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De første 200 linjer.

Mãe, olha o que fiz.

Entre, por favor.

Minha senhora, porque decidiu consultar outro terapeuta?

Ele era bom, não diria que não era.

A abordagem dele não se enquadrava com a minha visão das coisas.

Usava psicanálise tradicional.

Prefiro uma abordagem cognitivo-comportamental.

Parece muito bem preparada acerca do assunto.

Conheci muitos terapeutas.

E estudo Psicologia.

- Anda na universidade. - Não, estudo sozinha.

Fascina-me. Veja.

Compreendo.

Quando gostaria de começar?

- Que dia mais lhe convém? - Hoje.

Agora. Estou aqui.

Sim, pensei que quereria começar hoje,

mas trouxe o seu filho.

Não pode assistir à sessão.

Compreende a minha preocupação?

Não. Não tenho ninguém com o quem deixar.

Não é possível, acredite. Não seria bom para ele.

Mas quer ser psicoterapeuta quando crescer.

Não queres ser psicoterapeuta?

Tudo bem, mas é prematuro falar disso neste momento.

É um pouco perturbador ter esta conversa com ele agora.

Quantos anos tem? Dez?

Não tem amigos ou familiares com o quem deixar?

- Não. - O seu marido?

Não, nunca fui casada.

- O seu companheiro? - Não.

O pai da criança não podia fazer-lhe um favor?

Adotei o Stefano.

Não penso que devamos falar deste assunto, neste momento,

à frente dele.

Preocupa-me que queira falar do assunto.

Lamento, mas a criança não pode assistir à sessão.

Se quiser começar sessões de terapia,

para a próxima, terá de vir sozinha.

E tentarei ajudá-la.

Bela cadeira, não é?

Que idade tem?

Porque mo pergunta?

Descreveram-no como um homem muito compreensivo e sábio,

mas ainda não é um homem. O que fazemos?

O facto de ser jovem é um problema para si?

Neste emprego, como noutros,

a experiência é importante.

E não tem experiência para perceber o que me acontece.

É um rapaz. Podia ser meu filho.

E não pediria ajuda ao meu filho.

Que idade tem?

Tem 25 anos? Pode fazer este trabalho com a sua idade?

Tenho 33 anos.

Deixe-me explicar.

Ter muita experiência pode não ser bom.

Tal como ser muito novo não tem de ser um limite.

Neste trabalho, podemos habituar-nos ao que as pessoas dizem.

Apesar de ser sempre diferente,

podemos deixar de conseguir ser surpreendidos

ou ligarmo-nos a um doente.

Ficamos saturados.

O que me falta em inexperiência compenso-o com empatia.

E é muito importante ser compreensivo neste trabalho,

tal como noutros.

A clínica atribui-me poucos doentes

e só para exames gerais e avaliações psicológicas.

Só lá trabalhar há três meses, não é?

Quatro meses.

Tu consegues.

Façam favor.

- Temos de pagar agora, não é? - Não se preocupe.

Nunca cobro a primeira sessão.

- De certeza? - Sim, não se preocupe.

Diga-me, porque decidiu vir…

Não, Doutor, porque julgou que eu precisava das sessões?

É o que parece? Porque ia pagar?

Não, é ela que… Quero dizer…

Peço desculpa, não…

- Então, diga-me. - Não acredite nela.

É ela que… Estamos cá por ela não por mim.

Não percebo, qual de vós veio começar um tratamento?

Ou talvez o façam ambas? Não percebo.

Não, de todo.

Brincam comigo?

Não, Doutor, nunca faria tal coisa.

Imagino que antes de virem tenham discutido o assunto.

- Sim. - Claro.

Comecemos por aí. Digam-me, uma de cada vez…

Nem sequer sei os vossos nomes.

- Chiara. - Letizia.

Muito bem, Podemos começar por si, Chiara.

A Letizia não está bem.

- Tu é que não estás. - Letizia.

Deixe a Chiara falar. Fará o mesmo depois.

Está bem, desculpe.

A Letizia dorme até ao almoço.

- A Letizia fica… - Não, Chiara. Mas diga-me,

porque vieram até cá julgando vir acompanhar a outra.

É fácil.

Ela procurava um psicoterapeuta online.

- Não era para mim. - Sim, mas eu não sabia.

Eu disse: "Vamos juntas?" E concordou.

Achei que a Chiara queria vir, porque precisava.

E eu achei o contrário.

Não voltámos a falar do assunto e marcámos uma consulta.

- Porque não falaram mais tarde? - Não sei.

Talvez falar disto fosse desconfortável?

Claro que… Não sei… Temos vergonha.

Mas é interessante que tenham ambas assumido, ou melhor,

que tivessem a certeza de que a outra precisava de um psicoterapeuta.

Letizia, quer acrescentar algo?

Não.

Gostava de continuar a falar com ambas em separado,

em sessões diferentes.

Chiara, pode esperar na sala ao fundo do corredor, por favor?

Porquê? Não posso ficar aqui?

Preferia que não.

Está bem.

Letizia, está tudo bem?

Hoje, gostava de lhe perguntar mais duas coisas.

Pergunte a primeira.

Porque achou que a sua irmã precisava de sessões?

A minha irmã, apesar de talvez não dar essa impressão,

é uma pessoa muito introvertida, na minha opinião.

Acabará por me dizer se tenho razão.

Se a Chiara tem um problema, não fala disso.

Mas vejo que ela não está bem.

A Chiara foi abafada.

Por quem?

Pelos outros.

Não convive com muita gente, não cuida dela,

vejo que se retrai, parece encurralada, oprimida…

… oprimida por algo e não reage.

Garanto-lhe que a minha irmã é muito inteligente.

Mas é instável, muito instável.

Como se lhe faltassem as defesas que todos deveriam ter.

Não sei, com as pessoas, com as coisas que acontecem.

É fácil arrastá-la, magoá-la. Tudo a magoa.

Porque achou que a sua irmã assumiu que precisava de sessões?

Porque eu, por vezes, vomito.

Vomita?

Porque tive uns acidentes de carro e ela ficou muito preocupada.

Uns acidentes?

Três. No último mês.

Ainda não as conheço bem. É só uma hipótese.

Está bem.

Acho que cada uma de vós usa a irmã como um espelho.

Deixem-me explicar.

Acho que cada uma de vós usa a irmã como uma projeção de si própria

e guarda nela os desconfortos que sente.

Para falar deles.

Então, acha que quando eu falava da minha irmã,

na realidade, falava de mim?

É possível. Sim.

Vi um pouco da Chiara na descrição

que fez da sua irmã Letizia

e vice-versa.

E reparei que, quando não estavam juntas,

estavam mais descontraídas, vulneráveis.

Talvez quando estão juntas queiram mostrar-se fortes.

E isto é muito interessante para mim.

Gostava de perceber melhor a dinâmica da vossa relação.

Acho que seria mais útil fazer um tratamento individual

em sessões diferentes.

Para ambas.

- Estou? - Estou, Doutor, fala a Chiara.

- Da Chiara e Letizia. - Bom dia, Chiara.

Bom dia. Falei com a minha irmã e decidimos

começar com as sessões.

Fico contente. Ótimo.

Sim, pois, mas gostaria de lhe pedir algo.

- Diga. - Pois…

Se falarmos, não dirá à minha irmã o que lhe disse, pois não?

Não, Chiara. Não tem de se preocupar.

Deixe-me explicar. Existem

umas regras que os psicoterapeutas têm de cumprir.

Não podemos revelar a outras pessoas o que um doente diz.

Nem a outros doentes que sejam familiares.

Não se preocupe.

- Tem a certeza? - Tenho.

Está bem. Obrigada.

- Bom dia. - Muito prazer. Sou o Stefano.

Bem-vindo. Também me chamo Stefano.

Posso tratá-lo por tu, Doutor? Importa-se?

Não. Posso fazer o mesmo?

Claro.

Senta-te.

Ao telefone, parecias um pouco confuso.

- Queres falar disso? - Quero.

Não sei como explicá-lo.

Acho que tenho um problema com as minhas emoções.

Não consegues expressar as tuas emoções?

Não consigo senti-las. E não me sinto bem.

Se não te sentes bem,

quer dizer que és capaz de sentir emoções.

Sim, mas são emoções más.

Nunca me sinto a 100 por cento.

Que tipo de emoções más sentes?

Não sei. Às vezes, sinto como um peso no peito.

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