نخستین 125 خط.
Escute, eu sou refugiado.
Não cometi nenhum crime.
São egípcios.
Pode voltar a vestir-se.
Diabético. Sou diabético.
Insulina.
Injeção.
Não tenho nenhuma bomba debaixo das saias.
Já está mais sossegado?
Os documentos, claro que são falsos.
Onde é que os compraram?
Em Marselha, em Tanger?
Em Casablanca.
É crime.
Está ciente disso, evidentemente.
No nosso país como em todo o lado, é um crime.
- Estamos em guerra. - Aqui não.
Por enquanto.
Entretanto, que vão fazer connosco?
Vamos investigar.
- O mais certo é serem expulsos. - Expulsos?
Mas isso é absurdo. Porquê?
Como assim, porquê?
Podem ser espiões, sei lá, agitadores.
Podem ser o que quer que seja.
Não seja ridículo. Somos apenas refugiados.
Isso é o que vamos descobrir.
- Os vossos nomes, por exemplo. - São os nossos nomes verdadeiros.
Não os mudámos, são verdadeiros.
É o meu verdadeiro nome. O Boris também se chama assim.
Isso não é russo?
- Era o nome do pai dele. - E do seu?
- Como assim, do meu? - Do vosso pai. Não são irmãos?
Ou são marido e mulher?
Podemos ser as duas coisas, quem sabe...
Adão e Eva tinham o mesmo pai.
Devia deixar-se de brincadeiras.
Nós vamos investigar.
Acabaremos por descobrir.
Se for uma questão de dinheiro, é coisa que não me falta.
Quer comprar-me?
Se for outra coisa, também tenho.
O meu batom não está aqui...
- O que é isto? - O quê?
O que tem nas costas.
Não é nada.
É a guerra.
A guerra? Que guerra?
17 de junho, na Flandres.
- A outra guerra... - Que outra?
Só há uma. É sempre a mesma.
Há sempre uma guerra a arder algures.
Nunca se extingue.
Está frio.
Está morto.
Um tiro de morteiro... dos nossos.
Um erro.
Levou o pelotão inteiro.
Fiquei um dia e uma noite debaixo dos corpos.
Mas vivo.
Enfim... mais ou menos.
E a sua guerra, como é que foi?
Praticamente não demos por ela.
Quando ocuparam Paris, nós está- vamos de férias no Midi, em Hyères.
Ficámos por lá.
E o senhor, porque acabou na polícia?
Uma idiotice. Era jovem, tinha medo.
Quis pôr-me a salvo.
Mas não há sítio seguro.
Tente não fazer barulho durante o dia.
Não se preocupe. Terão os vossos vistos para Inglaterra.
"E ele foi-se embora lançando uma cuspidela,
como é costume entre os portugueses."
Podes sair, eu ouvi-te, sei que estás aí.
Não dramatiza nada a história da guerra, o teu polícia...
Deixa-o lá em paz...!
Vem antes dar-me uma massagem. Estou desfeita.
Laura?
Laura!
És um chato, Boris.
Estava a dormir tão bem!
Os que não dormem acordam os que dormem.
É a lei universal da insónia, válida até em Portugal.
Não dizer disparates a esta hora também devia ser uma lei universal.
Passa aí um dos teus cigarros.
As cigarrilhas do teu amigo Vargas começam a enjoar-me.
Ele deixou-te alguma coisa para mim?
- Sim. - Quantas?
Só uma.
Tinha prometido duas.
- E tu prometeste que ias reduzir. - Sim, posso reduzir,
mas para isso preciso que me dês tempo.
Já me disseste, mas...
Eu ia reduzir, mas os nazis meteram-se ao barulho, lembras-te?
Falaste-lhe dos vistos?
Ele está a tratar disso.
- Deu-me as chaves. - Daqui?
Do hotel.
Podemos ir embora quando quisermos.
Ainda hoje, se quisermos. Esta noite.
E vamos para onde?
Se nos apanham outra vez, acabamos na Polónia.
Aqui, ao menos, estamos em segurança.
É a segurança ou a morfina do Vargas que te prende aqui?
- Bem, vou para a minha cama. - Desculpa, fica cá.
Não me apetece aturar as tuas cenas.
Desculpa. Não queria magoar-te.
Passar o dia aqui fechada dá-me cabo dos nervos.
Anda lá, deita-te, não sejas infantil.
Que faz aqui?
Quem é?
Foi o senhor que fez estes desenhos?
Sim, fui eu que fiz estes desenhos.
Não estão maus, pois não?
Gostas?
Bem, não sei...
Não, nem por isso.
Assistiu a isto? Em pessoa?
Não, eu não vi nada.
Isto tudo é...
Fruto da minha imaginação.
- Então não é verdade, não existe. - Claro que existe.
Se eu imaginei, é porque é verdade.
Boris, anda cá ver!
Temos uma visita, Laura.
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