Waiting for the Carnival

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Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar

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په خپور شو: 2020-03-27
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لومړۍ 191 کرښې.

Cachoeirinha, Caetés, Caruaru,

Tacaimbó, Taquaritinga, Toritama.

Essas cidades ficam em um Agreste.

Uma região seca e pobre no interior de Pernambuco.

O meu pai era funcionário do Governo e fazia inspeção fiscal nessa região.

Eu era criança e acompanhava ele nessas viagens.

Era um mundo rural e feiras livres, plantadores de milho e feijão

e criadores de bodes.

Quase nenhum barulho de carro

e poucas pessoas na rua.

Esse é o Agreste que eu guardo na minha memória da infância.

A estrada que liga as duas maiores cidades do Agreste,

Caruaru e Santa Cruz do Capibaribe,

gigantescos totens publicitários me levam a pequena Toritama.

O que me traz aqui, é um motivo bem diferente daquele que trouxe meu pai.

Vamos gravar aí, não.

Na minha memória,

Toritama era uma cidade que tinha outra velocidade.

Às oito da manhã, quase não se via movimento na rua.

A paisagem mudou.

Nos grandes terrenos vazios,

se construíram fábricas de produção de jeans.

E a maioria das casas, se transformou em pequenas fábricas de fundo de quintal,

chamadas de facção.

Que horas você começa a trabalhar?

Cinco da manhã.

Cinco, seis da manhã, e vou até nove, dez da noite.

-Está em casa, né? - Não cansa, né?

Não.

Vai dormir... Toma um banho e vai dormir, né?

Assiste um pouquinho a TV e se acorda com disposição.

Trabalha de domingo a domingo?

Eu gosto, quando tem serviço, eu gosto.

Eu sei que quanto mais eu estou trabalhando, eu estou ganhando.

Esse genro meu, é de Pesqueira.

- Seu genro? -É meu genro, ele.

Ele entrou na família e ficou. Agora...

-É a cobrinha, viu? - Por quê?

- Trabalhador demais. - É verdade.

- Trabalha muito, é ligeiro. - Trabalhador, sabe tudo.

- É? - É.

Isso aqui é conhecido como ouro.

É o ouro. Ouro de Toritama. É o jeans azul, ouro azul.

Então, está cheio de gente que construiu,

-e tem um monte gente fez sua... -Isso.

Eu trabalhei sete anos...

- Numa fábrica. - ...numa fábrica.

Sete anos que trabalhei, aí, o patrão, de repente, faliu.

Aí, cada um pegou seu rumo, né?

Aí, eu comprei minhas máquinas, outros que tiveram tempo, comprou....

Aí, cada um da gente, hoje, tem seu maquinário.

Sua própria facção.

Você não quer voltar para nenhuma fábrica?

Não. Tá bom assim mesmo. A gente fica cada um com a sua.

-Eu com a dele e eu com a minha em casa. -Tranquilo. Está entendendo?

O cara tomou tua entrevista.

Não. Fica à vontade, mas você não chamou ele?

-Já? Parou? - Parou. Tu se meteu aí...

- Roubou a cena. -Para que eu falar, se tu roubou a cena?

Assim, porque eu vi que ela estava meia... nessa sua expressão...

Mas ficou ruim? Porque senão corta aí tudo.

- Mas ele se garante... -É, ele sabe. Ele é inteligente.

Ficou bom ou ficou ruim?

Não. Você que decide por mim.

Não, não sei. Quem sabe são vocês. Vocês quem mandam.

É porque ela estava complicada para saber se expressar na...

...como no jeans, como começou...

Ela é pioneira. Ela fazia caixinha.

Era para você ter contado a sua vida. Eu comecei a fazer...

-colar a caixinha, deixa eu explicar. -Ele começou...

Comecei a colar caixinha, com 12 anos de idade,

depois começar a passar cola.

Pode dizer que teu patrão quebrou lá, "mulé".

É sério. Ele disse que trabalha numa fábrica há sete anos, não foi?

E a fábrica faliu. E hoje, cada um da gente...

-E isso aí? Está filmando? Vai sair não. -...parcelado, né?

E comprou a sua máquina e abriu seu próprio negócio, né?

E não é nosso, não vou mentir. Tem que dizer a verdade, né?

Silêncio em Toritama somente na hora do almoço.

Desse silêncio eu lembro muito bem.

Ele durava o dia inteiro.

Escuto uma música que vem de dentro de uma das facções.

Na letra, um refrão que diz: "Sonhei que estava rico".

Eu não vou falar, não.

- Fala, Andreia. -Eu sou vergonhosa.

Vixi. Não é a primeira pessoa que fala isso.

Ah, mas eu não consigo falar agora, assim.

Qual trabalho que você faz aqui?

Eu faço tudo.

Eu passo cola, “desavesso” o pé, e amarro mais os meninos.

Você gosta de usar jeans?

Adoro!

Claro que eu gosto.

A pessoa fica mais bonita, mais elegante, sei lá.

O que nós "escuta" mais é funk, rap, reggae...

Eu sou um pai de família, o nome da minha filha é Julia Beatriz.

Ela tem quantos anos?

Ela tem seis... sete meses.

- E você? -Tenho 19.

Aqui em Toritama é moda, ser pai de família com 19, 20 anos.

Mas é assim, sou pai de família, mas sou solteiro.

Eu tô dizendo que a moda é ter filho, e não ser casado.

Vocês dão conta do serviço?

Só eu fiz 1.200 ontem.

É mesmo?

- É verdade isso mesmo? -É verdade.

É verdade. Cada um tira mais ou menos de 1.000, 1.500 peças cada um.

Eles dão conta do trabalho?

Dão conta. Eles são pequenos assim, no tamanho, na feiura,

mas no profissional, eles são tudo profissionais.

Tu vai ficar sentado aí?

Se não der coragem, eu não levanto, não.

Oxi.

Rapaz, então quer dizer que tu não aguenta trabalhar?

Fica aí dormindo, né?

Não aguenta, não, né?

É muito fácil.

Mas, rapaz, pegaram eu dormindo hoje, foi?

-Tá vendo tu. - E esse vacilo?

Rapaz...

Me pegaram no pulo do gato agora, vê só, dormindo.

Pegou no vacilo.

Esse cabra trabalha bem ou só dorme?

Não, trabalha bem.

- É mesmo? - Aí, é trabalhador aí, viu?

- É? - É. Procurado aí.

É procurado para dormir ou trabalhar?

Para trabalhar, né?

Rapaz, o camarada chegar,

dizer que o nome dele é trabalho e o apelido hora extra,

vai explicar mais o que no serviço?

É dizer que já trabalhou...

Oxi.

Eu vou dizer, trabalhar aqui é bom também, porque é produção, você ganha o que faz.

Quanto mais você arrochar o nó, você ganha o dinheiro.

O negócio é você trabalhar mesmo.

Não tá conversando, não tá se empancando, é trabalhar, porque isso aqui é produção.

Olha, você tem direito de experimentar todas as profissões do mundo,

agora só pode seguir uma. Escute bem...

Têm várias profissões, várias,

que nem vocês mesmo sabem, até melhor do que eu.

Que sou um menino novo, tô na flor da idade agora,

tô começando a vida agora.

O cara com 32 anos, é rezar para que um dia chegue aos 80.

Para dizer assim: "Mas quem sabe é Deus",

que a qualquer momento o cara pode morrer.

Mas todas as profissões do mundo têm, agora você só pode seguir uma.

Qual é a melhor profissão do mundo? É nunca trabalhar para ninguém.

Trabalhe só.

Olha, ganhe seu pão honesto, digno, sem dever a ninguém.

Agora, tão bom o cara chegar e dormir, é bom demais.

O cabra vai chegar que nem eu cheguei aí.

Estava num sono gostoso. Olha, eu dormiria mais, dormia.

Aqui, somos as donas.

A gente entra e sai na hora que a gente quer.

Se a gente fosse trabalhar fichado, teria hora para gente sair...

A gente chega sete da manhã.

A gente fica até oito e meia.

A gente volta, vai tomar café, volta e fica até 11h30.

A gente vai para casa, e quando é uma e meia, a gente volta do almoço.

-Quando é seis e meia... - Seis e meia de quê?

Da noite. Seis e meia da noite a gente volta para casa,

para a gente fazer a janta.

Sete e meia a gente volta e fica até dez horas da noite.

E quando chega em casa dez da noite?

Tomo banho e fico morta na cama.

Cansa, mas a gente vai ganhar mais, né?

A gente ganha mais.

Essa é casa que servia de hospedagem

para os funcionários do governo que estavam de passagem pelo Agreste.

O grande quarto dos viajantes era ocupado somente por colchões e camas.

Eu tento reconhecer o lugar.

Mas nada parece igual.

O alojamento se transformou numa fábrica de fundo de quintal.

Como tantas outras casas aqui.

Aqui você trabalha com produção, é isso?

É.

Explica como é que isso. Aqui você trabalha como?

Ah, se você fizer cem bocas de bolso,

aí, você... a dez centavos, aí você ganha dez reais.

Se você fizer 1.000 bocas de bolso num dia,

você ganhou 100 reais, que é dez centavos.

Se você fez uma braguilha, que é negócio que faz o zíper.

É 20 centavos. Se você fez 1.000 no dia, você ganhou 200 reais.

Vai dar a produção que você dá.

Independente de ser costura, independente de ser qualquer coisa,

eu acho que hoje, o melhor é trabalhar para você mesmo.

A vida da gente não é ruim, não.

Quem pensar que a vida gente é ruim, tá enganado.

Porque não é todo mundo que tem privilégio de ter saúde, trabalhar,

ganhar seu dinheiro, chegar aos sábados e domingos

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