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DRÁCULA, MORTO MAS FELIZ
TRANSILVÂNIA, 1893
Em espaços pequenos sinto-me impelido a apresentar-me.
Sou Thomas Renfield, Ilmo Sr.,
advogado de Londres. - Ah, inglês!
A minha mulher e eu adoramos os ingleses. Não é, querida?
Não estou habituado às estradas da Transilvânia,
estou um pouco enjoado. - Direi ao cocheiro que reduza.
Cocheiro...
O Sol vai se por. Temos de estar na vila antes de escurecer!
Depressa, depressa!
Rápido, rápido!!
Agarre-se, inglês!
Está bem, já compreendi.
Cocheiro, pode reduzir um pouco?
Sim!
Obrigado.
Obrigado.
Não tire a minha bagagem, sigo para Borgo Pass esta noite.
Sim..
O que está fazendo?
Já está muito escuro. Não vou mais longe.
Agora terá que ir a pé.
- Vai lá esta noite? - Sim, vou para o castelo.
Marquei um encontro com o Conde Drácula.
"Drácula"?
"Drácula"?
"Drácula"?
"Encontro"?
Sim, tenho assuntos a tratar com o Conde.
- Não deve ir. - Porquê não?
Porque nós, montanheses, cremos que vivem vampiros no castelo.
- Vampiros? - Sim. São os morto-vivos.
Saem dos caixões à noite.
Tornam-se lobos ou morcegos, mordem o pescoço das vítimas
e bebem o seu sangue.
Isso deve ser superstição.
Não, Madame Ouspenskaya tem razão.
Por favor, meu filho, leva esta cruz.
Não, obrigado.
Leve a cruz. O poder sagrado e espírito do Bem
vão proteger-te do perigo que espreita.
Não, sério, obrigado.
- Raios, leva a cruz! - Com certeza.
São 15 kopeks.
Obrigada.
Bem, se tenho de ir a pé, tenho de ir.
Não vá por favor, eu te imploro!
Mas você não está entendendo, eles me aguardam.
Bem,
adeusinho.
O quê?
Como está?
Sou Thomas Renfield, advogado de Londres.
Vim falar com o Conde Drácula.
Os filhos da noite.
Só fazem porcarias.
Sou o Conde...
...Drácula.
- Machucou-se? - Estou muito bem.
Para me machucar, seria preciso muito mais. Venha.
Venha, Renfield.
Renfield, não enrole!
Vou já!
Desculpe-me. Que embaraçoso,
ao vê-lo atravessar a teia julguei-me capaz do mesmo.
Aí pensei em rodeá-la, mas não,
fiquei todo preso e... - Renfield, não quero saber.
Agora, se não estiver muito cansado da viagem,
quero falar da compra da Abadia de Carfax.
Claro. Tenho aqui os papéis.
Muito bem.
- Um tanto empoeirado, não? - É, gosto assim.
Assine aqui.
E aqui.
Pronto.
Parabéns, é o dono da Abadia de Carfax. Uma cópia para você,
e outra para mim.
- Você está bem? - Sim, foi só um corte com papel.
Não se aflija, tenho um lenço.
Que estupidez.
É pior do que pensava, devo ter cortado uma veia.
Meu Deus! Que estão fazendo com a mobília?
O que vocês querem? Que estão fazendo?
Quem são vocês?
Saiba que é em meu joelho que você está encostando!
Parem com isso já.
Isto está errado!
Está mal, ouviram? Mal! Isto é...
Façam-me mal! Faça-me mal!
O que está acontecendo aqui?
Pensam que com isso me orgulho de vocês?
Vão, enquanto o tranformo em meu escravo.
E parem com isso!
Então, Renfield, sente-se melhor? Teve um pesadelo.
Um pesadelo? Mas era tão real, tão vivo.
Duas mulheres voluptuosas,
a apalpar-me, a agarrar-me... Como posso descrever?
- Já esteve em Paris? - Sim.
Vou te mostrar um velho método transilvaniano de relaxamento.
Olhe-me nos olhos.
Suas pálpebras estão pesando, sente que...
Renfield, adormeceu cedo demais.
Tenho mais para te dizer. Acorde.
Está se sentindo sonolento.
Que simplório.
Renfield, esqueça o sono! Ouça-me.
Só ouvirá a minha voz. A partir de agora será meu escravo.
Você sacrificará tudo pela minha segurança.
Em troca vou te dar vidas. Não serão vidas grandes.
Insetos, moscas, aranhas.
Fretei um navio para Inglaterra. Partimos amanhã à noite.
Eu o ordeno que zele pelo do meu caixão.
Sim, amo.
O DEMETER RUMO A INGLATERRA
Renfield!
Renfield!
Aí vou, amo!
Amo, não se aflija, eu ajudo-o.
Já está seguro, mestre.
Parece fraco, amo. Está desidratado.
- Tome, tem de ingerir líquidos. - Concordo.
Vou acho que começar pelo imediato.
COMANDANTE ENCONTRADO MORTO EM UM NAVIO VAZIO Único sobrevivente é um louco.
LONDRES
Ópera Fausto
Estou tão contente por vir à ópera.
Adoro este palácio de arte e beleza.
Sim, minha querida, a ópera é espantosa.
A música é cheia de amor, ódio, sensualidade e paixão.
Todas essas coisas que consegui suprimir em minha vida.
Desculpe-me o atraso, querida.
- Estávamos preocupados, pai. - Desculpem. Sentem-se.
Demorei no manicômio. Hoje chegou um doido extraordinário.
É o único sobrevivente da escuna que chegou ao porto Whitby. Muito bizarro.
- Olá, como posso ajudá-lo? - Sim, pode ajudar-me.
O Dr. Seward está naquele camarote,
e é imperativo que eu me encontre com ele a sós.
Diga que há um recado para ele na entrada.
Um recado para o Dr. Seward, na entrada.
Ótimo. Agora vá.
Recado na entrada, para o Dr. Seward.
E não se lembrará de nada do que eu te disse.
Que extraordinário.
Olá, posso ajudá-lo Sr.?
"...posso ajudá-lo Sr."?
Qual o seu problema? Porque não falou pra ele?
- Sobre o quê? - Sobre o recado.
- Para quem? - Não importa, eu mesmo falarei.
E pelo seu péssimo desempenho, não receberá gorjeta.
- Não há gorjeta? - Disso lembrou-se.
Com licença, é o Dr. Seward que tem um sanatório em Whitby?
Sim.
Comprei a Abadia de Carfax e sei que fica ao lado do seu terreno.
Sim! E você é...?
Perdoe-me. Sou tão conhecido no meu país
que às vezes esqueço de me apresentar. Sou o Conde...
Dr. Seward, há um recado para você na entrada.
Com licença.
Drácul...
...la.
Como está, Conde Drácula? Sou Jonathan Harker,
assistente do Dr. Seward. Esta é Lucy Westenra,
e esta é a minha noiva, filha do Dr. Seward, Mina.
Conde Drácula, será bom ver novamente luz nas janelas da Abadia de Carfax.
Sim, a Abadia recorda-me sempre aquela frase. Sabem,
"Um sótão de madeira com paredes nuas,
em que o nosso riso ecoa como se os mortos lá estivessem".
Gosto do seu modo de pensar, minha querida.
Esse é um dos meus assuntos preferidos.
Temos de combinar um encontro para falarmos longamente disso...
...muito longamente.
E agora deixo-os, tenho um compromisso com a imprensa.
Conde Drácula?
Desculpe, minha querida, mas tem um bonito mapilar uccipital.
O que é isso?
Isto.
Obrigada.
E agora, deixo-os.
Há alguma coisa...
...do outro mundo naquele homem, e que me arrepia.
Sim, a mim também.
Conde Drácula,
gostaria de ter a tal longa, longa conversa agora mesmo.
- Desculpe-nos, minha querida. - Dr. Seward, Jonathan.
Eu estava dormindo.
Desculpe-nos, mas ouvimos um ruído nos arbustos sob sua janela.
Pensamos que podia ser um gatuno.
- Importa-se que olhemos? - Não, por favor.
- Aqui não há nada. - Aqui também não. Que alívio.
Estou convencido de que não há perigo nenhum.
Desculpe-nos o incômodo. Vimos o quarto todo
e não há sinais de arrombamento. Boa noite.
Boa noite.
Este trinco está mau. Não há problema, vou fechar com força.
Sanatório Seward
Renfield?
- Sim? - Não agüento isto. Você agüenta?
As luzes, os gritos, as caras de louco me encarando!
As paredes estão me cercando. Tenho que sair daqui!
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