نخستین 200 خط.
SUL
San Juan e Boedo antigo
e todo o céu, Pompéia e mais além a inundação
teu cabelo de noiva na lembrança
e o teu nome flutuando no adeus
A esquina do ferreiro, barro e pampa
e tua casa, tua calçada e a sarjeta
e um perfume de mato e de alfafa
que me enche de novo o coração
Sul
Paredão e depois... Sul
e uma luz de armazém.
E nunca mais você me verá como me via
recostado na vidraça, esperando por você.
Já nunca brilharei com as estrelas
nossos passeios sem brigas pelas noites da Pompéia.
As ruas e as luas suburbanas,
meu amor e sua janela
tudo morto, eu bem sei.
I - A MESA DOS SONHOS
Uma noite,
num bairro da zona sul,
enquanto meus amigos me contavam histórias
dos anos em que estive fora,
alguém me disse:
“Um tal de Ademar Martinez está te procurando.”
O Negro? Impossível.
Ele morreu há anos.
Eu o conheci no fim dos anos sessenta,
e o que mais recordava dele
era sua esperança.
Ele sempre me dizia:
“O Sul é o futuro...
é o que está por vir.”
Mas era verdade:
o Negro, meu velho amigo morto,
estava lá...
entre as sombras da rua escura.
Então você vai fazer um filme de amor?
O quê?
Eu sei.
De onde você tirou essa ideia?
Para com isso! Você sabe que
as histórias das nossas vidas
sempre foram histórias de amor.
Vem comigo...
Vou te contar a história de um amigo querido.
Pode haver histórias melhores,
mas esta é que nem mãe:
ama a gente
mas também enche a paciência!
Buenos Aires, 1983 Fim da ditadura militar
Boa sorte, companheiro!
Está saindo?
Acabei de descobrir.
O nome dele era Floreal
e passou 5 anos na prisão,
em parte, por culpa minha,
sonhando em voltar para casa.
A história que estou te contando
é sobre sua volta
e sobre a noite que ele mais desejava
e mais temia.
Floreal.
Ele está indo embora?
Isso é impossível...
Quem é?
Floreal Echegoyen.
Não conheço.
Don Goyo está?
Não. Faz tempo que ele vendeu tudo.
Garoto querido!
Como vai, Amado?
Como você quer que eu esteja?
Este bairro está cheio de ausências... cheio!
Acabou a nossa mesa dos sonhos.
Quanta coisa nós aprendemos! Quanta!
É mesmo!
Depois do que aconteceu com o Emilio,
nós fomos nos afastando, sabe?
Seu pai, com o reumatismo...
e Rasatti, corroído pela tristeza...
não apareceram mais.
Floreal!
Blondi? Você está dormindo?
Como eles o deixaram sair assim,
se eu estava lá até as 11 horas da noite?
Sorte minha!
Rosi, qual o problema?
Ele saiu da prisão. Bateu na janela.
Onde ele está?
Ele chega logo.
Olhe para mim!
Meu pequeno Fideo está acordado.
Venha, vou te comer.
Eles soltaram o papai, meu amor.
Eu quero dormir na sua cama.
Amanhã, amanhã...
Você não está feliz?
Suas perninhas...
sua bundinha...
Dá vontade de te comer.
Eu te amo tanto...
Quem vai se lembrar de nós, Floreal?
Quem é?
O Negro!
Sim, o reaparecido!
Para que não me esqueçam!
- Mas quem é você? - O falecido!
Quem?
Não tenha medo. Sou eu! O falecido.
Ai, que vontade eu tinha de viver!
Que vontade de voltar!
Para as minhas ruas, meu bairro...
Vá, Ramoncito, eu te vejo às 6:00 horas.
Quando penso no que perdi
nesses anos todos!
Por que você voltou?
Para me divertir!
Aqui estou eu! Morrer é muito chato!
Não acontece nada.
Você está brincando?
Não! Eu te devo uma.
Vou te acompanhar...
Sua volta não vai ser fácil.
Não vai ser fácil!
Ah, as coisas que se aprende
depois de morto! Não há segredos.
Tudo passa na sua frente, tudo! Você ouve e vê tudo,
fica sabendo de tudo.
As intrigas, as tretas, as transas,
chifradas, aparece tudo!
Sobre mim, sobre você, sobre Rosi...
O que você está dizendo?
Que sei de tudo. Eu estou morto!
Não fique bravo!
Não pense o pior logo de cara.
Que idiota vai acreditar em você?
Os mortos!
O Negro morreu há 5 anos!
Para! Espera, tem razão! É verdade.
Quem vai acreditar em um morto, hein, Passarinho?
Venha, venha! Foi aqui que aconteceu!
Lá está ele! Não o deixe escapar!
Se lembra do Tordo?
Quem, o guarda do frigorífico?
Sim, aquele da segurança.
Para com isso! Para!
- Tordo! - Cala a boca, senão eu te mato!
O que você está fazendo?
É o distribuidor, não é?
Quer que eu ajude?
Vai em frente.
Não dê a partida!
Eu me pus a trabalhar como um idiota,
e sabe o que descobri?
Tordo, eles estão levando tudo!
Fique calmo, isso é normal! Continue trabalhando que é melhor.
Até a TV?
Ela é da minha mãe!
Nós viemos neste frio gelado!
Conserte isso logo!
Tordo, não me apronte essa!
Pare de choramingar! Faça isso de uma vez.
Anda logo, vai!
Como você chegou até mim?
Normal.
Pode dar a partida.
Viu? Viu como funciona?
Agora encoste ali!
- Vai logo! - Não!
- Negro! - Como é que pode?
Eu pensei que era tão esperto
e esse idiota completo me passa para trás.
Ah, meu bairro!
Já não é mais o que era antes.
Como mudou desde os nossos tempos!
O medo toma conta de você, Floreal.
Passe a bola, Passarinho!
A gente chamava Floreal
de Passarinho só para amolar,
mas ele era mesmo capaz de voar.
Nós praticamente crescemos juntos,
entre as esquinas e o frigorífico.
Tínhamos todos os tipos em nossa turma:
De Peregrino, nascido no Norte,
até a raridade de um francês,
que, ainda por cima, era manco:
Roberto, técnico em refrigeração.
Mas quer saber de uma coisa?
Eu nunca fui muito amigo de Floreal.
Talvez porque eu era mais velho
e estava metido até o pescoço com o sindicalismo
e ele nunca tinha se envolvido em nada.
Veja que ironia!
Você me conhece bem...
Eu, que sempre cultivei a amizade,
só vim a me dar conta da amizade dele depois de morto.
Que desencontro!
Você não estava mais lá:
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