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Um pequeno cavalo trotava alegremente. O seu dono chamava-se, naturalmente, d'Artagnan.
Ia a caminho de Paris em busca de fama e fortuna.
O cavalo, a mais nobre conquista do homem,
provocou sobretudo zombarias à chegada de d'Artagnan.
O que há de tão engraçado nisso?
Vem cá. Cuidado com o cavalo.
Entre Tarbes e Meung, d'Artagnan puxava frequentemente da espada e chegava triunfante.
Estalagem de Meung.
Muitas vezes desce-se do cavalo, mas de onde descende esse cavalo?
Quem troça de um cavalo também troça do seu dono.
Raramente rio, monsieur, mas quando rio, rio a valer.
Não te vires, para eu não ter de te bater pelas costas.
- Não lutamos com camponeses. - Monsieur desafia-nos.
Alto, criados!
Despachem-se!
A lição foi suficiente. Voltem a pô-lo no seu pangaré amarelo e mandem-no embora.
Não antes de vos matar a todos.
Monseigneur tem de continuar deitado.
- Não se mexa. - Então fico completamente rígido?
- Isso seria um espetáculo. - Monseigneur engana-se.
Bom trabalho, querido. Fico bem.
Ora, ora...
Onde vais?
Então, Vossa Eminência ordena...
Regresse imediatamente a Inglaterra e informe-me quando Buckingham partir.
Diga a Sua Eminência que sou o seu humilde...
Cuidado, monsieur.
Tu outra vez, rapaz? Isto está a tornar-se uma obsessão.
Quem é aquele jovem fogoso? Vem da guerra ou do manicómio?
Por causa de uma mulher, não se chama os criados.
Ele quer resolver isto a sós. Não serei indiscreto.
Beijar-lhe-ei a mão assim que lhe cortar as orelhas. Assim fica resolvido de imediato.
Venha, Milady.
Covardes!
Voltaremos a ver-nos!
Em fuga como cobardes. E dizem-se cavalheiros.
Como a tua mão está fria!
- Como te chamas? - Annette, Monseigneur. Às suas ordens.
- Que seja recíproco. - Monseigneur.
Com respeito, nessa noite continuou a chamar-lhe "Monseigneur"
na segunda noite era "d'Artagnan", na terceira "meu querido Charles".
Este "Charles" tinha a certeza de que a recuperação de d'Artagnan tinha começado bem.
A noite estava límpida, juraram que duraria para sempre.
Na realidade, durou oito dias.
O descanso, como tudo, é algo de que acabamos por nos fartar.
D'Artagnan prometeu regressar assim que o serviço do rei o permitisse.
- Prometes? - Prometido.
Ela não acreditava nisso, nem ele. As promessas ficam como belas recordações.
No dia seguinte, depois de ter
resolvido os seus problemas: vendido o cavalo e comprado uma espada nova,
d'Artagnan desapareceu na movimentada Paris.
Foi ter com M. De Tréville, amigo do seu pai e capitão do rei.
- Porthos, o teu cinto abdominal é uma obra de arte. - Uma loucura, pura maluquice. É moda.
- Deixam-te na ruína? - Quem?
Aquela belíssima morena, supostamente espanhola.
Fui eu que paguei esse cinto. Não entrou dinheiro espanhol.
Pergunta ao Athos.
Se tivéssemos cuidado com o dinheiro, andaríamos nus.
Amigos, sois uma praga. Aramis, ajuda-me um instante.
Não diz a Escritura: "deixai vir a mim os pequeninos"?
Apresente-me a M. De Tréville. Chevalier d'Artagnan.
Aramis, serias um padre encantador.
Foi adiado, mas continuo de sobreaviso.
Espera que a rainha dê um herdeiro ao trono.
Esperemos que isso não demore muito.
Diz-se que o duque de Buckingham está em França.
Não brinque com isso, o amor não conhece leis.
E sabemos que é uma criança inglesa. Em breve cantar-se-á sobre isso.
Se naquela altura tivesse existido um clube gascão, M. De Tréville teria sido o presidente.
Recebeu calorosamente o filho do seu velho amigo.
O teu pai era corajoso. Tenho a certeza de que segues o seu exemplo.
Vou dar-te uma carta para M. Des Essarts, para que ele te aceite entre os cadetes.
- Esperava tornar-me imediatamente mosqueteiro. - Paciência, rapaz.
Prova o teu valor entre os cadetes e depois veremos.
Era chauvinista e preconceituoso como todo
homem de boa linhagem, e praticava uma fé em que Deus vinha do Béarn.
Céus! Aquele falso nobre de Meung. O cobarde!
As orelhas estão intactas!
- Encontramo-nos no Pombal Vermelho. - Está bem.
Deves ser um provinciano.
Se o sou ou não, não vou deixar que me dês lições.
- Se não tivesse pressa... - Espero por ti.
- Onde? - Esta noite nos Carmes Déchaux.
- A que horas? - Às cinco.
Estarei lá.
Faz amigos rapidamente.
És cego ou louco? Vão dar-te uma tareia.
- Isso é uma grande palavra. - Discutimos isto?
- Às cinco, nos Carmes Déchaux. - Está bem. Sou o teu homem.
Aqui tens um lenço que preferias não perder.
Bonita coroa. Ainda negas que tens um caso com madame de Bois-Tracy?
Desculpe-me.
Os gascões olham sempre para debaixo dos sapatos dos outros?
Mas, ao pedir desculpa,
um gascão cumpre mais de metade do seu dever.
Conheces os Carmes Déchaux?
Muito bem. Às cinco, se quiser.
Morrer tão jovem... Pois...
Mais tarde, com o uniforme dos cadetes, d'Artagnan aproveitou
o tempo que lhe restava. Foi à procura de um quarto.
Apresentou-se a um certo M. Bonacieux,
de quem tinha recebido a morada.
Senhor.
Bom dia. Um amigo disse-me que aluga um quarto.
Com efeito, Monsenhor. No segundo andar. Se me seguir.
Nestes tempos difíceis, a renda mal cobre as despesas.
Alugo para prestar um serviço, não para ter lucro.
Não é um quarto para um mosqueteiro, mas a um preço principesco.
Por essas duas razões, tenho de lhe dizer...
Finalmente! Tive de servir o meu próprio almoço.
Servia a rainha. Não se esqueça de que sou a sua lavadeira.
Venho do Louvre.
Voltemos ao assunto. Quanto custa este quarto?
Há pouca luz e ar, mas a vista é magnífica.
Então pago pela vista.
- Faz um bom negócio. - Estou a ver.
- Constance? - Tio?
O cavaleiro d'Artagnan é o nosso novo inquilino.
A minha sobrinha, Constance.
Limpa um pouco aqui.
Deixo-vos um momento.
Ela trata das tarefas domésticas.
Senhor?
Considero-o encantador.
Oh, senhor...
- O que se passa? - Cinco horas.
Para onde vai?
Onde a honra chama. Se não tiver regressado dentro de duas horas,
a minha alma virá pedir desculpa.
A pontualidade pode ser uma virtude dos reis, mas não dos nossos inimigos.
Demasiado tarde para a sua última hora. Imperdoável.
Que bom encontrarmo-nos ao mesmo tempo e pela mesma razão, sem marcação.
Com quem vais duelar?
Com um gascão experiente. E tu?
- O meu é um bearnês teimoso. - Que coincidência. O meu também.
- Ali está o meu homem. - Não, o meu.
Digamos: o nosso.
Três duelos à mesma hora. Isto é uma brincadeira.
Provavelmente o último.
Temos mesmo de lutar para disputar a honra de poder matar-te?
A honra é minha, senhores, mas respeitemos a ordem.
Athos tem o direito de me matar primeiro.
Isso diminui a sua culpa, M. Porthos, e torna a sua quase nula, M. Aramis.
A menos que vos mate aos três.
Gabarolice.
Aquele jovem tem uma bela qualidade.
Os guardas do Cardeal. Espadas às bainhas!
Chega! Guardem as espadas.
Então, mosqueteiros, a lutar contra o regulamento?
O bom M. De Jussac.
Ninguém mais. E pede-lhe que o siga.
- E se não? - Se não, atacamos.
Escolha.
Somos seis, vocês são apenas três.
Aparentemente, somos quatro.
A verdadeira amizade deve ser fortalecida pelo sangue.
Ou se é mosqueteiro ou não se é.
Luís XIII causou pouca impressão, talvez
porque se encontrava entre Henrique IV e Luís XIV.
Receio, senhores, ter ganho.
- O número 13 dá-lhe sorte. - Buckingham está dentro das nossas muralhas?
Deseja prosseguir?
Perder contra Vossa Majestade é um prazer.
Então, continuemos.
M. De Tréville aguarda as suas ordens.
Vou vê-lo já.
M. De Soissons, substitua-me.
- Se estes senhores me aceitarem. - Claro, caro Soissons.
Venha ao meu gabinete, Tréville. Tenho de o repreender.
Os seus mosqueteiros são diabos, destinados à forca.
Cinco dos homens do Cardeal, entre eles o esgrimista Jussac, postos fora de combate num só dia.
É demais. Eles fizeram Sua Eminência adoecer de verdade.
Ao ponto de ontem à noite não ter assistido aos meus jogos.
- Como aconteceu? - Da forma mais simples.
Três dos melhores mosqueteiros saíram com um jovem cadete que conheço.
Estes rapazes pacíficos foram parar aos Carmelitas.
Para pastar um pouco como bons cordeirinhos.
Foi então que M. De Jussac e os seus guardas os atacaram.
- Porquê? - Botas, Majestade.
Gosto dessa palavra.
Mas enfim, voltemos ao nosso rebanho... aos seus cordeirinhos.
Vossa Majestade sabe-o: três mosqueteiros e um cadete derrotaram seis guardas de elite.
- Uma vitória total. - Com efeito, Majestade.
Bravo.
É pena que a França esteja dividida... Traga-me esses homens corajosos, Tréville.
Estão aqui, Majestade, arrependidos e conscientes da sua culpa.
Desconfio dos seus olhares hipócritas.
Vossa Majestade engana-se.
Vejo um jovem cadete.
Foi ele quem desferiu aquele afortunado... aquele golpe fatal em Jussac?
- Foi ele. - Porque não o aceita?
Já o tinha considerado, Majestade.
Avance, jovem gascão.
Como posso agradecer-lhe?
Não esquecendo nunca que lutar é proibido.
Odeio a desobediência.
Respondo por eles como por mim próprio.
Devia tê-los castigado.
Felizmente para eles e para si, tenho uma fraqueza pelo valor.
Estalagem O Pombal Vermelho.
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