Julia

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Julia 1977 1080p BluRay X264-AMIABLE
A Commentary by majovid

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x264
1080
Published on: 2018-01-05
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The first 200 lines.

A pintura antiga sobre tela, à medida que envelhece,

torna-se, por vezes, transparente.

Quando isso acontece é possível, nalgumas pinturas,

ver as linhas originais.

Uma árvore surgirá por detrás de um vestido de mulher.

Uma criança dá lugar a um cão.

Um barco deixa de estar num mar aberto.

Chama-se a isso "pentimento".

Porque o pintor arrependeu-se,

mudou de ideias.

Agora estou velha e quero recordar

o que já uma vez existiu para mim...

e o que existe para mim agora.

Não está novamente a funcionar, Dash.

Está tudo outra vez a desmoronar-se.

Veste a tua camisola. Traz uísque.

Vou fazer uma fogueira e vamos jantar.

Não te esqueças dos cigarros.

Não estou aqui para acatar ordens. Quero conselhos.

És um escritor de topo.

Não és um general, Hammett, e eu não sou as tropas!

Se não consegues mesmo escrever talvez devas procurar um emprego.

Sê uma empregada de mesa.

E que tal seres bombeira, hein? Poderias ser chefe.

Não é má ideia, sabes? Pequena cidade, algures...

num pequeno corpo de bombeiros, um chapéu...

- Eu serei o presidente de Câmara. - E lá terias tu de ser o presidente...

Bem, alguém deve aconselhar-te se...

Estou com problemas com a minha maldita peça e tu não ligas.

Lá porque deixaste de escrever isso não...

Digo-te o seguinte, Lilly.

Vou enviar-te numa viagem a Paris.

Não quero ir a Paris.

Por que não? Ouvi dizer que é uma cidade maravilhosa.

Termina a tua peça lá, diverte-te, visita tua amiga Julia...

Sabes muitíssimo bem que a Julia não está em Paris.

Esteja onde estiver.

Vai para Espanha! Poderá haver uma guerra civil em Espanha.

Poderás ajudar alguém a ganhá-la.

És uma brigona.

Não sou brigona. Não me chames brigona.

Fazes com que pareça o buldogue do bairro.

Tu és o buldogue do bairro, Lilly!

Só que deves ter tido um sonho ridículo de seres um cocker spaniel.

Não consigo trabalhar aqui.

Então não trabalhes aqui. Não trabalhes em nenhum lugar.

Não é como se tivesses já escrito alguma coisa, sabes?

Ninguém vai sentir a tua falta.

É a altura perfeita para mudares de emprego.

Foste tu que me incentivaste a ser uma escritora, Dashiell.

Foste tu que disseste: "Empenha-te, miúda! Tens talento, miúda!"

Bajulaste-me com todas aquelas balelas.

E agora olha para mim.

Se vais choramingar vai para o pé de uma rocha.

Não o faças ao pé de mim.

Se não consegues escrever aqui, vai para outro sítio qualquer.

Desiste!

Abre uma farmácia.

Sê uma mineira de carvão.

Mas deixa-te de choramingar sobre isso.

Acho que sempre confiei na minha memória.

Sei quando a verdade é distorcida por algum drama, ou fantasia.

Mas confio totalmente no que me lembro da...

Julia.

Feliz Ano Novo, avó.

Feliz Ano Novo, Julia.

Feliz Ano Novo, avô.

Por que tivemos sorbet a meio da refeição?

Limpa o paladar entre o peixe e a carne.

- Quem é? - É minha mãe.

- Meu Deus! - Casou-se outra vez.

- Onde é que a tua mãe vive? - Na Escócia.

A minha mãe possui lá um castelo extravagante.

Já lá estiveste?

- Uma vez. - Como é?

Cheio de pessoas extravagantes, com títulos extravagantes.

Quem eram elas?

Não me lembro. Não me interessaram.

São todas muito ricas e famosas.

Só me cumprimentaram e não me recordo.

- Feliz Ano Novo, Julia. - Feliz Ano Novo.

Sou...

Paris.

Sou Paris e... sou um colar de contas.

Sou Paris e sou um colar de contas... numa bailarina ardente.

Sou Paris e sou um colar de contas numa bailarina ardente...

e um francês romântico entra no meu quarto.

E ele leva-me para a escura noite parisiense.

E leva-me para a sua "vila"!

O que é isso?

- Oh, estou em êxtase. - O que é isso?

Terás de aprender francês.

Sou Paris.

Sou Paris e sou um colar de contas.

Não, espera um minuto. Não.

Sou Paris e sou um colar de contas... numa bailarina ardente.

Sou Paris e sou um colar de contas numa bailarina ardente...

e lá fora... é Renoir e Degas.

Sou Paris e sou um colar de contas numa bailarina ardente...

- e lá fora é... - Renoir...

Renoir e Degas...

e cá dentro é tão duro e quente.

Não me importo.

Não me importo.

- Feliz Ano Novo, Julia. - Feliz Ano Novo, Lilly.

Não sei agora dizer se nunca tinha usado as palavras

gentil, ou forte,

ou delicada.

Mas naquela noite achei...

que era o mais belo rosto...

que jamais havia visto.

Talvez consiga fazer um melhor trabalho noutro sítio qualquer.

Dash?

Se fosse para Paris trabalhar...

Estás acordado?

Dash, deverei afastar-me de ti para escrever?

Não. Dormir, Lilly. Estás a impedir-me de dormir.

E Paris? E Roma?

- Não estás a ouvir! - Estou a ouvir!

Por favor, diz-me qual é o problema.

Não quero estar aqui. Não com eles.

- Odeio-os. - Porquê?

Levaram-me a conhecer o Cairo.

Disseram-me quão bonito o Cairo seria. Nas não era.

Disse ao meu avô:

"Olhe para estas pessoas. Estão famintas.

Estão doentes. Por que não fazemos nada?"

E ele disse: "Não olhe para elas."

Eu disse: "Mas estão doentes!"

Ele disse: "Não fui eu quem as pôs doentes."

E Paris? E Roma?

- Não estás a ouvir! - Estou a ouvir!

Onde a minha mãe vive, os criados vivem debaixo do solo.

18 pessoas em três quartos, sem janelas, uma casa de banho.

É errado.

É errado, Lilly.

Compreendes?

Tive notícias de Oxford, da escola de medicina.

- Fui aceite. - Quando é que vais?

No final do Verão.

É melhor ires.

Mas quando é que nos vamos voltar a ver?

Vai demorar tanto.

Pensa desta forma.

Quando o fizermos, teremos muito para conversar.

Todos os da terra de volta ao cais.

Por favor, escreve-me.

Sabes que o farei.

Trabalha muito. Agarra as oportunidades.

Sê muito ousada. Ouviste?

Adeus.

Adeus.

Não voltei a vê-la por um longo período,

até a ir visitar, em Oxford.

Há mulheres que atingem um momento perfeito na vida.

Quando o seu rosto jamais voltará a ser tão belo,

o corpo jamais será tão gracioso, ou poderoso.

Aconteceu isso, nesse ano, a Julia.

- Tens muitos amigos? - Não muitos.

- Tens ido ao teatro? - Não, não há tempo.

Mas sempre fomos ao teatro.

Quando escreveres a tua peça, então irei outra vez.

- Como está o teu livro? - Ainda estou na editora.

Gostaria de poder escrever a tempo inteiro.

- Tens namorado? - Não. E tu?

Acho que talvez tenha encontrado alguém.

- E tu? - Tinha, mas não deu certo.

- O que estás a ler agora? - Darwin, Engels...

Hegel...

Einstein.

Compreendes Einstein?

Claro!

- Vens a casa no próximo Verão? - Não, vou para Viena.

Vou lá terminar os meus estudos médicos

e depois vou candidatar-me a estudar com o Professor Freud.

Consegues isso? Quer dizer, sei que consegues.

- Mas, Jesus! - Acho que sim. Há uma hipótese.

Acho que me vai aceitar. Lilly, tens que vir a Viena.

Então saberás sobre o que escrever.

Lá as pessoas estão vivas.

Trabalhadores que nunca antes tiveram uma oportunidade.

Construíram a sua zona da cidade, em Floridsdorf.

Têm a sua própria orquestra. O seu jornal é o melhor de Viena.

Lilly,

finalmente há uma verdadeira esperança no mundo.

Compreendes?

Sim, claro.

Mas eu não compreendia.

Não totalmente.

Se é que alguma vez compreendi.

Escrevia-me de tempos a tempos.

Foi estudar medicina na Universidade de Viena.

E com o passar dos anos

escrevia amarguradamente sobre a ameaça do fascismo

e do nazismo. De Mussolini e Adolf Hitler

e do holocausto que vinha a caminho.

Não conseguia entender por que é que o mundo

se recusava a ver o que aí vinha.

Decidi aceitar a oferta de Hammett,

para ver se conseguiria fazer melhor trabalho longe de casa.

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