نخستین 200 خط.
SEIS CONTOS MORAIS
O AMOR ÀS 3 DA TARDE
PRÓLOGO
A mamã já vem.
- Hélène? - Entra.
Tenho de ir andando. Estou atrasado e tenho imenso que fazer.
Eu estou pronta. Podes ir.
- A Ariane está a chorar. - Eu já vou, estou pronta.
- Vais ficar encharcado! - Não faz mal, tenho o impermeável.
Até logo, querido.
'No comboio, prefiro o livro ao jornal.
'Não apenas devido à comodidade do formato.
'O jornal não me prende a atenção o suficiente,
'não faz com que me abstraia do presente.
'O meu trajecto, de manhã e ao fim do dia,
'corresponde à dose de leitura que gosto de absorver sem interrupção.
'À noite, em casa, também leio, mas outras coisas.
'Gosto de ler várias coisas ao mesmo tempo,
'cada uma no seu tempo e local,
'deixando-me transportar para fora do local e do tempo em que vivo.
'Não conseguiria ler se estivesse só, numa cela com paredes nuas.
'Preciso de uma presença física ao meu lado.
'Quando era estudante, não conseguia ficar no quarto depois de jantar.
'Hoje em dia, eu e a Hélène saímos pouco.
Entre tantos tipos diversos de beleza,
'porque me terá a dela tocado?
'Já não sei dizer.
'Actualmente, quando vejo uma mulher,
'já não consigo, como antes,
'catalogá-la como eleita ou como reprovada.
'Não só o meu gosto já não é tão rigoroso,
'como já não sei sobre que critérios basear o meu julgamento
'sobre essa "qualquer coisa"
'que todas as mulheres deviam possuir para me atrair,
'e que eu entrevia ao primeiro olhar.
'Desde que me casei, acho todas as mulheres bonitas.
'Nas suas ocupações mais inesperadas,
'restituo-lhes o mistério de que outrora as destituía.
'A vida delas suscita-me curiosidade,
'mesmo que não me traga nada de novo.
'Que teria acontecido se tivesse encontrado esta jovem há 3 anos?
'Ter-me-ia ela chamado a atenção?
'Ter-me-ia eu sentido atraído? Teria desejado ter um filho dela?
'Gosto da cidade. A província e os subúrbios oprimem-me.
'Apesar da confusão e do barulho, não hesito em mergulhar na multidão.
'Gosto da multidão como gosto do mar.
'Não para aí me afogar, me fundir,
'mas para vogar à superfície, qual pirata solitário,
'entregando-me ao seu ritmo,
'pronto para retomar o meu assim que a corrente muda.
'Tal como o mar, a multidão tonifica-me
'e favorece a minha fantasia.
'Quase todos os pensamentos me surgem na rua,
'mesmo aqueles relacionados com trabalho.'
- Bom dia. - Bom dia.
- Bom dia, Fabienne. - Estou atrasada?
Não, eu é que cheguei mais cedo.
- Quer que bata o texto? - É escusado, eu faço-o.
- Se tiver muitos erros, corrige-o. - Vou terminar o dossier do 20.
Um momento, não desligue. É para si, Fabienne.
Estou óptima, obrigada.
- Atenda a chamada no gabinete. - Não vale a pena, é rápido.
Sê breve, estamos com imenso trabalho aqui.
Além disso, vemo-nos esta noite. Nada mudou, estou óptima.
Agora, deixa-nos trabalhar.
Até logo. Combinado. Adeus.
- Bom dia. - Bom dia, Martine.
É o casaco novo?
- Fica-te muito bem. - Achas?
Sim, é giríssimo!
A cor é engraçada, mas que achas do modelo?
É bonito. É daqueles que não passam de moda.
Esse verde é maravilhoso.
Como estás? Bom dia, Martine.
Venha, Martine, tenho uma carta urgente para ditar.
Muito sinceramente, prefiro que nos encontremos no meu escritório.
Sim, estaremos mais à vontade para falar.
E eu terei todos os documentos à mão.
Não, nunca almoço. Como apenas uma sanduíche à tarde.
Pelo contrário, é excelente para a saúde.
Então, estamos combinados? Amanhã às quatro? Adeus.
Não, ela saiu para ir almoçar.
Não sei, já devia ter voltado. Não desligue.
Ei-la. Martine, é para si.
Obrigada.
- Volto às três. - Muito bem.
- Bom dia. Como estás? - Bem, obrigado.
- Não nos víamos há uma eternidade. - No outro dia encontrei o Gérard.
- Parece que o negócio vai bem! - Demais. Teremos de nos expandir.
Vamos ser invadidos por burocracia. Senta-te. Tens um bocado?
Já estou atrasado. Há meia hora que devia estar no escritório.
Eu não tenho horário.
Trabalho quando os outros almoçam e almoço quando eles trabalham.
Assim, estou sempre descontraído.
Não és o único. Tenho um horário, mas não sou obrigado a cumpri-lo.
Julgas-te privilegiado, mas há milhares como tu. Olha só.
A esta hora, vêem-se mais mulheres e reformados.
Mas também homens, todos esses tipos com pastas.
Aquele deve ser um vendedor.
- Não, até tem ar de advogado. - Ou de professor.
Ou um agente secreto. Um agente secreto belga ou holandês.
Gosto de ver gente nas ruas.
É isso que torna Paris agradável.
Não imagino nada mais sinistro
do que as tardes na província ou nos subúrbios.
Não imaginas como me deprime.
Também tens a angústia da tarde?
Mesmo em Paris, só me sinto bem depois das quatro da tarde.
Deve ser por causa do hábito idiota de almoçar.
É por isso que quase nunca almoço.
Mas reprimo a minha angústia,
se é que lhe posso chamar isso, fazendo compras.
Não gosta do verde?
Não, nem por isso.
- Esta cor fica-lhe muito bem. - Não era bem o que eu procurava.
- Que é que não lhe agrada? - Nada.
Digamos que não morro de amores por ela.
Sei que o azul me fica bem, mas apetecia-me mudar.
- Nesse caso, leve a verde. - Não me fica bem.
- Vou pensar. - Como queira.
Posso ver as camisolas de gola alta?
Julgo que já não tenho nada para o seu tamanho.
Só em branco ou num bege um bocado feio.
E azul-marinho?
Não há nada. Passe por cá para a semana.
Está a ver. Não é lá muito bonita.
- E aquela? - Não é o seu tamanho.
E isto são camisas. Mas talvez as cores até lhe fiquem bem.
Esta aqui, por exemplo.
Fica-lhe muito bem. Realça-lhe os olhos.
Experimente-a. Os provadores são ali.
Mas eu não quero camisas.
Experimente-a, mesmo assim.
Se não lhe ficar bem, não precisa de a levar.
Aviso-a que não a vou levar.
Mas experimente. Por curiosidade.
- Posso? - Com certeza!
- Está a ver? Fica-lhe bem. - Não é um bocado estreita?
Não.
Abotoe-a e verá.
O colarinho não é alto demais?
Não admira, estava aqui um alfinete.
É impecável. Parece feita à sua medida.
- Não arranha um bocado? - Não! É caxemira pura!
É macia, leve e não precisa de ser engomada.
Bem.
Vou levá-la.
Se a gerência é maioritária,
o sócio-gerente, ainda que minoritário,
é considerado maioritário aos olhos da lei.
Não pode ser patrão e empregado ao mesmo tempo.
Entre.
- Não precisa mais de mim? - Não, obrigado.
- Posso acabar o contrato amanhã? - Pode ser.
Escuta, vem aí o papá.
Dizes olá ao papá?
Olá, Ariane.
Olá, querido.
- Já sei, é uma camisola. - Não, é uma camisa.
Receio ter sido enrolado.
Vou experimentá-la para me dizeres o que achas.
Foste às compras? A que horas?
Por volta das três, acho eu.
Podíamos ter-nos encontrado. Estranho, nunca nos encontramos.
- É bonita. Gosto muito. - A sério?
E é macia.
É macia por fora, mas por dentro pica um pouco. Hei de habituar-me.
Atrasei-me um bocado nas compras e o jantar ainda não está pronto.
Ainda bem que te agrada, eu não estava muito convencido.
Não sabia que eras tão influenciável.
A vendedora era muito astuta. Parecia estar-se nas tintas.
Gostei dela assim que a vi. Não me acontece muitas vezes!
Posso sair ao meio-dia e meia? Vêm buscar-me para almoçar.
Com certeza.
Ainda não lhe disse, mas vou casar-me.
Que bom!
Muitos parabéns!
E é para quando?
Este Verão, durante as férias, provavelmente.
- Cuidado, as férias estão longe. - Não tenho pressa.
Mas não está a pensar deixar-nos, não?
- Gostava que cá ficasse? - Claro.
O meu sogro propôs-me trabalhar com ele,
mas nem eu nem o meu marido queremos trabalhar juntos.
Prefiro vir para o escritório e contratar uma criada.
O facto de eu e o meu marido termos a mesma profissão não nos aproxima.
Eu sou analítica, ele é literário.
- É a total ausência de comunicação. - Absolutamente.
As vossas preocupações profissionais são mais idênticas?
A Hélène ignora tudo do meu trabalho.
E o Frédéric nem sequer sabe o título da minha tese.
Talvez, mas graças a ti é que reaprendi o inglês
e que li as viagens apaixonantes do Comandante Cook!
A coisa que mais exaspera nessas recepções
são os tipos que se julgam obrigados
a arrastar as mulheres para lá.
Parece que não lhes basta cultivar o aborrecimento em casa,
têm ainda de o ir passear no exterior.
A minha mulher é médica, a do Frédéric é professora,
também têm as suas obrigações profissionais.
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