Pierwsze 200 wierszy.
UM DOCUMENTÁRIO NETFLIX
Um minuto!
Trinta segundos!
Cinco, quatro, três,
dois, um!
Cronometrar tempo!
Desde que me lembro,
sempre gostei de estar na água.
HEINOLA, FINLÂNDIA
Quando era pequena, tínhamos uma piscina de 5 m de profundidade na nossa vila.
Eu costumava ir para o fundo da piscina
e ver as pessoas a nadar por cima de mim.
Quando vemos as pessoas de baixo, elas parecem animais.
Temos uma profunda sensação de aceitação,
livre de qualquer pessimismo ou irritação.
Há um sentimento natural de bondade.
O buraco no gelo é como uma porta
para um lugar lindo e tranquilo,
onde o tempo para.
Na água, sinto que faço parte da natureza.
Seria de esperar que entrasse em pânico e que procurasse subir à superfície…
… mas, em vez disso, o meu corpo acalma e o meu coração abranda.
Quando mergulho, a minha mente está completamente relaxada.
Não há nada a temer.
Queria saber quanto tempo aguentava a mergulhar entre buracos
com uma única inspiração.
Queria ser a pessoa a fazer os mergulhos mais longos no gelo.
O meu recorde, o recorde mundial feminino, é de 50 m.
Já se passaram três anos e ninguém o bateu,
mas consigo mergulhar mais longe.
Talvez consiga bater o recorde mundial masculino de 80 m.
É preciso dividir o mergulho. Dividi-o em três partes,
ou seja, o mergulho tem três fases.
É como quando te ensinei a escrever redações em criança.
Sou a mais velha. Ela é a irmã mais nova.
Chamávamos-lhe "macaco".
Lembro-me de ela passar o tempo a fazer coisas estranhas.
Ela diz sempre: "As raparigas fazem tudo o que os homens fazem."
Se eu pensar que não devo fazer algo por ser rapariga,
ela diz: "O quê? O que queres dizer?
Vamos lá fazer isso."
Andar de caiaque e mota,
e praticar Downhill.
E ela tem sempre de ir mais longe.
Não foi uma surpresa quando algo correu mal.
Caí numa encosta, na minha bicicleta, e parti a perna.
Quase gangrenou e tiveram de fazer uma fasciotomia.
Isso causou uma nevralgia muito forte
e fiquei com dores constantes.
Três anos depois, ainda tinha dores nos nervos.
Era uma dor insuportável.
Eu não conseguia dormir
e os médicos não conseguiam ajudar.
Achei que ia enlouquecer.
Depois soube do tratamento com frio
em que o pé é imerso em água gelada.
No início, o tratamento era doloroso.
Ao ponto de me fazer chorar.
Mas quando comecei a habituar-me à água fria,
reparei que além de fazer bem à lesão,
proporcionava ao meu corpo um estado profundo de descontração.
Essa sensação pode ser muito viciante.
A dor nos nervos diminuiu e decidi pôr a outra perna.
Com o tempo, entrei toda na água.
A lesão mostrou-me um mundo completamente novo.
Se quiser estabelecer um novo recorde, tenho de treinar intensamente.
Se não estiver bem preparada, esta tentativa pode ser muito perigosa.
Na pior das hipóteses, a água fria pode parar-me o coração.
Se não conseguir vir à superfície a tempo, posso perder os sentidos.
Por isso, nunca treino na água gelada sem a minha irmã Elina.
- Estás bem? - Estou.
No mergulho livre, os piores erros costumam ser mentais.
Se ficar nervosa, não entendo os sinais que o corpo dá
e não saberei quando devo voltar à superfície.
É uma questão de treino mental.
Está tão fria! Entrou-me água no fato.
Está a entrar água algures por aqui.
- Onde está o buraco? - Está aqui.
O próximo, de 80 m em água fria,
é um mergulho muito longo.
Se pudesse escolher, talvez lhe dissesse para não o fazer,
mas ela está decidida.
É um processo de aprendizagem para ambas.
Enquanto eu lido com os meus medos,
nesse momento, a Elina também tem de enfrentar os medos dela.
Preocupo-me. Não a quero ver em perigo.
Não quero que ela perca os sentidos.
Às vezes, penso como será se lhe acontecer algo
e eu voltar para casa sozinha, sem ela.
Falamos do pior cenário possível
porque temos de saber qual é.
Estou mais ou menos preparada para isso.
Não quereria ver, mas eu estaria lá.
Preferia que ela não fizesse isto?
Não.
Não, acho mesmo… Acho que ela devia fazer isto.
Ela adora. O que posso dizer?
OITO SEMANAS ANTES DA TENTATIVA DE BATER O RECORDE
Na tentativa, só posso usar fato de banho. Isso traz dois grandes desafios:
se consigo suster a respiração durante tanto tempo
e se me consigo manter descontraída na água gelada.
Quando estamos descontraídos, o frio é só frio.
Mesmo que a sensação seja intensa, não dói.
Pronto.
Pronto.
Quando não estamos descontraídos, o frio é insuportável.
Dói-me a cabeça e a dor alastra-se ao cérebro e não consigo pensar.
Deixo de sentir a cara.
A dor penetra cada vez mais na minha pele.
Todos os músculos do corpo querem ficar tensos.
As articulações ficam rígidas para se protegerem.
Como te sentes?
Como está a água?
Está muito fria!
Não respiro bem.
A minha pele pica,
dói e arde em todo o lado.
Boa.
O mergulho pode demorar até três minutos.
A única opção é aceitar que a água está fria.
Está bem?
Pronto. Quanto tempo?
Mais de dois minutos.
Tenho os dedos gelados.
O treino da Johanna tem corrido bem.
Está a ficar mais frio e há gelo,
mas menos do que normalmente teríamos
nesta altura do ano.
E isso é preocupante, porque precisamos de muito mais gelo
para tentar o recorde em março.
Mas gostei de estar com ela a treinar e…
O gelo está a falar connosco.
Sempre tirei fotos à Johanna.
Começámos a fazê-lo com dez anos.
Comprei a minha primeira máquina e ela era a minha modelo.
E eu dizia: "Sim, vamos tirar umas fotos e vestir isto.
Podemos maquilhar-te."
Normalmente, tiramos fotos muito artísticas.
Porque ela é uma espécie de artista e eu também sou,
por isso, misturamos tudo isso.
Tudo isso é treino para ela.
Diz que isso é ainda mais difícil do que mergulhar em linha reta.
- Fiquei sem película. Não há mais. - Eu sabia!
Esta ficou muito gira. Talvez…
Temos filhos, temos contas para pagar como as outras pessoas
e ambas trabalhamos.
Aquela foto ficou gira.
Para conseguirmos fazer isto, temos de pensar em todas essas coisas.
Que idade tinha eu quando parti um osso pela primeira vez?
- Cinco? Três? - Tinha quatro quando…
Desde que eu era muito pequeno
que ela faz coisas muito radicais.
Não stresso com isso nem me preocupo. Ela sempre foi assim.
Prefiro ter uma mãe como ela do que uma mãe que não faz nada.
Vai ser fixe se ela bater o recorde,
mas espero que não aconteça nada de mal.
FEVEREIRO DE 2020 QUATRO SEMANAS ANTES DA TENTATIVA
Bastava mais cinco centímetros de gelo.
Se a temperatura ficar abaixo de zero, talvez gele.
Não vale a pena tentar andar no gelo, está muito fino.
- Sim, olha. Entrou logo. - Está assim tão fino?
Não entremos em pânico.
Estamos aqui há seis anos, acho eu.
E nunca esteve assim.
Vamos ver se consigo.
Quanto gelo há?
Gelo muito flexível com menos de dez centímetros.
COORDENADOR DE MERGULHO
- Quanta água há no gelo? - Dez a 12 cm.
- Sim. - É muita.
Talvez tenhamos gelo, mas também é possível que não tenhamos.
A 200 km para norte, já têm 30 cm de gelo.
- Sim, pois. Então, temos de… - Na pior das hipóteses…
Uma opção é encontrar outro local no final de fevereiro.
O lago Valkia pode ser um sítio bom.
Ao menos, é um lugar lindo.
Nas próximas quatro semanas, saberemos o que fazer.
- Certo. Vamos falando. - Sim.
- Sim. - Sim.
- Adeus. - Adeus.
Normalmente, nesta altura do ano, já há geada, neve e gelo,
mas este ano não.
Este ano, só chove.
Pelas regras, o gelo tem de ter, pelo menos, 30 cm de espessura.
Não temos isso aqui.
Está complicado, só há um centímetro de gelo.
Em geral, tem sido um ano muito estranho.
Tem sido um inverno muito quente. Nem me lembro de um inverno tão quente.
Podemos tentar bater o recorde mais a norte, obviamente,
mas um clima mais quente não afetará só a minha tentativa.
Os meus problemas parecem insignificantes comparados com os problemas ambientais.
Como a água não gelou no sul,
mudámos o local para o norte da Finlândia.
Escolhemos um lago muito límpido no Parque Nacional de Hossa.
Não quero mudar o local.
Quero mergulhar num sítio familiar.
Quero saber quanto demoro a chegar ao local do pequeno-almoço,
de lá até à sauna e da sauna à entrada no gelo.
Quero saber quando devo vestir o meu fato de banho.
LAGO ÖLLÖRI, HOSSA NORTE DA FINLÂNDIA
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