Pierwsze 200 wierszy.
Muitos parabéns ao Sérgio
pelos 64 anos sempre barrocos
é o que desejam
as mulheres de Vivaldi
No início do séc. XVIII,
um dos maiores compositores da época
estabeleceu uma relação criativa única com um grupo de mulheres
que durou 36 anos.
As Mulheres de Vivaldi
Dixit
Dixit Dominus
Dixit Dominus
Domino meo
Domino meo
O compositor era o Padre Antonio Vivaldi.
As cantoras e instrumentistas
eram todas figlie, ou filhas de uma ancestral instituição veneziana
conhecida por La Pietà, ou "A Misericórdia", um lar para crianças abandonadas.
O nosso Coro de Oxford está aqui, em Veneza, com uma orquestra feminina,
para participar na pesquisa
sobre esta ainda pouco compreendida relação musical.
A finalidade da nossa viagem a Veneza
é de ajudar a testar, em condições reais, as novas descobertas sobre a Pietà.
Vamos gravar alguma da grande música sacra de Vivaldi
usando apenas vozes femininas.
Foi desta forma que Vivaldi pretendeu que fosse ouvida,
mas que foi tratada com cepticismo pelos musicólogos, durante 200 anos.
Meio-tom acima. Inspirem!
A nossa inspiração – e a mulher por detrás desta pesquisa – é Micky White.
Quero dar-vos umas boas-vindas muito especiais.
Boas-vindas especiais àquelas que já aqui estiveram.
E umas boas-vindas especiais àquelas que nunca aqui estiveram.
Somos pioneiras na música de Vivaldi.
Vocês todas representam as...
mulheres músicas da Pietà.
E elas vieram para aqui ainda bebés
e a maioria delas aqui ficou toda a sua vida.
E houve uma relação muitíssimo especial entre Vivaldi e essas mulheres.
O que ele compreendeu foi a situação delas,
porque todas vocês eram lixo,
eram todas indesejadas.
E quando vocês são indesejadas, ficam mais vulneráveis,
ficam mais sensíveis.
E ele compreendeu isso.
E é essa a razão porque compôs da forma como compôs.
Portanto ele deu-vos, a todas vocês, uma hipótese de brilharem.
E é essa a questão central sobre a música de Vivaldi escrita para a Pietà.
"Tecum principium" do Dixit Dominus
Tecum principium in die virtutis tuae
In splendoribus sanctorum
Ex utero ante luciferum
Ex utero ante luciferum
Genui te, genui te
Toda a gente que visita Veneza vem aqui, à Praça de São Marcos,
embora hoje, por algum motivo, haja menos turistas do que o habitual.
Aqua Alta
No séc. XVIII, viajantes ricos, sobretudo homens, vieram de toda a Europa
a esta estranha mítica cidade flutuante
para desfrutar da combinação de cultura e sexo.
Veneza, nesses dias, tinha uma merecida reputação de comportamento licencioso
e a Praça de São Marcos era um paraíso dos proxenetas.
Inevitavelmente, a indústria do sexo tinha consequências sociais.
Havia um inexorável fluxo de bebés indesejados,
muitos deles com sérias deformidades causadas pela sífilis.
E, tragicamente, não era raro, para algumas crianças,
acabarem por, discretamente, ser atiradas para o canal.
Felizmente, havia uma alternativa para qualquer mulher
que, por alguma razão, não tinha condições de cuidar do seu filho recém-nascido.
Desde a Idade Média
que Veneza desenvolvera um grupo de quatro grande instituições, ou ospedales,
que formavam um sistema de beneficência social da cidade.
Laetatus sum
Laetatus sum in his quae dicta sunt mihi
In domum Domini ibimus
Esta é a mais antiga das quatro instituições, a Mendicanti.
Incrivelmente, é ainda, nos dias de hoje, o principal hospital de Veneza.
Foi fundado no séc. XII, para mendigos, leprosos e desamparados.
Outro hospital foi construído para as vítimas da fome
e outro para os portadores de sífilis e de doenças incuráveis.
O quarto ospedale, a Pietà,
foi, no séc. XIV, destinado a lar de crianças abandonadas.
Illuc enim, ascenderunt tribus
Tribus Domini
Elsie Arnold é uma historiadora veneziana e amiga de Micky White, que vive em Oxford.
Pode dizer-nos o que eram as ospedale e qual a sua função?
Eram hospitais. Eram...
tudo.
Eram
orfanatos, escolas,
hospitais, lares de idosos...
E tratavam de uma pessoa quando ela morria.
E...
eram organizações muito respeitáveis.
E acho que foi quase por acidente
que a música surgiu, quando descobriram...
E estou certa que foi parcialmente devido ao turismo.
Perceberam que aqueles estrangeiros gostavam de ouvir boa música,
sobretudo na Quaresma, quando as casas de ópera estavam encerradas.
Gloria
Gloria
Gloria
Gloria
In excelsis deo
No início do séc. XVIII,
após uma farra de deboche,
os turistas ricos acorriam às grandes igrejas da cidade
para atenuarem a culpa e ouvirem alguns dos melhores músicos da Europa.
Excelsis deo
Para a congregação, que assistia no corpo da igreja, havia o frisson acrescido
de as mulheres, que cantavam nas galerias acima dele,
estarem ocultadas das vistas por detrás de grades metálicas.
Isso só permitia à audiência vislumbrar uma opaca silhueta do coro produzindo sons celestiais.
Excelsis deo
In excelsis
Gloria in excelsis deo
"Elas cantam como anjos
Charles de Bross escreveu:
e juro que não há nada mais agradável
do que a visão de uma jovem e bonita mulher
com um ramalhete de flores de romã na orelha
a dirigir a orquestra com toda a graça que se possa imaginar."
"Hoje à tarde fui de novo à Pietà.
Charles Burney observou:
Não estava muita gente e as raparigas
fizeram imensas habilidades a cantar,
sobretudo nos duetos,
onde houve um concurso de perícia e de capacidades naturais,
de quem conseguia ir ao mais agudo ou ao mais grave,
produzir a nota mais longa,
ou fazer coloraturas com a maior agilidade.
Nos hospitais e nas igrejas, onde não é permitido aplaudir
da mesma forma do que na ópera,
as pessoas tossiam, pigarreavam e fungavam, para exprimirem admiração."
"Não concebo nada mais voluptuoso
Jean-Jacques Rousseau declarou:
ou mais comovente do que esta música.
O que me atormenta são aquelas malditas grades,
que apenas permitem a passagem das notas e ocultam os anjos da graciosidade.
À medida que oiço, sinto um tremor de amor
que nunca antes tinha experimentado."
Pater
Pater omnipotens
Quem eram aquelas extraordinárias instrumentistas por detrás das grades?
Por um lado, objectos de fantasia erótica.
Por outro lado, uma triste e matizada colecção de deformadas e desfiguradas.
Sabemos que algumas das mulheres nasceram com deficiências
devido à sífilis contraída pelas mães.
E outras estavam permanentemente desfiguradas por micoses ou pela varíola.
Em 1738,
no final da época em que Vivaldi aqui trabalhou,
no hospital conhecido por a Pietà,
pertenciam à comunidade cerca de 1000 mulheres.
A Pietà ainda desempenha um papel importante no sistema de segurança regional
como um lar para crianças de famílias com problemas.
Anna Maria Giannuzzi Miraglia, a presidente da Pietà,
desempenhou um papel determinante na modernização da instituição,
mas deposita grande importância no legado da Pietà.
Como era a vida na Pietà?
Os rapazes e as raparigas eram instruídos.
Existiam muitos.
As raparigas aprendiam ofícios, a bordar ou coisas semelhantes.
Os rapazes eram orientados para um negócio.
Aqueles rapazes e raparigas tinham um percurso
que os podiam orientar quer dentro quer fora da instituição.
Frequentemente eram enviados para fora da cidade, para o campo,
onde eram adoptados por famílias.
Ainda hoje, se forem a alguns locais do nosso campo,
encontrarão escrito "Estrada dos Abandonados",
porque eram as zonas onde a Pietà possuía grandes propriedades
que eram usadas para a guarda das criança.
Na época de Vivaldi,
as raparigas da Pietà – as chamadas "figlie di choro" – tocavam instrumentos e cantavam.
Algumas tornaram-se importantes e conhecidas por toda a Europa.
Alguns compositores ou professores escreveram música para elas.
Vivaldi foi o mais importante compositor da Pietà.
Ensinou-lhes música.
Ensinou-lhes a tocar vários instrumentos e compôs música para eles.
Quando se trava conhecimento com a Micky, não é possível deixar de se interrogar
como é que ela foi parar a Veneza, a trabalhar nesta pesquisa histórica.
Sou uma fotógrafa.
Vim para Veneza
com os meus dois gatos.
Havia aquela pulsão de cá vir, mas não sabia porquê.
Quando li sobre Vivaldi,
não foi como ler um livro. Foi como conhecer uma pessoa.
Queria conhecer mais,
porque o que tinha lido nos livros não encaixava bem.
Fiquei com aquela incómoda sensação de que queria fazer alguma pesquisa.
Afastei essa ideia do meu pensamento mal que ela me ocorreu,
porque pensei: "Nunca na vida estiveste num arquivo,
não és música, não és arquivista e não és uma intelectual."
Mas a ideia teimou em regressar.
A primeira coisa que tive que fazer foi compreender a Pietà.
O que era a Pietà? O que acontecia nela?
E o que é que ele lá fazia?
Porque era preciso colocá-lo no contexto.
Estamos agora no pátio da Pietà original.
Esta é a primeira Pietà.
E ninguém sabe isso.
Foi fundada, em 1346, por Pietro d'Assisi,
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