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Desde tempos antigos...
houve três grandes mudanças
na ideia do homem sobre si mesmo.
Três grandes choques abalaram nossa vaidade.
Antes de Copérnico, achávamos que éramos o centro do universo.
Que todos os corpos celestiais giravam ao redor da nossa Terra.
Mas o grande astrônomo desbancou esse conceito...
e fomos obrigados a admitir que nosso planeta...
é um dos muitos que giram ao redor do Sol...
e que há outros sistemas solares além do nosso,
em mundos infinitos.
Antes de Charles Darwin...
o homem acreditava que era uma espécie única...
separada do reino animal.
Mas o grande biólogo nos fez ver que nosso organismo físico...
é produto de um vasto processo evolutivo...
cujas leis são iguais para nós
ou para qualquer outro animal.
Antes de Sigmund Freud... o homem acreditava que o que dizia
e fazia... era produto apenas de seu desejo consciente.
Mas o grande psicólogo...
demonstrou a existência de outra parte de nossa mente...
que funciona no maior segredo...
e que pode governar nossas vidas.
Esta é a história da viagem de Freud...
a uma região quase tão escura quanto o próprio inferno...
o inconsciente humano, e de como ele acendeu uma luz.
Uma nova paciente, Sr. Professor.
Histeria. Quem a admitiu?
Fui eu, Sr. Professor.
Não sabe das minhas ordens,
de proibir histéricos do meu departamento?
Estou cega, Sr. Professor! Não posso mexer minha perna!
Conheço as regras, Prof. Meynert, mas esta mulher está doente.
Com sua permissão, gostaria de fazer testes.
Testes? Claro. Vamos realizar os testes
agora mesmo, Sr. Freud.
Aproveitem a ocasião, para esclarecer
a verdadeira natureza da histeria.
Fique quieta.
Esta mulher alega estar sofrendo
de paralisia na perna esquerda.
Em uma paralisia genuína,
a perna não estaria tão rígida.
Senhores, a apresentação da nossa paralítica...
combina mais com o Teatro Volks
que com um leito em minha ala.
Seus sintomas têm o propósito
de atrair atenção, causar compaixão...
e de fugir às responsabilidades da vida.
Quanto à alegação de cegueira,
um fósforo.
Acenda-o.
-O que você vê? -As pupilas estão se contraindo.
Senhores, acreditam que seja um caso genuíno de cegueira?
-Não. -Não.
Ah, uh...
Sr. Professor, posso fazer um teste?
À vontade.
Nenhuma reação.
Isto é fingimento?
Anestesia induzida por manter a perna...
em uma posição que causa câimbra.
Histeria é outro nome para mentira.
Pena que não haja terapia para isso.
Cuide disto pessoalmente, Sr. Freud...
que este leito seja liberado imediatamente.
Mãe, o que devo fazer?
Saia do hospital. Vá para outro lugar.
Isso seria recomeçar do zero.
Sei que você e papai sofreram para me colocar onde estou.
E minhas irmãs não tiveram isso.
Queríamos ter a honra de ter um médico na família.
E Martha. Não posso pedir que ela espere para sempre.
Lembro que antes de você e Martha ficarem noivos...
você pensou em se inscrever em uma Bolsa para Viagens.
Ainda conseguiria uma?
Sim, sim.
Talvez essa seja a resposta.
Talvez.
Quanto tempo você ficaria fora?
Seis meses, um ano. Não sei...
Para onde iria?
Berlim, talvez até Charcot.
Charcot é uma cidade ou um homem?
Um homem. Um gênio.
Ele está em Paris, realizando experimentos sobre a histeria.
Há certos fenômenos mentais
que desafiam todas as regras da ciência.
A maioria de nós se recusa a acreditar neles. Não Charcot.
Ele teve coragem de romper com os padrões...
que diziam que pensamento e consciência são a mesma coisa.
Ele provou, por exemplo, que a mente pode pensar durante o sono...
um sono artificial, induzido por hipnose.
Sim, e até ousa usar a hipnose. Uma heresia na ciência.
Claro que você vai até Charcot.
Vou? Como sabe?
Pela sua voz, quando fala sobre ele.
Eu me pergunto por que não decidiu isso antes de seu primeiro atrito com o Prof. Meynert?
Paris é tão distante. Um dia e meio de viagem.
E os trens viajam de madrugada atualmente.
Martha, quando viemos para Viena, de Freiberg...
descemos à noite e dormimos no hotel.
E Sigi chorou a viagem toda.
Você não vai me esquecer, Sigi?
- O trem o assustou. - Não é de admirar. Parecia uma casa. Ele entrou e, de repente, a casa se moveu.
- Mamãe... - Todos a bordo!
Para mantê-lo aquecido neste inverno.
Obrigado. Obrigado. Papai?
Sigmund, este relógio pertenceu a meu pai, Alev Ashalom.
Agora, é hora de você se separar de seus entes queridos.
- Eu o presenteio a você. - Obrigado, papai.
- Como um símbolo. - Obrigado.
Que acidente infeliz!
Obrigado.
A palavra "histeria"
vem do grego "hysteron"... que significa "útero".
Até hoje, os médicos acham que a doença
só acomete mulheres.
Isso, se eles admitissem sua existência.
Muitos negam à doença seu lugar...
nas páginas de uma enciclopédia médica.
Há ótimas descrições de histeria...
nos registros de julgamentos de bruxaria no passado.
As vítimas estavam supostamente possuídas pelo demônio.
Houve muitas epidemias deste engano.
Comunidades inteiras foram infectadas!
Sim, era contagioso... mas não havia germes.
A histeria viola os princípios médicos...
de que todos os sintomas do corpo devem ser de origem orgânica...
e os princípios psicológicos...
de que a mente só é capaz de um pensamento por vez.
Mas os fatos não deixam de existir...
só porque contradizem nossas amadas teorias.
Pretendo provar aqui, pela demonstração...
que a histeria é uma doença apenas mental...
e que a mente pode ser dividida...
para ter duas linhas de pensamento simultaneamente.
- O que está vendo? - Paralisia.
Paralisa fraca.
Diga, cara Jeanne, há quanto tempo não consegue andar?
- Desde 1880. - Há seis anos.
Aconteceu algo naquela época...
que possa ter lhe causado essa doença?
Não.
Eis um dos fatos mais característicos
da histeria.
O paciente não se lembra de nada!
Mas os parentes dela disseram
que os sintomas surgiram...
após um acidente de trem.
Ela não foi ferida fisicamente.
Sua condição é apenas um trauma psicológico.
E aqui temos, ao que tudo indica...
um exemplo clássico de paralisia agitada.
Diga, Servais, quando você começou a tremer?
Há quase um mês.
Servais trabalhava como lenhador.
A cabana na qual se abrigou em uma tempestade,
foi atingida por um raio.
Este incidente do qual Servais não se lembra...
ocorreu não há um mês, mais há mais de um ano.
Após o acidente,
ele entrou em um estado típico de vítimas de trauma.
Sua cor ficou acinzentada, seu olhar vago
e os movimentos ficaram mecânicos.
Ele se comportava como se estivesse em transe...
um transe hipnótico! Através da hipnose...
prática que a ciência excluiu
recentemente da magia negra...
podemos produzir um estado mental no paciente...
semelhante àquele no qual os sintomas surgiram.
Vou colocá-lo para dormir, Servais.
Olhe direto para a chama com os dois olhos.
Direto para a chama.
Agora, você vai dormir.
Um sono bem profundo.
Você vai dormir cada vez mais profundo.
Um sono profundo e calmo.
Você está dormindo. Profundamente... profundamente.
Agora, você está em conexão com o Prof. Charcot.
Ele vai lhe dar ordens e você vai obedecê-las.
Agora quero demonstrar aos senhores...
que estes dois pacientes não sofrem de doença orgânica...
mas seus sintomas
são resultado de ideias presas em suas mentes.
- Está me ouvindo, Servais? - Sim.
Você está seguro, Servais. Você não tem nenhum medo.
Você está se acalmando, tranquilo.
Totalmente tranquilo.
Quando eu bater palmas, você não vai mais tremer.
Ótimo, Servais. Muito bom.
Eliminamos o sintoma histérico por um comando falado...
demonstrando que seu sofrimento
não é de origem orgânica.
Jeanne...
durma Jeanne.
Durma.
Durma cada vez mais profundo.
Um sonho suave e restaurador.
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