Az első 200 sor.
AMOR
Pense bem antes de ler,
pois deve decidir se prefere ser sensato e esquecer este assunto
ou se deseja render-se à curiosidade
e descobrir um mundo inexplorado que desconcertaria o próprio Satanás.
Bem-vindo, meu amigo.
Sou o Dr. Henry Jekyll e esta é a minha história.
Ou deveria antes dizer confissão?
Nasci no ano de 1846, no seio de uma família abastada
e, após esmerada educação, segui meu pai no mundo conservador da medicina.
Sou um dos médicos mais respeitados e eminentes, um cavalheiro.
Mas, tal como muitos cavalheiros, reprimi os meus sentimentos
de forma a ocupar o meu devido lugar na sociedade.
Apenas eu conheço a minha verdadeira natureza.
Até hoje, o mundo só viu um pálido reflexo do meu ser.
Tal como toda a gente, aprendi a representar o meu papel
na perfeição.
Bom dia, senhoras e senhores.
Agrada-me que eu vos interesse ao ponto
de assistirem às palestras do St Mary's Hospital.
Hoje, o assunto trata...
...do cérebro e das emoções humanas. Contudo,
se me permitissem, gostava de me desviar do programa anunciado
e de vos apresentar algumas das minhas teorias mais recentes.
Vamos dissecar a verdade.
-És impressionável? -Não.
Dr. Jekyll,
chegou ao conhecimento da direção que tem proferido palestras sobre teorias médicas
da sua autoria.
E não as opiniões aprovadas por este hospital.
É verdade?
-É. -Talvez queira explicar-nos porquê?
Não há nada a explicar, exponho apenas um outro ponto de vista.
E não acha isso arriscado?
Arriscado? Porque haveria de achar?
É filho do fundador deste hospital,
um homem influente.
O público pode ficar mal impressionado com...
...opiniões tão pessoais.
Ou deveríamos antes dizer fantasias?
-Nada há de fantasioso no meu trabalho. -Talvez.
No entanto, o seu último pedido não pode ser levado a sério.
Não posso continuar as minhas pesquisas sem o consentimento da direção.
Requisitou o uso de um paciente?
Isso é monstruoso.
Uma cobaia humana?
Não lhe chamaria isso.
E o que lhe chamaria o Doutor?
Progresso.
Lamento, Dr. Jekyll.
A partir de hoje, o financiamento das suas pesquisas terminou.
Boa tarde, Henry.
Boa tarde.
É tudo. Venha ver-me dentro de uma semana.
Obrigada.
Com licença.
Então? Que se passa contigo?
-Estou irritado. -Isso posso eu ver.
Com quê?
O hospital recusou a minha requisição.
Pensavas que iriam concordar?
Só queria uma oportunidade.
De representares o papel de Deus?
Não, a oportunidade de mudar a vida das pessoas, talvez para sempre.
E, para tal, injetarias uma das tuas mistelas químicas num pobre diabo?
Nós somos médicos, James, cientistas.
E a fronteira entre a sanidade e a loucura é ténue, Henry.
Mudamos a nossa aparência para nos convencermos da nossa diferença.
Deus fez-nos diferentes.
Não somos criaturas vis, instintivas.
Somos seres nobres.
A moral tem origem numa esfera superior.
Eu nada tenho em comum com um homem que espanca a mulher.
As ruas desta triste parte da cidade são uma desgraça.
Para cada lado que se olha é chocante a degradação,
a pobreza absoluta.
Quero deixar uma coisa bem clara:
quando eu for eleito membro do Parlamento
nas próximas eleições,
acabarei com esta mentalidade pecaminosa.
Olhem à vossa volta, cavalheiros. Que veem?
Mulheres vendem o corpo para poderem comer.
Crianças mergulhadas na miséria.
Podemos continuar a permitir isto numa sociedade civilizada?
Penso que não.
Como te chamas, minha filha?
Mabel, meu senhor.
Mabel. É aqui que moras?
-É. -Ouviram isto, cavalheiros?
Aquilo a que chama casa.
-Ned Chandler, que estás tu a fazer? -Que lhe parece? Estou a trabalhar.
Na minha mesa asseada é que não. Vai para outro sítio.
-Boa tarde, Sra. Bradley. -Boa tarde, senhor.
Entra, Mabel.
O Dr. Jekyll não está, creio eu.
Não, senhor. Saiu esta noite.
-E o Sr. Poole? -Está a ler.
-O Sporting Life. Sentado na retre... -Ned!
-Que foi que ele fez? -O costume. Está sempre a dizer tolices.
Sir Danvers. Em que posso ajudá-lo?
Eu é que esperava poder ajudar-te, Poole.
O teu patrão disse-me que precisam de uma criada.
Ótimo. Bom...
...aqui está ela.
Tem as mãos sujas.
Também as tuas estariam se vivesses na rua.
Na rua?
Esta moça precisa de emprego para poder mudar de vida.
Já conversámos e creio ser de confiança e capaz de trabalhar arduamente.
Já serviste alguma vez?
-Não, senhor. -Poole...
Era um favor que me farias se a acolhesses.
Afirmei publicamente que pretendo tratar dos desalojados.
Estou a ver.
Se o senhor a acha prestável como poderemos recusar?
Obrigado, Poole. Fico-vos muito grato.
Acha que Lorde Hedley desposará aquela mulher?
Temo que sim. Redigi o acordo nupcial esta manhã.
Que vergonha.
Devia fazer-se alguma coisa.
Mas é um negócio muito rentável para o meu tio, Lady Carew.
Um advogado leva a vida que pode, James. A moral não interessa.
Mas casar-se com uma americana... por dinheiro!
Parece que é moda agora, minha cara.
Eles têm dinheiro, nós os títulos.
Está muito sério, Henry.
Estou? Não é minha intenção.
O Henry ainda está aborrecido com a decisão do hospital.
Ainda, Henry? Coitadinho.
Acho que é uma grande tolice.
Porque o hão de impedir? Que mal pode fazer?
Achei a sua palestra fascinante. Não foi, Sarah?
Foi sim, mãe. Embora eu não entendesse patavina.
Folgo muito em sabê-lo.
O que é que eles o impediram de fazer?
Impediram o Henry de brincar a Deus.
A Deus? Só isso?
Deviam conhecer o meu marido.
Faz de Deus de manhã, à tarde e à noite.
Não creio que faça de Deus. Acredito que...
Por favor, continue, Henry.
-Não importa. -É óbvio que importa.
Continue. Por favor, conte-nos.
Muito bem.
Acredito que em cada um de nós existem duas entidades.
Um ser superior e um inferior, trevas e luz numa luta constante pela supremacia.
-O bem e o mal. -Não, o instinto básico.
-Deveras? -Uma dupla personalidade.
Tu por vezes excedes-te.
Quer dizer que somos todos iguais?
-Quero dizer que... -Que o Diabo se esconde em todos nós.
A vida faz de nós aquilo que somos.
Tudo o que sofremos nos transforma,
mas sob esta existência refinada,
lá bem no fundo, somos o que sempre fomos.
Suprimimos os nossos desejos, tememos os nossos instintos.
E o que somos nós por natureza?
-Animais. -Animais?
Perdão. Posso apanhá-las?
Não, deixa isso, rapariga. Vai.
E de que nos serve este conhecimento?
-Se eu separasse as duas naturezas... -O bem e o mal.
...as trevas da luz, e as contivesse,
o homem libertar-se-ia de tudo quanto é corrupto neste mundo.
Como se propõe conseguir isso?
Com um composto químico que, se injetado,
poderia controlar o lado obscuro da personalidade.
O desejo de mentir, de enganar e de matar cessaria para sempre.
Por isso requisitou um paciente voluntário.
É desumano.
Deus concedeu-nos vontade própria para escolhermos entre o bem e o mal.
Se a ciência nos retira essa escolha,
então retira Deus do homem.
E se Deus não existir?
-Blasfémia. -Não posso concordar com nada disso.
É ridículo afirmar que somos todos iguais.
Nem todos temos tendências criminosas. E nem todos somos animais.
Tem de concordar que existe uma enorme diferença
entre a minha filha e a sua criada.
Uma vasta educação.
Boas noites.
Interessa-me muito tudo o que disse, talvez o possa ajudar.
Conheço uma pessoa na direção do asilo do hospital,
talvez ele lhe possa fornecer o paciente de que precisa.
Se as suas experiências tiverem sucesso,
conto que me reconheça publicamente como um dos seus patronos.
Certamente.
Que isto fique entre nós.
A fé de Sir Danvers espicaçou-me.
As minhas descobertas estavam por acabar,
mas, dia após dia, sabia melhor do que precisava
para dar início a uma nova fase das pesquisas:
um sujeito humano,
a oportunidade de perceber melhor a dualidade que eu desejava controlar.
-Água? -Que está ele a fazer, Ned?
Ninguém pode entrar no laboratório. É privado.
-Que fazes aqui? -Nada.
Fora daqui!
Espera. Dá-me a chave.
Desfaleci ao observar o triste resultado da minha última experiência.
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