De første 200 linjer.
John Goodricke foi um homem a quem apenas foi concedido o
mais breve dos vislumbres das estrelas.
E, no entanto, poderia dizer-se que ele fez uma das
maiores descobertas de sempre.
Ele tinha ficado completamente surdo devido a uma doença infantil.
E talvez fosse por isso que ele era um observador tão atento.
Numa noite clara do Verão de 1784,
ele foi para o exterior para ver se uma determinada estrela ainda
continuava a fazer uma coisa que o desconcertava...
algo que nenhum outro astrónomo tinha relatado antes.
Goodricke tinha dificuldade em acreditar nos seus próprios olhos.
A estrela, chamada Beta Lyrae,
mudava regularmente de luminosidade durante um período de tempo muito curto.
Apenas dias.
O que é que poderia levar uma estrela a fazer aquilo?
Mais surpreendente ainda, Goodricke descobriu que podia
prever as suas variações com elevada precisão.
O que é que poderia causar uma tal mudança na luminosidade de uma estrela?
Nenhum dos cenários que lhe ocorreram explicava o
os factos defronte dos seus olhos.
Foi então que ele pensou noutra possibilidade.
Imaginemos que houvesse algo, a orbitar Beta Lyrae,
que eclipsasse a estrela de uma forma regular.
Mas o que é que poderia ser?
"Um mundo, talvez?"
E se houvesse um bilião?
Quando a descoberta de John Goodricke chegou ao conhecimento
da prestigiada Sociedade Real Britânica, em 1786,
ele foi imediatamente nomeado membro.
A notícia desta honra nunca chegou até ele.
Dias depois tinha morrido de pneumonia.
Tinha apenas 21 anos.
Passar-se-iam 150 anos antes que outro astrónomo
resolvesse o mistério de Goodricke
e, nesse processo, mudasse o nosso cosmos para sempre.
Mesmo quando criança, Gerard Peter Kuiper podia
ver mais longe do que qualquer outra pessoa.
Ele viu estrelas demasiado distantes e demasiado fracas para os outros
conseguirem descobri-las sem telescópio.
Isto foi nos Países Baixos há mais de um século.
Nesse tempo, o filho de um alfaiate pobre não podia
ter esperança de se tornar astrónomo.
Mas nada iria deter o rapaz.
À época, os astrónomos pensavam que o cosmos consistia em
apenas um punhado de planetas, os do nosso próprio Sistema Solar.
A grande multiplicidade das outras estrelas eram apenas pontos estéreis
de luz que nunca tinha dado origem a mundos.
Nós, por cá, na Terra, ainda nos podíamos sentir especiais...
O nosso Sistema Estelar, diziam-nos os cientistas,
era o mais raro de todos, um sistema abençoado por mundos e luas.
Kuiper ansiava por saber como é que o nosso Sol e seus planetas
tinham surgido
e rumou para a Universidade de Leiden,
onde rapidamente se distinguiu.
Foi convidado a juntar-se à dinâmica comunidade astronómica
dos Estados Unidos, mas Kuiper era pouco polido,
era argumentativo e facilmente arrastado para o conflito
com colegas.
A perspectiva de dirigir um observatório remoto, muito longe
das capitais da cultura científica, deve
ter-lhe agradado.
E, além disso, lá podia ver melhor as estrelas
do que em praticamente qualquer outro lugar.
Kuiper recebeu uma nomeação para o Observatório McDonald,
situado num canto do Oeste do Texas.
Na viragem do século, tinha-se descoberto que metade das
estrelas visíveis eram, na realidade, pares gravitacionais.
A maioria das estrelas binárias são como gémeos
formados a partir do mesmo ventre de gás e poeiras.
Outras envelhecem separadamente e envolvem-se gravitacionalmente
uma com a outra numa fase mais tardia do seu desenvolvimento.
E a outra metade permanece solitária durante toda a sua vida.
Kuiper optou por se concentrar nas estrelas binárias.
Ele queria saber se elas poderiam lançar luz sobre a forma como os
planetas do nosso Sistema Solar se formaram e passaram a estar
gravitacionalmente ligados ao Sol.
Ascensão recta: 18 horas, 50 minutos.
Declinação: +33 graus,
21.75 minutos.
Mm-hmm.
Kuiper olhou para a mesma estrela que
tinha desconcertado John Goodricke 150 anos antes,
mas Kuiper estava a olhar para ela com um telescópio muito maior.
E Kuiper dispunha de um poder fantástico que não
existia no tempo da Goodricke: a espectroscopia.
A espectroscopia é uma forma de decompor a luz de qualquer
estrela para encontrar a sua específica
composição atómica e molecular.
Kuiper olhou para o espectro da luz produzida
por Beta Lyrae e viu que, tal como com todas as estrelas,
havia muito Hidrogénio e Hélio,
mas havia também Ferro, Sódio e Silício.
Até aí, nada de novo.
Agora vem a surpresa...
Linhas brilhantes?
De onde é que vinham essas linhas brilhantes?
Nessa altura nenhum astrónomo compreendia o porquê de linhas brilhantes
aparecerem no espectro de uma estrela.
Kuiper chegou à conclusão de que as duas estrelas
estavam tão próximas que estavam a trocar matéria,
gases superquentes, que seria aquilo que produziria uma tal assinatura.
Ao tentar compreender o que tinha visto naquela noite,
Kuiper descobriu — e nomeou — a mais interestelar
das relações do cosmos...
estrelas que estão fisicamente acorrentadas numa unicidade eterna,
ligados entre si pela gravidade e uma por uma ponte de fogo
feito de material estelar,
ponte com cerca de 13 milhões de quilómetros de comprimento,
ligando duas estrelas,
uma delas três vezes maior do que o nosso Sol,
a outra treze vezes maior ainda.
Um sistema estelar designado por 'binária de contacto'.
Porque não são elas redondas como a nossa própria estrela?
Elas estão tão próximas uma da outra,
que as forças de maré da gravidade as mantém juntas e as esticam como
que em lágrimas flamejantes.
O sistema de Beta Lyrae está a cerca de 1 000 anos-luz da Terra.
Os maiores telescópios de meados do séc.XX pura e simplesmente não eram
suficientemente potentes para as conseguir distinguir como estrelas individuais.
Era necessário esse novo poder da espectroscopia
para as desentrelaçar.
Kuiper imaginou como poderia ter acontecido a formação do
sistema estelar binário de contacto.
Ele deduziu que elas tinham sido formadas quando uma vasta nuvem de
gás e poeira se tornou tão densa que se formaram vórtices gravitacionais.
Ao pensar nestas binárias de contacto,
Kuiper não pôde deixar de se perguntar se, alguma vez, teria acontecido
alguma destas núpcias estelares não se incendiar...
Assim sendo, interrogava-se Kuiper, seria que o nosso mundo,
a nossa Lua e todos os planetas do nosso Sistema Solar não fossem
mais do que um sistema estelar binário falhado?
E, se tivesse sido assim que o nosso Sistema Solar foi criado,
teria a mesma coisa acontecido em torno de outras estrelas por esse cosmos fora?
Gerard Kuiper tinha um poder especial,
ele conseguia ver mais longe do que qualquer outra pessoa.
Ele foi o primeiro a entrever o Universo em que vivemos agora,
não uma imensidão estéril, escassamente pontilhada por estrelas sem filhos,
mas um universo a transbordar com mundos possíveis,
incontáveis planetas e luas.
Em 1949, Kuiper surpreendeu o mundo ao declarar que,
afinal, o nosso Sistema Solar não era assim tão especial,
que todas as outras estrelas tinham a sua própria família de mundos.
Um mundo, talvez?
Mas a ciência não estava pronta para esse Universo,
não estava sequer pronta para os primeiros passinhos para fora do planeta.
E porque não?
A ciência estava fragmentada em pequenos reinos,
— as várias disciplinas científicas — e os cientistas de
uma disciplina não colaboravam com ninguém de outra.
Mas isto tinha de mudar para nos aventurarmos para além da Terra.
Tudo chegou a um ponto culminante numa disputa entre Kuiper e
um outro grande cientista.
Tal como duas estrelas de um sistema binário de contacto,
eles não podiam desligar-se.
Mas apesar da sua aversão recíproca,
eles conseguiram criar um novo tipo de ciência e
foram pioneiros da Era Espacial
como mentores do seu maior visionário e voz divulgadora.
Por vezes o cosmos intromete-se
e arromba-nos a porta, como esta noite.
O que é que está aqui a acontecer?
O nosso planeta está a atravessar os restos épicos de um cometa,
um campo de destroços com milhões de quilómetros de comprimento.
É por isso que parece estar a haver uma chuva estrelas esta noite.
Mas não são de todo estrelas,
apenas pedaços de rocha e gelo a arder na atmosfera da Terra.
Chama-se chuva de meteoros.
E esta acontece na mesma altura todos os anos.
Porquê?
Porque demora um ano para que a Terra orbite o Sol e
volte a esse mesmo local onde os cometas
há muito deixaram o rasto da sua passagem.
E é isso precisamente que significa passar-se um ano.
Isto pode ser um pedaço daquele cometa ou, possivelmente,
um fragmento de um asteróide.
Veio de outro mundo,
uma sobra da criação do nosso Sistema Solar.
Mas como decifrá-lo?
Bem... no tempo de Gerard Kuiper,
em meados do século XX,
dependia do tipo de cientista que se fosse.
Os Geólogos trariam os seus martelos e partiriam aqui o
calhau para verem a sua poeira ao microscópio e
estudarem a sua estrutura cristalina.
Era a maneira deles de descobrirem que peça em falta
neste quebra-cabeças da Terra poderia o meteorito fornecer.
Os Químicos estavam à procura das mesmas respostas,
mas enfiavam com ele em ácido para ver se poderia ser
transformado de um composto para outro,
torturando-o para ver se ele entregava
os seus segredos sobre a Natureza.
Os Físicos iriam querer vê-lo no seu estado mais nu,
despido até não ser mais do que sua massa, a sua densidade, a sua dureza...
a sua resistência ao calor...
Os Biólogos nem sequer paravam para o apanhar.
Naquela altura, eles ter-se-iam limitado a passar por ele porque
não pensavam que houvesse qualquer hipótese de um meteorito vindo
do espaço poder ter alguma coisa a ver com eles.
A vida só podia ser de um lugar, este aqui mesmo, a Terra.
E querem saber a coisa mais louca?
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