처음 200줄입니다.
LIMBO. Loc. Sub. Coloq.
Estado de alheamento de uma pessoa face ao que a rodeia.
Fraca noção da realidade. Estado de latência. Pausa no tempo.
O dia de ontem pareceu não terminar.
Às 7:10, um raio de sol acordou-me
porque a Isabel se esquecera de baixar a persiana.
Levantei-me para a fechar. Vi a hora no telemóvel.
Tomei um ibuprofeno e voltei a adormecer.
Às 12:32, voltei a levantar-me. Tornei a ver a hora no telefone.
Respondi aos comentários do Instagram ainda na cama.
Tinha mais de um milhão.
A Isabel bateu à porta.
Perguntou-me se estava bem.
Bem? Quem está bem?
Às 13:20, fiz uma máscara facial.
Tirei uma selfie e publiquei-a.
Às 14:30 almocei com a Estefanía num restaurante novo,
mas não tinha fome.
A salada ficou toda no prato.
E o empregado ofereceu-me um recipiente.
Primeiro, achei muito gentil, mas depois fiquei deprimida.
Às 16:00, fomos às compras.
Às 19:30,
recebi os vestidos que tinha escolhido para a noite.
Experimentei-os.
Levei-os a votação e ganhou o prateado.
Um seguidor fez um comentário de que gostei.
"Parece-me loucura que seja necessário dinheiro
"para fazer coisas como criar um vício, viajar ou divertir-se."
Às 20:00, tomei um banho de imersão.
Não jantei.
Às 21:00, olhei-me ao espelho
e pensei num sonho que tinha tido umas noites antes.
Eu era pequena e a minha mãe dava-me um cachorro azul.
Completamente azul.
Ela perguntava: "Não é lindo?" E eu respondia: "É azul."
Ela repetia: "Não é lindo?"
Desculpe.
Às 21:15, enchi um alguidar
com água e gelo e usei a técnica da Kate Moss.
Submergi a cabeça para apagar as marcas da noite.
Aguentei a respiração o mais que pude, até os meus lábios ficarem dormentes.
Às 22:00, o Marco veio buscar-me.
Bem-vinda.
Gostei do que ele tinha vestido.
Mas não lhe disse.
Mna. Sofía!
O seu telemóvel.
Se tivesse de dizer qual é o meu talento,
diria que é a habilidade quase sempre desdenhada de ser sociável.
Gosto de estar com pessoas.
Garanto que tudo seja melhor comigo do que sem mim.
Quero outro uísque.
As fadas deram-me esse dom.
Não sei apenas divertir-me,
também sei fazer com que os outros se divirtam.
Aquilo a que outros chamam passar um bocado, eu chamo viver.
A minha família poderia dizer dos meus amigos, logo, de mim,
que são mandriões, promíscuos, bêbados, putas, maricas, tolos, estranhos,
mas a verdade é que dizem pouco porque preferem ignorar o meu mundo.
Veem isso como pagar imposto para me manterem longe e controlada.
Quanto dinheiro nos custará hoje a Sou?
Pode apertar o cinto de segurança, por favor?
Traga-me algo para a ressaca. O que tiver.
Nunca tive quem me dissesse para onde ir.
Talvez o meu pai. Mas o meu pai não era o meu norte.
Ele era como a minha Meca.
O lugar para onde tinha de olhar em algum momento do dia
para lhe prestar tributo e me recordar de que ele continuava a velar por mim,
mesmo que eu estivesse no outro lado do planeta.
Agora, quero um desses, pai.
Alguém com um blusão fluorescente e um par de raquetas de pingue-pongue
que mostre o caminho.
Imagino que também não estejam disponíveis.
Disseram-me que tinha de escolher um.
Já escolheu?
Dá uma volta.
Vou pensar.
Nas festas, não pensamos. É por isso que gosto delas.
Certas coisas não podem ser explicadas.
A música está farta...
...de ser usada como um objeto...
...romântico.
O que é isso?
Outro poema?
Andrés, o que se passa contigo?
Porque me bombardeias o telefone?
Acabaste de interromper um poema que estava a fazer à música. O que foi?
Como?
Quando?
Certas coisas não se podem explicar.
Que tu desapareças do mundo, por exemplo.
Tu.
É inexplicável.
Quero ir para casa chorar. Quero que todos vão para casa chorar.
Também não é invulgar.
Em algumas noites, é isso que faço.
Sem ter qualquer desculpa.
Quando estou num avião, tenho este tipo de fantasias.
Que as horas que passo no ar, a ver nuvens pela janela,
são uma pausa que me permite congelar os pensamentos
e fingir que, lá em cima, o tempo não passa.
Ou que passa mais lentamente. Ou noutro sentido.
Agora, gostaria que andasse para trás.
Olá.
Não é um pouco grande?
Escolhi-o a pensar em ti.
Olá, Sou.
Ignacio, como estás?
- Os meus sentimentos, Sou. - Obrigada, Sole.
Sou.
Delfina.
Trouxe-te um vestido preto do Pablo Ramírez.
O que foi? Não gostas do que tenho vestido?
Caso mudes de ideias.
Que loucura é esta?
Estão tão grandes e tão lindos!
Cruz, dás-me um abraço?
Sou o Segundo. Ele é o Cruz. E ele é o Benjamín.
Bem, é irrelevante porque os nomes não importam.
Venham cá!
Não és apenas igual a ele.
És ele!
O que foi aquilo?
Quem era aquele?
Um bom amigo do pai.
Um amigo. Como se chama?
Sr. Castelló, continuamos?
Pedi a todos que se retirem da capela.
O quê? Não, um momento.
Eu não o vi.
O caixão está fechado. A cerimónia será no parque.
- Queres abrir o caixão, Sou? - Andrés, por favor.
Acompanha-me?
- Vamos. - Com licença.
Não. Quem...
Quem decidiu que seria assim? O pai?
Conseguiste vê-lo?
Sim, quando o preparámos.
Mas o teu voo atrasou-se, Sou.
Não, Andrés. Não me façam isto, por favor.
Não te façamos isto? O quê?
Quero vê-lo! Preciso de o ver!
Chegaste tarde!
Atire-a para a cova quando o caixão descer.
Família e amigos do Francisco,
estamos aqui reunidos, na presença de Deus,
para lhe dizermos adeus e lhe desejarmos paz na eternidade.
Como sacerdote, além de dizer adeus a um cristão,
despeço-me de um amigo.
Por isso, quero falar-vos dele.
O Francisco foi uma pessoa
inolvidável, nobre e maravilhosa.
A partida dele deixou uma grande dor
e o coração partido a todos os que o conheciam.
Não sei se te lembras dele.
- O encarregado do laboratório da empresa. - Sim, claro.
- Olá, como estás? - Olá, Sou.
Esmeralda Hamilton.
A menina dos olhos dele. Andrés.
Esmeralda, obrigado por estares sempre presente.
A tua visita não é pertinente.
Não és da família.
Não és nada como ele.
Só o meu pai me chamava Sofía.
Para os outros, desde que me lembro,
sou a Sou.
Até aos 13, 14 anos,
o meu nome mutilado foi promessa de uma virtude.
As minhas colegas do colégio inglês transformaram-no em algo superlativo.
Em inglês: "So smart, so beautiful, so sweet."
Até que, aos 15 anos,
uma amiga lixada por o namorado me ter beijado
gritou-me no pátio: "So fucking bitch!"
Depois, os meus irmãos deram o golpe final.
Sabem como eles me chamavam?
"So, so."
Eles, os aplicados, os bons alunos.
E eu, a única medíocre numa linhagem excecional.
Estamos a tratar de assuntos familiares.
Podias ser um pouco mais infantil?
Só um pouco, não muito.
- Como ficou a foto? - Bem.
- Publicaste-a no Instagram? - Sim.
- Conseguiste novos seguidores? - Alguns.
A orfandade assenta-te muito bem.
Estás esplêndido. Cada minuto que passa, mais esplêndido.
Não vou entrar nesse jogo, Sou.
Não hoje.
Não te vou dar esse gosto. Acabo de enterrar o meu pai.
É nosso pai!
E este espetáculo que montaste é asqueroso!
Nem esperaste para que eu me despedisse dele.
Também tiveste o teu papel de protagonista.
Apareceste com essa roupa ridícula.
Tiraste a tua foto ridícula, não foi?
Fizeste os teus comentários ridículos, com total impunidade.
- Como sempre. Não te podes queixar. - Não me posso queixar?
Sou!
Vamos. Levo-te na mota, sim?
No comments yet. Be the first to leave one.