As primeiras 200 linhas.
TODO O DINHEIRO DO MUNDO
Não se apresse. Temos tempo de sobra.
Tem pressa.
A estrada não é só para si, palerma.
O senhor não é muito educado.
Merece um pontapé no cu.
Olá, patrão.
- Casas antigas. - Algumas têm mais de 500 anos.
- Tem de ir abaixo. Vamos? - Vai divertir-vos.
Senhor Victor Hardy, o presidente da câmara e os vereadores.
A nossa aldeia está em destaque,
porque, segundo as estatísticas oficiais...
Lemos no jornal.
O nosso fotógrafo já está a trabalhar.
Não é bonito? Ele morreu aos 85 e a mulher aos 93. Foto.
E este viveu de 1850 a 1938. Foto.
- Este chegou aos 92, e aquele também. - E os 100-centenários?
Também há bastantes. Veja, 1858-1959.101 anos.
E veja este, ainda mais velho. E aquele ali.
- Aqui envelhece-se. - Compramos tudo.
- De graça. E depois voltamos a vender. - Com um slogan apelativo.
Espere. Não.
- Aqui vive-se muito tempo. - Viva...
- Longueville. - Longueville...
- Longueville, um golpe de mestre. - Com boa publicidade.
Quem ama a vida vai morar em Longueville.
- A câmara municipal de Cabasse... - Obrigado, senhor presidente da câmara. Obrigado.
- Tudo nosso. - Bem feito, Fred.
Convencê-los a vender sem esbanjar dinheiro.
- Assinaram todos? - Sim, menos um. Quer falar consigo.
- E ele está aqui. - Vá buscá-lo.
Senhor Dumont, pode entrar. O senhor Hardy está cá.
Sim, por aqui. Por aquela porta.
- Aqui são um pouco parvos. - Ainda bem.
- Onde fica o terreno dele? - Aqui. Aquele terreno por construir.
No meio da propriedade. E é lá que fica a nascente.
Ele não faz a mínima ideia. Entre, senhor Dumont.
- Encantado de conhecê-lo, senhor Dumont. - Já nos conhecemos.
- Quando? - Recentemente. Na estrada.
- O seu motorista não foi muito educado. - Não me diga.
Disse que eu merecia um pontapé no cu.
- Não consigo imaginar isso. - Então eu estou a mentir?
- Fique. Acreditamos em si. - Foi um mal-entendido.
- Vai repreender o motorista. - A sério.
Sente-se um instante e depois assine ali.
Merece um pontapé no cu.
- É isso mesmo. - O senhor tem toda a razão.
- Concorda comigo? - Completamente.
- Então vá buscá-lo. - Quem?
O seu motorista. Para lhe dar o que merece.
Muito engraçado.
Esse senhor Dumont pode ser mesmo engraçado.
- Assine. Nós fazemos o resto. - Vamos punir o culpado.
Primeiro esse pontapé no cu. Depois falamos.
- Está a brincar. - Não pode querer...
Eu não exijo nada. Vocês é que querem algo de mim.
- Por favor, senhor Dumont. - Não podemos conversar?
O senhor Hardy quer o seu bem. Sente-se, e falamos.
Ou tem pressa?
Nunca tenho pressa. Tenho tempo de sobra.
O rapaz está claramente surpreendido. Tem de se habituar à ideia.
É lógico, imagine só.
- Acho que ele pediu tempo para pensar. - Com razão. É preciso tomar o seu tempo.
Tudo isto é dele.
Tem de aceitar. Venha comigo.
- Vamos. - Vou sozinho, não preciso de testemunhas.
E despache-se um pouco.
- Senhor Dumont? - Quem está aí?
- Estou pronto. - O que quer?
Não quero nada. O senhor quer alguma coisa.
Ah, é para... Não tem pressa.
Faça favor.
O brutamontes atingiu-me bem.
Resolvido. Deixe-o assinar, e podemos ir.
Não quero ver mais aquele velho.
- Ainda não está resolvido. - Como assim? Ah, sim.
Essas pessoas são brutamontes. Falam outra língua.
- Essa era a combinação, não era? - Ao que parece, sim.
Só precisa assinar ali.
Só preciso assinar ali? Então assino ali.
Então ficou combinado. Mas primeiro tenho de falar com Toine.
- Toine? - O meu filho.
Mas o seu filho não é o dono, pois não?
Não, sou eu. Mas quem ma deixou? O meu pai.
E ele recebeu a casa do pai dele.
Passou de pai para filho enquanto houve Dumont.
Não o vendo sem falar com o Toine. Não posso fazer isso.
- Onde te meteste, Fred? - Um instante.
Tem de falar com o Toine.
- Farei isso quando o vir. - Agora mesmo.
- Agora mesmo? Mas ele está lá em cima. - Lá em cima?
- Nas montanhas, com as ovelhas. - Então vamos para lá.
Para as montanhas? Eu fazia isso quando era novo.
São dois dias a pé, e não há estradas. Portanto...
Quando é que ele volta?
Depois do verão. Com as ovelhas.
- Vens outra vez? - Já vou.
- Quer sopa? - Não, obrigado. Numa outra ocasião.
- Toine, não me reconheces? - É o presidente da câmara.
- Você me deu um grande susto. - Viemos cumprimentar-te.
Olá, Toine. Prazer em conhecer-te.
É a cara do pai.
- Quem é esse? - Um amigo do teu pai.
Ele acabou de me oferecer sopa.
E disse-me que queria falar contigo.
- É mesmo? - Sim, é mesmo.
Não gostarias de voar connosco?
Eu? Naquilo?
Gostava disso.
- Senhor Dumont. - Mathieu.
Olá, pai.
- O que fazes aqui? - Querias falar com ele, não querias?
Eu disse: depois do verão, quando voltar com as ovelhas. Só então.
Abraça o teu pai e diz-lhe que tem de ser sensato.
Não pões os pés em casa antes de as ovelhas voltarem.
- Você disse que ele queria falar comigo. - Eu trato disso.
- Que cabeça-dura és. - Vou ensinar-te.
- Não me vais matar a tiro, pois não? - É só chumbo.
Para ladrões de maçãs.
Vai-te embora ou disparo.
Todos os Dumont eram cabeças-duras, mas tu és o pior.
Queria disparar contra mim. A mim, o presidente da câmara.
Eu vou.
- Ouça, senhor Dumont. - Pare com isso.
- Ele pertence às suas ovelhas. - Mas você queria...
Depois do verão. E quando digo algo, é a sério.
Quero esclarecer uma coisa. O seu filho não tem culpa.
Ah não?
- E quem toma conta das ovelhas agora? - As ovelhas?
Sim. Diga lá. Você sabe tudo tão bem, não é?
- O teu pai perguntou... - Quem toma conta das ovelhas.
Bem, o homem da barba.
- O homem da barba toma conta delas. - Não percebe nada disso.
Não percebe nada disso?
- Juntamente com o sobrinho dele. - Muito bem.
- O sobrinho dele ajuda-o. - Que sobrinho?
Acho que o sobrinho do homem da barba.
Ele tem de rir.
Esse sobrinho é um idiota.
Não, não esse sobrinho.
- Qual então? - O outro sobrinho é o idiota.
É o outro sobrinho.
Toine, não podias pôr os pés em casa.
- Mas ele é seu filho. - Ele pode entrar, não pode?
Eu vivo aqui e já não sou criança.
Ah não? Veremos.
- E amanhã... - A inauguração festiva.
- Todos esses jornalistas. - A rádio, os convidados de honra.
- Tudo isso vai por água abaixo. - Por causa daquele cabeça-dura.
- Se ao menos pudéssemos... - Matá-lo.
Isso vai ser difícil.
Embora...
- Vou explicar-te, Toine. - Talvez tenhamos insistido demasiado.
- Ele bateu-me. Na minha idade. - É terrível.
Falamos a sério.
É isto: queremos comprar a vossa casa e terreno, e o teu pai...
- Abre, Toine. - Um momento.
Temos a autorização do teu pai...
- Podia ter revidado. - Certamente, mas não adiantava nada.
Têm de chegar a acordo sobre a venda.
- Abres ou não? - Já vou.
- O teu pai disse que sim. Agora falta tu. - Tenho de ir.
Sim, para Paris ou algo assim.
- Um lugar sem preocupações. - Onde quer que seja.
Se preferires viver fora, construímos-te qualquer coisa.
Então poderás levar uma vida diferente. Para o teu bem.
Mais ainda, é o teu dever.
Valha-me Deus. Abre, ou pego no meu machado.
Estamos prontos.
Tu dizes que sim, agora falta ele.
- Talvez ele compreenda... - Certamente.
Quando estiver no fundo do poço.
- O fundo do poço? - Sim, foi isso que ele disse.
- Deixar-me de fora. Onde está ele? - Está enganado, senhor Dumont.
Guardei ovelhas até aos quarenta anos.
E agora desaparece.
Toine, aparece. Onde estás?
- O Toine não está, senhor Dumont. - Eu vou encontrá-lo.
Ajuda, senhor Hardy. Ajuda.
O que faz junto ao meu poço?
Saia daí.
Aquela gente pensa que tudo é permitido.
Fique aí. Não se mexa.
Vou mostrar-lhes uma coisa.
Apanha-o, Toine. Apanha-o.
Vou buscar um cartucho.
Como ele é desajeitado. Ajuda um pouco.
Devia ter-te deixado fazer o que querias, idiota.
Vê onde terias acabado sem ele.
- Nesse buraco negro. - No nada.
Podes levar um tiro de chumbo.
Quando precisas de uma coisa dessas, recusa-se a funcionar.
Valha-me Deus. Isso está a ferver como o inferno.
Que mal fiz eu a Deus? Hei de responsabilizá-los por isso.
Não lhe dês demasiado de beber, Rose.
Pobre Toine. Conhece-lo, ele não fica mau quando bebe.
Eu também estou aqui para defender a tua honra.
Conto consigo, senhor Jules. Boa noite, Rose.
Tira uma carta.
Viu? Põe-o de volta agora. Chega mais perto.
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