The first 200 lines.
Nós compreendemos. Sentem-se, sentem-se!
- Sentem-se! - Sentem-se!
EM 2020, OS EUA E OS ALIADOS DA NATO
JURARAM RETIRAR AS TROPAS DO AFEGANISTÃO.
Assinámos um acordo para trazer os nossos de volta para casa.
Queremos trazer os nossos para casa.
Vamos acabar com a guerra mais longa da América.
Não enviarei outra geração de americanos
para a guerra no Afeganistão.
DUAS SEMANAS ANTES DO PRAZO FINAL,
DUAS COMPANHIAS DE FUZILEIROS AMERICANOS
FORAM COLOCADAS NO AEROPORTO DE CABUL.
A MISSÃO ERA EVACUAR CIDADÃOS AMERICANOS
E AFEGÃOS "EM RISCO" QUE TINHAM AJUDADO OS AMERICANOS.
Não compreendíamos a escala e o alcance
daquilo que a evacuação acabaria por se tornar.
- Afastem-se. - Deram a entender:
"Vai ser rápido e simples. É entrar e sair."
Mas isso não aconteceu aqui.
Levantem-se.
Foi uma catástrofe humanitária.
DOIS DIAS APÓS A CHEGADA DOS FUZILEIROS,
OS TALIBÃS TOMARAM CABUL.
Nunca imaginámos que tomaríamos Cabul.
Saímos vitoriosos e felizes.
Vínhamos para conquistar Cabul. Todos morriam de medo de nós.
Foi uma altura aterradora e um completo caos.
Todos corriam para o aeroporto para sair do Afeganistão.
Temíamos que começasse uma guerra. Todos tínhamos medo.
Tratava-se das nossas famílias.
Tratava-se da cidade onde nasci e cresci.
Vamos lá despachar!
Sou o comandante do 1º Batalhão 8.º de Fuzileiros.
Cerca de 12 de agosto de 2021, a campainha tocou a meio da noite
e as coisas aceleraram muito depressa.
E no dia 13, estávamos no Afeganistão.
Estão prontos? Vamos sair.
Fomos para o Afeganistão com o que tínhamos às costas.
Saímos do avião e começámos logo a trabalhar.
Eu só tinha 150 pessoas
e faltava muito do equipamento necessário nos primeiros dias.
Aqui têm.
Sabíamos que estávamos lá para começar a missão,
que era evacuar os afegãos em risco, os cidadãos americanos.
Pensámos que seria um processo relativamente ordeiro.
A segurança teria de ser mantida pelo menos junto de Cabul.
Não pensámos que ia acabar como acabou.
O aeroporto de Cabul fica situado num vale.
É rodeado por terreno montanhoso no lado norte,
que também o envolve a oeste.
É um aeródromo grande. Era um local estratégico,
onde provisões e tropas entravam e saíam do país.
Era um aeroporto militar e civil, tudo ao mesmo tempo.
A CIA, os afegãos e alguns dos nossos parceiros da coligação
detinham grandes porções daquela base.
Havia uma espécie de muro exterior.
Toda a gente tinha o seu quinhão daquele bolo grande.
Nos primeiros dois dias, todos estavam nas suas posições
e a segurança mantinha-se estável. Nada de novo.
Os aviões levavam pessoas dali,
mas, que eu visse, não eram civis afegãos.
Os aviões levavam afegãos de alto nível,
diplomatas da nossa embaixada.
A evacuação civil ainda não tinha começado.
Por isso, íamos evacuar os VIP primeiro.
Dois dias depois de chegarmos... Chegámos no dia 13,
e no dia 15, foi um pandemónio.
O dia 15 foi quando os talibãs entraram em Cabul.
COMANDANTE TALIBÃ
Eu combati na jihad durante 15 anos.
Os americanos mataram dois familiares meus.
Foi isso que me fez querer combater na jihad.
FORÇAS ESPECIAIS DOS TALIBÃs
Desde miúdo, sempre quis fazê-los explodir.
Eu era pequeno, mas sentia-o tão intensamente.
Eu odiava-os pela sua selvajaria.
COMANDANTE TALIBÃ
Tudo bem.
Os americanos foram nossos inimigos durante 20 anos,
e nós derrotámo-los. O sacrifício dos bombistas suicidas
e o sangue dos nossos homens valeram a pena.
COMANDANTE TALIBÃ
Eu era o líder das nossas tropas suicidas.
Costumávamos contrabandear armas nos nossos retos.
Até usávamos estas coisas.
Veja, metemos aqui uma bala.
Os americanos desistiram de combater contra nós.
A nossa tecnologia simples derrotou a tecnologia moderna deles.
15 DE AGOSTO
Quando entrámos em Cabul, percebemos que a cidade ia cair.
Parecia um sonho.
Aonde quer que eu fosse, parecia que estava num sonho.
No primeiro dia que cheguei a Cabul,
não esperávamos que Cabul caísse tão depressa.
Quando chegámos a Cabul, o governo afegão fugiu.
Corremos para o Palácio Presidencial.
O primeiro a chegar lá seria um herói.
Entrámos no Palácio Presidencial.
Ninguém resistiu contra nós.
Isto era o centro da corrupção e nós conquistámo-lo.
- Em nome de Deus. - Em nome de Deus.
Ficámos muito felizes quando ocupámos o palácio.
Mas para nós, não era um palácio. Era um bordel.
Cheguei ao centro de operações, onde estava o nosso general.
Foi então que eu soube que o governo tinha caído,
que o presidente afegão se fora embora
e que a missão diplomática no Afeganistão fora encerrada.
Olhámos para os 10 ou 20 ecrãs de TV
e só mostravam o aeroporto civil,
a parte sul da base,
e milhares de pessoas a correr.
E eu só podia largar a refeição que tinha levantado,
pousar a garrafa de água,
voltar a vestir o kit, carregar a espingarda.
Olhei para algumas pessoas, chamei-as e corremos.
E o mar de humanos que queriam ser evacuados
estava mesmo à nossa porta.
Muitas famílias levavam malas de viagem...
ESTUDANTE E EMPRESÁRIA
... e iam para o aeroporto.
Chegámos ao aeroporto à uma da manhã...
ESTUDANTE E ATIVISTA
... passando por postos de controlo talibãs.
Estão a disparar daquele lado. Vamos sair daqui.
Todos os afegãos queriam fugir,
para chegar ao aeroporto e embarcar num avião.
Parecia o fim do mundo, no aeroporto de Cabul.
A investida inicial devia rondar 5 mil pessoas.
Os civis já começavam a chegar.
Basicamente, batiam à porta e diziam: "Tenho de sair."
Diziam: "Tenho documentos. O meu marido era intérprete
e serviu convosco. Tenho de sair."
As mulheres choravam, apareciam com os filhos e a família alargada.
Ainda não estávamos abertos para operações de evacuação.
Não tínhamos lá toda a gente.
Havia um grande número de civis que tinha passado o portão.
A base fora invadida. O aeródromo estava ocupado.
Para eles, aqueles aviões significavam liberdade.
Instalaram-se ali para bloquear tudo, basicamente para dizer:
"Vão pôr-me no avião. Não saio daqui enquanto não o fizerem."
Chamámos os 150 fuzileiros que eu tinha para abrir o aeródromo.
Tínhamos aviões no ar, a fazer tempo. Não podiam aterrar.
Se alguém estiver no aeródromo,
um avião não pode aterrar nem pode descolar.
Não havia como entrar ou sair.
Tentámos mantê-los fora da pista para continuarmos a desembarcar
as nossas forças adicionais e mantimentos.
Dependíamos disso. Se tivéssemos perdido o aeródromo,
não duvido que teríamos morrido todos.
Então, da meia-noite até às cinco da manhã,
mantivemo-los ao largo.
E tentar pôr isto em palavras, aquela luta naquela noite...
Foi corpo a corpo.
Foi usar espingardas como armas de impacto.
Não foi agradável para eles nem para nós.
Eles cercaram-nos completamente em frente ao terminal,
perto dos aviões de passageiros afegãos.
Cercaram-nos com arame farpado.
Todos no Afeganistão e no mundo inteiro
começaram a focar-se no aeroporto.
As pessoas pensavam que a América ia evacuar todo o Afeganistão.
Portanto, o foco dos mujahedin também estava no aeroporto.
Quando chegámos a Cabul, fiquei responsável pelo aeroporto.
Cercámo-lo com mil bombistas suicidas.
Os americanos estavam no terminal e na pista.
Houve alturas de alguma tensão,
devido ao alto risco de um tiroteio com os americanos.
16 DE AGOSTO
Na madrugada do dia 16, infiltrados talibãs na multidão
começaram a atacar os fuzileiros no aeródromo.
Foi aí que as coisas começaram a ficar algo descontroladas.
Quando amanheceu, um combatente talibã apareceu,
a disparar para o ar, e um dos nossos fuzileiros matou-o.
Um tiro limpo tirou-lhe a vida.
Foi quando disparei o segundo tiro, no peito.
Lutávamos contra eles há 20 anos.
Ele era um alvo, uma ameaça. Tinha de morrer.
Decorria um tiroteio mesmo à nossa frente,
enquanto os números não paravam de aumentar.
Agora eram na ordem dos oito ou dez mil.
Tínhamos aberto o aeródromo. Foi uma grande vitória.
No dia 16 de agosto, quando acordei,
eu só ouvia: "Esta família partiu. Aquela família partiu."
E havia um rumor de que cerca de 900 pessoas
tinham abandonado o Afeganistão.
E que pessoas de diferentes categorias
puderam sair do Afeganistão nessa noite.
O segundo dia foi incrível porque mais de nós vieram para a cidade.
Tudo tinha mudado. Estávamos tão felizes.
Foi muito estranho.
Ao passarmos pelas pessoas, elas viam os nossos turbantes,
parecíamos mullahs, e elas fugiam logo.
As mulheres e as crianças morriam de medo de nós.
Passámos tempos muito sombrios no Afeganistão
quando os talibãs assumiram o poder.
Antes da tomada dos talibãs, tínhamos uma vida simples.
Não era perfeita. Não era perfeita, mas era boa.
Quando os talibãs tomaram o Afeganistão,
eu estava no meu primeiro ano da universidade.
Fiquei devastada...
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