mãe já vira.

E ela estava determinada em trazer uma para casa.

Apanhar presas na água é incrivelmente difícil.

Mas ela era persistente. Nós precisávamos de comer.

Finalmente, uma nadou direitinha a ela.

Mas escapou.

Mas ela ensinava-nos que o risco de caçar por comida valia a pena.

No verão, o Sol nunca se punha durante metade do ano.

A luz solar infindável traz toda uma onda de vida nova.

Todos anseiam expor a família a este quente Sol de verão.

Mesmo com tanta vida nova, o verão é sempre uma estação dura para nós.

Era preciso aproveitar todas as oportunidades.

As focas-comuns eram tão tentadoras.

Mas não havia bancos de gelo para ajudar a mãe a caçar.

Ela tinha de improvisar.

Estudava cada passo seu, enquanto ela caçava silenciosamente.

Mas quando ela era vista,

tornava-se num jogo da apanhada que nunca iríamos ganhar.

Elas faziam de nós gato-sapato.

Mas a mãe conseguia, de alguma forma, desencantar alimento de alguma parte.

Algas para o jantar.

Detestávamos algas para o jantar.

Sobretudo o meu irmão.

Ele preferia não jantar do que comer algas.

Com o arrastar do verão, a comida tornou-se mais escassa.

Ela existia, mas era de muito difícil acesso.

As aves vinham aos penhascos, todos os verões, pelas suas crias.

Faziam o ninho onde pudessem para se protegerem de predadores.

Cada metro quadrado era valioso.

Nós, ursos-polares, trepamos a tudo por comida,

e a mãe estava pronta para nos mostrar como.

Mas não éramos os únicos com fome, por estes lados.

Ela fora ultrapassada por outro urso macho.

A subida já era perigosa o suficiente.

A mãe não ia tentar fazê-la com ele lá em cima.

Os penhascos desfaziam-se por onde ele passasse.

Tentar apanhar uma presa que voa num penhasco perigoso não é opção.

Ele teve de se contentar com os ovos e as crias.

Mais abaixo, o meu irmão lá apanhou para nós uma refeição muito melhor.

Era a nossa pequena vitória.

O verão era muitas vezes assim.

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