İlk 200 satır.
Por que eu estou sendo alvo dessa câmera?
Eu tenho uma certa resistência a me ver como um objeto de uma investigação,
ou de uma atenção assim...
Essa é uma coisa que me incomoda nas entrevistas.
Eu acabo respondendo, claro,
porque também me interessa responder.
Pra mim, tem um peso muito grande
porque de certa forma eu escondo muito as coisas de mim.
Valente, meu neto, também nunca tinha vindo aqui.
Eu vetava a casa pra ele também.
Ah, é?
Agora, não, ele está andando, ele tá todo bípede, né?
Eu estava querendo que ele viesse, eu estava meio impaciente,
minha nora também, o Rafael também, todos acharam legal.
Ele achou legal, ele ficou...
Ele entrou aqui na cozinha e "caveira", a primeira coisa que ele viu.
"Você gostou?" "Gostei."
Ele adora meu pai, adora! Dormiu esses dias lá na casa dele,
a primeira vez, adorou.
É o vovô, a gente combinou isso,
eu, ele e meu pai.
O que ele seria, vovó ou vovô?
E aí o pai da Má tinha falecido, não tinha mais vovô e tinha tipo oito vós na mesa.
E a gente perguntou se ele toparia ser o vovô.
Suprir uma lacuna. "Não, tudo bem."
Como é que foi com o teu pai, a primeira vez
que tu apareceu vestida de mulher?
Ah, ele ficou bem puto.
Mas a minha mãe fez a cabeça dele, acho.
É, meu pai é mais durão com essas coisas,
de homossexualidade, de gênero.
Ele não tem abertura pra isso, não.
Ele teve e eu acho isso uma coisa fenomenal, o esforço dele.
E acho também algo da velhice.
Uma espécie de relaxamento, assim.
Meu pai é professor aposentado.
Entende de pedras.
Eu me lembro quando eu entrei lá na FAAP,
lá tinha muito veado, uma coisa de artista, assim.
Esse clima era meio evidente e ele não escondia o desagrado, não.
-Por tu estar lá? -Ele falava, que achava estranho.
"Veja aqueles invertidos ali."
-E eu olhava, tudo amigo meu. -
O que foi mais difícil foi com a minha mãe.
Porque até ali,
a publicação na revista Bravo,
quando a coisa veio a público, eu estava satisfeita.
Mantendo a minha vida clandestina.
Mais conformada do que satisfeita, né?
Eu sabia que ela não ia, de maneira nenhuma,
me renegar ou coisa desse tipo.
Mas eu sabia que ela tinha objeções a colocar.
E ela reagiu de uma forma bem típica dela.
As primeiras reações foram muito bem-humoradas e...
e favoráveis.
Ela falou assim: "Ah, então...
eu tenho aqui umas saias e vestidos para você que eu não uso mais."
Bom, essa é minha mãe. Ela reage primeiro com humor...
e meio que mantendo as relações que a gente sempre teve, que são amorosas,
afetuosas e tudo.
Depois, ela coloca as objeções:
"Cuidado. Você pode ser atacada,
você pode ser hostilizada, você pode ser agredida."
Agredido, que é como ela fala.
Mas não havia muito como apaziguar ela, não.
Ela ficou... acho que até hoje ela é meio preocupada com isso.
Depois, ela também é preocupada com a questão teórica.
Porque ela é uma bióloga.
A concepção de vida que ela tem é...
é biologia ditando a lógica.
Então...
ela, acho que não entende muito o modo como eu vejo
ou como a questão de gênero é vista hoje.
Ela entende assim, tá, ok,
a pessoa se sente isso mas não é de verdade.
O que é ser mulher?
Minha mãe, por exemplo, diz que é parir.
E eu perguntei por quê,
e ela disse que foi onde ela se sentiu próxima de uma ideia de ser mulher assim.
Foi a grande realização dela.
Existencial, assim.
Mas isso te deixaria de fora. Sim, me deixa de fora.
Quanto a isso eu não tenho ilusões, não. Ela não acha que eu sou mulher.
Mas como é que tu acha que ela te vê? Não é de verdade, não é...
Não sei direito, acho que ela me vê
em primeiro lugar como um filho que ela teve.
Durante 60 anos foi um filho.
Acho que ela fica inquieta com...
ideias que podem ser perturbadoras pra ela.
Ela entende que é um modo normal e natural,
que ela não usa aspas, onde ela não põe aspas. Entendeu?
Tu falou que é difícil com ela, mas como tu conta não pareceu difícil.
É... foi difícil e é difícil porque ela
representa pra mim algo muito sério.
Algo muito...
Não é só uma pessoa que eu quero
deixar apaziguada e confortável.
Não, ela é uma pessoa fundamental na minha vida.
E é e sempre vai ser.
Não é que ela foi fundamental. Ela é fundamental.
- -
Eu gosto desse açúcar, que faz...
Eu acho ele bonito...
- É, e ele faz esses bloquinhos... -É uma coisa brilhante.
Eu gostava de, quando eu ia na praia,
o rio, ao chegar no mar,
ele cava na areia o leito dele, é um leito que muda muito,
conforme a vazão da água, o leito vai, vem...
Então, tem muitas... as barrancas da areia deixam uns fiordizinhos assim,
e eu adorava ficar brincando,
fazendo a água entrar ali, assim,
até, ploft, cair um pedação, assim.
Que nem no açúcar.
Isso quando tu era criança ou...
É, mais criança.
Meu pai comprou um terreno lá em Juquehy e fez uma casa pré-fabricada lá. Em 66.
Que música você quer? Eu quelo do Homem-Alanha.
Homem-Aranha, Homem-Aranha...
Não, é aqui que a gente toca.
Na preta?
A gente toca aqui e bota lá dentro do bulaquinho.
Ah, já sei. Não era Homem-Aranha, não, era o Batman.
-Batman! -Whoa!
- -
Tu falou que tem medo de expor, de se expor...
O que exatamente tu tem medo de expor?
Não sei. Uma vez eu falei que é porque
eu tenho medo que percebam que eu sou uma fraude.
- -Mmm.
Eu tenho medo que percebam isso.
Eu tenho medo que entrem na minha casa
porque vão perceber que é uma zona isso aqui,
que não é uma casa regular.
Eu moro aqui há 12 anos.
Não resolvi a coisa do que eu quero ali.
Tá tudo... tá tudo assim...
Provisório. É um provisório eterno.
Meio exposto.
Um, fios expostos, o rodapé...
o rodapé meio apodrecido, e eu até hoje não resolvi.
Uma hora eu vou acabar resolvendo.
A gente nem sempre faz coisas muito lógicas, né?
Da morte do meu filho até 2009, quando eu falei: "Chega, vou virar mulher,
vou entrar nessa viagem",
se passaram coisas deste tipo assim,
deixar a barba crescer,
mudar meu trabalho de forma radical,
abandonar os personagens, né?
Eu digo abandonar porque é uma força de expressão.
Deixar de lado, né, o uso de personagens,
deixar de lado o uso da construção de discurso cômico, como eu fazia.
Eu passei por essas coisas todas.
Mas eu já tinha começado a me investigar como pessoa transgênero. E eu parei.
Nesse ponto, algum sininho tocou lá dentro,
quando o Diogo morreu,
e eu achei que era...
Eu me perguntei isso muitas vezes.
Por que isso me soou impróprio?
Por que mexer no meu trabalho de forma absolutamente despudorada
não foi considerado impróprio e isto sim foi?
Eu fico pensando nessas coisas.
A morte do Diogo foi um deflagrador dessa coisa.
É meio horrível falar disso, a morte como uma faísca, né?
Mas o que a morte deixa pra gente, na verdade?
Pro Diogo, significa tudo.
Pro Diogo significou tudo.
É uma espécie de assunto que se autocumpre ali.
E nós, que ficamos?
A gente não está mais negociando só com ele. A gente está negociando com a gente.
O que faz sentido, o que não faz mais sentido...
Eu vejo esse momento como um momento de retirada de véus.
O Hugo agora é a Muriel.
Em homenagem ao fato desse personagem ter sido o meu batedor.
Porque ele apareceu travestida de Muriel. Não era nem Muriel ainda.
E provocou um email de uma... que é hoje amiga minha,
falando: "Escuta, isso tá evidente demais.
A sua anágua tá aparecendo. O seu desejo tá aparecendo.
Ele praticamente não aparece mais de Hugo."
- Mas foi junto com a tua... -Foi comigo, junto com a minha...
Quando eu também virei a Laerte,
ele também virou a Muriel.
Eu resolvi radicalizar coisas que eu estava fazendo em 2004.
Caminhos que eu estava tentando, assim.
Meio na área do menino obediente, sabe?
Eu tento porque eu sou uma criança talentosa,
mas eu fico na tentativa, porque eu sou obediente.
Eu deixo no campo das tentativas, assim e tal.
De alguma forma, eu comecei a ser essa mulher autônoma
naquele momento também, em relação ao meu trabalho,
eu vou parar de ficar triscando e cavucando e vou fazer de vez.
Onde eu fui parar?
Eu fui parar em processos de criação...
que eu tinha antes de ser profissional. Antes de entrar na vereda profissional.
E eu passei, ao fazer este tipo de produção, eu passei a compreender
algo que eu já compreendia. Eu passei a compreender na carne mesmo.
Que a profissionalização no caso de trabalhos de criação,
de casos de expressão,
é a construção de jaulinhas, a construção de limites.
Também é possível que
este movimento em si tenha me consumido tanta energia
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