Las primeras 200 líneas.
GAROU-GAROU, O HOMEM QUE CONSEGUIA ATRAVESSAR PAREDES
Magnífico, amigos: ficar horas a contemplar, com admiração, como trabalha um grande artista.
- Gostas, rapaz? - Sim.
És um conhecedor. E tu, talhante?
Preferes carne.
E o senhor? Não é demasiado moderno para si?
Olha exatamente como aquele homem que recentemente recusou um dos meus quadros.
Disse-lhe: "Está a condenar-me à morte por fome."
Disse: "Os borrões não são, de todo, pintores que ganhem o pão."
Jean-Paul!
Jean-Paul!
Ali está o Léon!
Tenho uma coisa maravilhosa para te contar.
- Problemas com a família? - Já os tinha!
O teu patrão pôs-te na rua?
Porta? Se tu soubesses! As portas não me dizem nada!
É grave. Vem depressa.
Está bem. Já vou.
Meus queridos amigos, tenho de ir.
O meu sindicato proíbe longos dias de trabalho.
Mas se quiserem ficar... Amanhã estarei de volta.
Força.
Espero que finalmente me digas o que se passa.
Aqui, sim. Demasiado grave para a rua.
Estás a assustar-me.
- Fizeste alguma estupidez? - Não.
Não quero ler mais tarde no jornal:
"Um funcionário do serviço de registo revela-se
- líder de um bando internacional"? - Brincadeira de crianças!
- Conta. - Não vais acreditar em mim.
- Vais contar-me ou não? - Está bem. Calma. Vem.
Senta-te e segura-te.
Vais ver. É algo inacreditável, louco.
És bom para mim, por isso conto-te.
- És um chato. - Tratas-me como o teu irmão.
Tenho um fraquinho pelos pobres desgraçados.
Já não sou.
Conta, ou parto esta garrafa na tua cabeça.
Senta-te e deixa essa garrafa em paz.
Ontem à noite estava aqui, para fazer música,
como muitas vezes. Falava de problemas
com a minha irmã e o marido dela. Conheces aquele brutamontes.
Fiquei para comer. Deixaste-me beber qualquer coisa...
- Não. Foste tu que bebeste. - Bem, enfim.
Quando cheguei a casa por volta da meia-noite, estava tocado.
Subi as escadas e pensei: "O Gaston torce-te o pescoço."
Porque não gosta de mim. Oh, não.
Se ele me pudesse pôr fora de casa,
sob o pretexto de ter casado com a minha irmã...
Em suma, chego ao patamar.
É o quarto andar, não é? Está bem.
Então procuro as chaves no bolso.
Onde estão? Ah, aqui estão.
Quero abrir a fechadura,
mas... está bloqueada.
E a outra fechadura?
Também bloqueada.
Então penso: vou tocar à campainha.
O Léon continua a ser meu irmão.
Mais uma vez, Germaine, não abro.
E proíbo-te de ir.
Suportei o seu cornetim, mas noctívagos bêbados: não!
Não é possível viver com ele.
Mas é o apartamento dele.
Também é teu, porque era dos teus pais.
E tu és o mais velho. E és casado.
E isso não me interessa.
- Onde é que ele deve dormir? - Onde quiser. Não aqui.
Ele não vai continuar a tocar à campainha!
- O que vais fazer? - O que vou fazer?
Dar-lhe uma ordem de alojamento. Dizer-lhe que tem de se ir embora.
- O que se passa? - Sou eu. Léon.
- Não conheço. - Léon,
o irmão da sua mulher, o seu sogro.
Já não tenho sogro.
Vai para casa.
Noctívago!
Gaston, estou em casa. A minha casa é aqui.
Exatamente. Fica aí e não nos incomodes.
Não, ele tem lata.
Estou estupefacto. E agora?
Nesse momento, apaga-se a luz.
Estou às escuras.
Procuro o interruptor às apalpadelas. Carrego nele.
Mas... já não estou no patamar.
Estou no meu quarto. Estupefacto.
Não pode ser!
E então? O que dizes disso, cash?
O que digo disso...
Digo que ainda não me provaste nada.
Estavas bêbado e esqueceste
que o teu sogro teve pena e abriu.
Ainda não acabei...
Não me faças ouvir-te a noite inteira!
Na manhã seguinte, ou seja, esta manhã... Senta-te.
- Outra vez? - Calma
e segura-te.
Como sempre...
Com o seu ridículo fato de ginástica
o meu sogro fazia a sua ginástica matinal
enquanto a minha irmã lhe dava o pequeno-almoço.
Não tinhas o direito de pôr o Léon na rua.
- Porquê? - Quando casaste comigo
não tinhas casa própria. Estavas satisfeita com a dele.
Ainda estou. Só quero viver lá sozinha.
Sem o Léon, terás de trabalhar. Ele trabalha!
Assistente na Conservatória do Registo. 18 000 francos.
Ridículo.
Mas vivíamos os três juntos.
Gansa tonta. Há cinco anos
trabalho no projeto de um motor auxiliar a jato
para bicicletas. Agora tenho de ir trabalhar para a fábrica?
Só pensas em comida, tal como o teu irmão.
Que belo par, esses Dutilleul!
- Olá, Germaine. Olá, Gaston. - Léon!
Está tudo bem esta manhã?
- De onde vem? - Do meu quarto, naturalmente.
O que lhe deu?
Enlouqueceu?
Olha para ele.
- Como entrou? - Que pergunta! Pela porta.
Impossível, está trancada,
há até uma barra adicional à frente.
Então pela janela, se prefere.
Chega de disparates. Responda.
Responda, senão a tensão dele sobe.
Que resposta?
Se não foi pela porta nem pela janela,
então talvez tenha atravessado a parede.
Não goze connosco: através das paredes?
Então?
Arranje uma explicação.
Tente arranjar uma para o almoço.
Vou para o escritório. Até logo, rapaz.
Rapaz?
- Não vai atravessar a parede? - Não se a porta estiver aberta.
Até à vista.
- Como entrou? - Não quero voltar a vê-lo.
E quanto ao seu cornetim, deita-o no lixo.
Continua a ser ridículo.
Uma vez no segundo andar, quero repetir a experiência.
Ninguém desce as escadas, ninguém sobe as escadas.
Então aproximo-me cautelosamente da parede...
Experimento com um dedo... Entra.
Um segundo...
Um terceiro... Valha-me Deus!
A minha mão desliza para dentro como manteiga. Depois o braço inteiro.
Isso não lhe acontece!
Não. Está a brincar. É impossível.
Também pensei isso, mas afinal é possível. Então pensei:
"Se o meu braço consegue passar, o resto também consegue." Então...
Oh! Minet! Partiste outra coisa! Bicho maldito!
Aquele vestido!
O que se passa com esse... vestido?
Que irritante, esse vestido.
Socorro!
Senhor, está um homem em minha casa.
Tenho medo. Venha depressa. Defenda-me.
Venha.
Ali. Ali está ele.
- Não o vejo. - Ele estava ali.
Estava diante do espelho.
Vesti o meu vestido. E então...
Abra bem os olhos!
E isto ainda não é nada.
- Meu caro Léon... - Nada de "caro Léon".
Se não tivesses o coração fraco, mostrava-to.
Continuo. Aquela senhora desmaiou.
Pensei: "Vou chegar atrasado ao escritório."
E então pensei no Gaston,
o meu querido sogro.
Pensei: "Tornas a minha vida um inferno. Vais sabê-lo."
Então
subi novamente as escadas.
Deviam ter visto o Gaston. Ficava bem na bicicleta.
O senhor testava o seu projeto.
O que se passa?
Meu Deus! O que aconteceu?
Para voar, primeiro tem de tirar o seu brevet.
Se isso é verdade, é urgente...
Vamos a um médico.
Não estou doente. Estou em ótima forma.
- Vamos a um especialista. - Em quê?
Não sei, psiquiatria. Veremos.
Estás a desintegrar-te, homem. Vou chamar um médico.
Tenho de ir para o escritório. Vou levar nas orelhas.
É o que diz um homem que atravessa paredes. Funcionário público!
Um médico...
Arranje um que não seja demasiado caro, porque...
Sim, sim, sim.
Verdadeiramente fascinante, não é, professor?
"Fascinante..." É divertido.
Apenas "divertido"?
Parece-me que alguém que pode atravessar paredes...
Admito que é raro.
Uma pergunta importante.
Essas coisas também acontecem quando anda para trás?
"Para trás"?
Ainda não experimentei.
Deixe-me ver.
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