De første 200 linjer.
Poderemos conhecer o Universo?
Serão os nossos cérebros capazes de compreender o cosmos em
toda a sua complexidade e esplendor?
Ainda não sabemos a resposta a essa questão porque o nosso
cérebro permanece quase tão misterioso
como o próprio Universo.
Pensamos que o número de unidades de processamento no nosso cérebro
é aproximadamente igual a todos as estrelas de mil galáxias...
Pelo menos 100 biliões.
E é possível que o número real de unidades de processamento
seja dez vezes maior.
Estamos no interior de um cérebro,
presa de um furacão de Categoria 5 de forças químicas
e eléctricas.
A tempestade veio sem aviso,
espalhando o caos e o sofrimento a toda a sua volta...
Mas também proporcionou as primeiras pistas para a natureza deste
pequeno cosmos.
Estamos a viajar 2 500 anos para trás, no tempo, para a ilha
de Kos no Mar Egeu.
Esta é a história de um salto gigantesco na
história do pensamento.
Foi aqui que um dos feitiços mais poderosos
que têm turvado a mente foi quebrado pela primeira vez.
Imaginem que são os pais amorosos de um
filho único precioso.
O menino é dado a momentos de brilhantismo,
que encantam e impressionam os vossos amigos.
Mas há algo de errado...
Há uma tempestade a formar-se dentro da sua cabeça...
Peleu! Peleu!
Isto era medicina há 2 500 anos na Grécia.
A ideia de que o ritual de apaziguamento de um dos deuses
poderia trazer a cura para uma crise de epilepsia era
pensamento mágico.
Quando os Gregos ― e povos de outras culturas ― realizavam os seus rituais,
alguns dos doentes recuperavam,
devido ao curso finito da doença,
ou aos seus próprios sistemas imunitários.
Mas para os pacientes e para os seus entes queridos,
significava que os deuses tinham sido apaziguados.
E quando o paciente morria?
Isso só significava que os deuses estavam tão zangados
que não havia nada a fazer.
Esta forma de pensar foi um subproduto dessa grande força ― e fraqueza ― humana,
chamada reconhecimento de padrões.
Neste caso, falso reconhecimento de padrões.
A crença de que a epilepsia era causada pela ira dos
deuses era a confusão de correlação com causalidade,
e a esperança ilusória que prevalece quando
as pessoas se sentem impotentes.
Isso não quer dizer que os antigos Gregos não tivessem
remédios, plantas e minerais para utilizar como medicamentos.
Mas para uma doença tão misteriosa como a epilepsia,
só podiam acender o seu incenso e rezar.
Eles nem sequer sabiam que tinha alguma coisa a ver com o cérebro.
E então apareceu Hipócrates.
Hipócrates rejeitou a noção de que deuses irados fossem
a causa de doença e de lesões.
Escreveu ele: "O médico deve investigar o paciente na sua totalidade,
a sua dieta e o seu ambiente...
O melhor médico é aquele que é capaz de
prevenir a doença.
Não acontece nada que não tenha uma causa natural."
Só por isto... já ele poderia ser chamado o Pai da Medicina.
Ele é creditado com a autoria de um código ético para os médicos.
O juramento que lhe é atribuído data do séc. III a.C. e é ainda
prestado hoje por aqueles que irão praticar medicina.
E foi Hipócrates quem esteve entre os primeiros
a declarar o cérebro como sede da consciência.
É difícil de acreditar...
mas isto já foi um conceito revolucionário.
A convicção dominante era a de que, na verdade,
pensávamos com o coração.
E pode ter sido aqui que ele fez uma
das grandes profecias da história da ciência.
Hipócrates compreendeu que, tanto ele como os seus contemporâneos,
chamavam à epilepsia "a doença sagrada"
por não compreenderem a sua causa física.
Escreveu ele: "Quando compreendermos, deixaremos de pensar que é divina".
Aquele rapazinho não tinha sido amaldiçoado.
Havia uma disfunção física dentro do seu cérebro.
Enquanto a procurássemos no capricho dos deuses,
não havia esperança de o ajudar, nem a ele... nem a nós próprios.
No entanto milhares de anos passaram
e o cérebro permaneceu um mistério.
Entre 420 a.C. e o século XIX,
a nossa compreensão do cosmos cresceu a passos largos.
Descobrimos a velocidade da luz...
as leis da gravidade...
e aprendemos que o nosso Sol faz parte de uma galáxia maior
de estrelas e, no entanto, 2 300 anos depois de Hipócrates,
ainda não sabíamos praticamente nada sobre a parte de
nós próprios que tornaram possível fazer estas descobertas:
os nossos cérebros.
Poder-se-ia até dizer que, de facto, sabíamos menos.
O estudo do cérebro tinha ficado preso num
beco sem saída pseudocientífico, chamado "frenologia",
que sustentava que a partir da forma do crânio de uma pessoa,
se podiam deduzir a sua inteligência e
a sua credibilidade.
Seguiu-se um frenesim de medição da cabeças.
Um dom para as línguas residia por cima da maçã do rosto
e a fidelidade conjugal localizava-se atrás das orelhas.
E não é de surpreender que
frenologistas Europeus tivessem descoberto que as suas
próprias cabeças representavam o padrão universal
de excelência cerebral...
A primeira percepção real sobre a ligação
entre a mente e o cérebro teve lugar em França, em 1861.
E aqui, uma vez mais, a epilepsia desempenhou um papel crucial...
O hospital psiquiátrico Bicêtre era o que havia de mais moderno em
em Paris nessa altura.
No século anterior, tinha sido o primeiro a
introduzir práticas humanas no tratamento dos loucos
e dos deficientes mentais.
E, entre os médicos que lá trabalhavam, o cirurgião Paul Broca foi
especialmente admirado pela forma esclarecida de tratar
os seus pacientes.
Tan...
O nome do paciente era Louis Leborgne,
Tan...
mas toda a gente lhe chamava "Tan" por ser essa
a única sílaba que ele pronunciava desde os 30 anos.
Ele tinha agora 51 anos.
Tan tinha tido ataques epilépticos desde a infância
mas estava internado no Bicêtre porque tinha perdido
todos as capacidades de expressão, excepto a de poder dizer "tan".
Agora, o pobre Tan estava a morrer.
O seu lado direito tinha ficado paralisado
e a gangrena tinha-se instalado.
Antes da crise médica de Tan,
Broca tinha especulado a respeito de que regiões específicas
do cérebro poderiam ser responsáveis pelos
poderes da fala e da memória.
Broca queria saber tudo o que pudesse
sobre o doente moribundo, na expectativa do que um
post-mortem poderia vir a revelar.
Não sabemos se a epilepsia de Tan causou os danos no seu cérebro,
ou se uma lesão não declarada, na infância,
causou a sua epilepsia e posterior perda da fala.
Tan...
Mas por causa do trágico destino de Tan,
Paul Broca pôde associar,
pela primeiríssima vez, uma parte do cérebro humano,
― neste caso a região que foi danificada ―
com a sua função especializada: a capacidade de usar a fala.
A sua recompensa...
essa parte do nosso cérebro tem sido conhecida desde então
como " área de Broca ".
O cérebro do próprio Paul Broca foi parar a um frasco
como este, numa arrecadação dos fundos do
museu antropológico que ele dirigia,
com prateleiras por cima prateleiras de cérebros de assassinos em massa e
de outros grandes criminosos, bem como anomalias congénitas
que pareciam fascinar o público do
século XIX.
Broca era um humanista.
Ele concluiu que existiam profundas ligações na fisiologia cerebral
entre os primatas não humanos e nós.
Fundou uma sociedade de livre-pensadores na sua juventude,
acreditava apaixonadamente na importância
da investigação sem entraves
e viveu a sua vida na prossecução desse objectivo.
Mas até ele estava parcialmente cego pelos preconceitos que
permeavam a sua sociedade.
Ele pensava que os homens eram mentalmente superiores às mulheres,
e que os brancos eram superiores a todos os outros.
As insuficiências dos seus ideais humanistas mostram que, mesmo alguém
tão empenhado na livre busca do conhecimento
como Broca, ainda pode deixar-se levar por um sectarismo endémico.
A sociedade corrompe os melhores de nós.
É um pouco injusto,
penso eu, criticar uma pessoa por não partilhar
o esclarecimento de uma era posterior,
mas também é profundamente triste que tais preconceitos tivessem
sido tão generalizados.
A questão suscita incertezas incómodas sobre quais dos
pressupostos da nossa própria era serão considerados
imperdoáveis pela próxima...
Broca estabeleceu, pela primeira vez, que existiam
correlações físicas entre anatomia e função,
mas que dizer da energia crepitante da consciência?
E quanto àquilo de que são feitos os sonhos?
Não se pode pôr num frasco...
Quando os antigos Egípcios olhavam para cima, à noite,
eles viam a parte anterior do corpo de Nut,
a deusa da Via Láctea.
Quando fechavam os olhos e começavam a sonhar,
acreditavam que estavam a transitar para o além.
E assim, sonhar era ritualizado numa espécie de
culto, um meio de aprender o que o futuro lhes reservava,
ou para enviar uma mensagem para o deuses, enquanto adormeciam.
Os fiéis faziam uma peregrinação a
um templo... para sonhar.
Para se prepararem, retiravam-se para um
local isolado,
e jejuavam para limpar a mente e o corpo.
Uma oração podia ser escrita a um deus em particular...
e queimada.
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