The first 200 lines.
Pan?
- Algum sinal deles? - Não.
- Estás bem? - Não sei bem.
Depois de tudo o que passámos, agora, estamos aqui.
- Nem parece real. - Pois não.
Na torre, o daemon da minha mãe,
vi-o desaparecer à minha frente.
Acho que ela está morta.
Devia sentir-me aliviada.
Há tantas coisas que não compreendo sobre os meus pais.
Como o quê?
Porque não foram sinceros comigo.
Porque fizeram coisas tão horríveis.
Porque não se interessou por mim durante 13 anos e, de repente...
... interessou-se.
Porque me abandonaram?
Quando pensava que o Asriel era meu tio, eu idolatrava-o.
E depois odiei-o.
Agora, não o posso perdoar, mas...
Também não o odeio.
Bem, ele ganhou a guerra. E podemos estar aqui, por isso...
Tenho a sensação de que morreu...
O que significa que estou sozinha.
Não, não estás.
- O que foi? - Nada.
Ainda bem que tomaste banho, porque cheiras sempre mal.
Ela não parece sentir a minha falta.
Parece estar bem.
Vai estar melhor do que bem quando te vir.
Pensa como será bom voltar a estar com eles, estar perto deles.
E se não for a mesma coisa? E se nunca for?
A Lyra ama-te.
Estamos finalmente no mesmo mundo. Aqui, estamos seguros.
- Não são eles, pois não? - Não. Saberias se fossem.
Diz que estão a salvo.
Mas temos de nos encontrar com outra pessoa.
Mas o Pan está cá.
É como quando nos escondíamos na Jordan.
Não sei exatamente onde ele está, mas sinto-o perto.
Não me sinto destroçada. E sei que ele está a salvo.
Ouve.
O que é isto?
Têm rodas!
A rapariga e o rapaz.
Olá.
Venham ver a Mary.
Acho que quer que a sigamos.
- Doutora Malone! - Lyra!
- Não acredito que estás aqui. - Como chegaste...
Disseram-me para te procurar. Sabia que voltaria a ver-te.
Meu Deus, olha para ti. Olá.
- Olá. - Parece que andaste na guerra!
- Muito prazer. - Muito prazer.
Atal, obrigada. Como chegaste aqui?
- Entra. Tens fome? - Sim.
Monstros ímpios.
Têm menos Sraf do que tu.
- Quando virá a eles? - Não sei.
Não têm cápsulas, coitados.
A Atal é tão bonita.
Nunca vi nada como ela.
Há um ano, isto espantar-me-ia.
Mas não é mais estranho do que ursos que falam e anjos.
Devem achar tudo algo desconcertante.
Eu achava.
Estivemos em muitos mundos, mas este é o meu preferido.
Aprendi mais aqui nos últimos meses do que em décadas.
- A Atal ensinou-me tanto. - O quê, por exemplo?
Como confiar nos meus instintos. Como tratar uma árvore com respeito.
Como se trata uma árvore com respeito?
Começamos por não presumir que somos melhores do que ela.
Achamos que os humanos são o pináculo da evolução, mas...
Mas percebemos tanta coisa mal.
Quero mostrar-vos uma coisa de manhã.
É o que eu penso que é?
A resposta à tua pergunta em Oxford.
Lembras-te? Se o Pó era pecado?
O teu Pó, as minhas partículas de sombras...
Aqui, chamam-lhe Sraf.
Mas é tudo a mesma coisa. A faísca que significa que estamos vivos.
É a consciência.
Então, o Pó não é pecado.
É apenas tão bom ou mau como nós.
Porque tens mais Pó do que a Lyra?
É o mesmo com os Mulefa. Vem com a idade. E a experiência.
É incrível. Como o fizeste?
O segredo é o óleo das sementes.
Absorvem-no e é assim que veem o Sraf.
Evoluíram com as árvores, uma perfeita simbiose.
Estava tudo em equilíbrio. E, depois, algo mudou.
É de partir o coração, não é?
As árvores estão a morrer.
É alguma doença?
Não. É o Pó a desaparecer.
Está a esvair-se do mundo.
Os pensamentos, a imaginação, os sentimentos, tudo a esvoaçar.
Este lugar lindo onde todos são mais amáveis e sábios do que nós
e está simplesmente a morrer.
- O que o pode salvar? - Uma forma de atrair o Pó de volta?
Em teoria, o Pó é atraído pelo pensamento, pela criatividade...
Logo, uma grande descoberta?
A Atal diz que não consigo pensar numa solução, mas...
Não consigo evitar tentar.
Então, esses daemons, o que procuramos exatamente?
Bem, parecem animais.
Mas mudam, dependendo de como nos sentimos.
Quando o Pan é um glutão, sabemos que a irritámos.
Mas são parte de nós.
O Will pensava que não tinha um. Porque é do teu mundo.
Mas tem. E tu também.
Ainda estou a habituar-me à ideia.
Ouçam, já nada me surpreende.
Esta aventura tem sido tão extraordinária.
Tive de abdicar de tudo o que pensava saber.
Mas acreditas na alma, não acreditas? Foste freira.
Eras freira? Uma freira a sério? Do nosso mundo?
Ainda há freiras no nosso mundo.
Então, porque paraste?
Muitas coisas em simultâneo, na verdade.
Mary, conta-lhes histórias.
Estava numa conferência em Lisboa.
Ia falar sobre física de partículas.
A minha ordem apoiou muito a minha carreira académica.
Era a minha primeira ida ao estrangeiro e...
... tinha corrido tudo bem. Estávamos a celebrar,
por isso, acho que me senti um pouco ousada.
Sinceramente, até àquela altura,
não sentia que me faltasse nada na minha vida.
E depois, conheci uma pessoa.
Ela não era como os outros académicos.
Não estava interessada em exibir o que sabia.
Era muito fácil falar com ela.
De repente, estava a partilhar coisas que nunca pensei ter de partilhar.
E simplesmente abriu todo um mundo de possibilidades.
De sentimentos...
... que nunca tinha sentido.
E depois ela deu-me um doce, uma coisa pequenina de amêndoa.
E, assim que o provei, uma memória assolou-me.
E percebi que já tinha sentido isto antes,
há anos, quando andava na escola.
Aquelas borboletas no fundo do meu estômago.
Aquela ânsia de estar perto de alguém.
Acho que antes tinha demasiado medo para o reconhecer.
Mas, desta vez, não o queria esquecer.
Sabia que não podia voltar para o convento depois disso.
Não suportava a ideia de viver sem me sentir assim tão viva.
E pensei...
"Alguém ficará melhor se eu voltar para o hotel, rezar
e prometer nunca mais cair em tentação?"
E recebi uma resposta.
"Não. Ninguém ficará."
E percebi...
Não existia ninguém para me recompensar por ser uma boa menina
nem para me castigar por ser má.
Não existia ninguém.
E foi...
foi libertador.
E foi um pouco solitário.
Mas sabia que queria sentir tudo o que o mundo tinha para oferecer.
Queria sentir o amor.
E sentiste?
Senti.
- Tiveste medo? - Meu Deus, estava aterrorizada.
Arrisquei tudo e sabia que seria rejeitada,
mas valeu a pena.
É raro.
Quando acontece, quando nos sentimos assim, temos de aproveitar.
É curioso, não é? Um breve momento.
Ela só me ofereceu um doce e mudou a minha vida para sempre.
Pela primeira vez, estava a fazer algo com todo o meu ser.
Não apenas uma parte.
Onde estás, Pan?
Há tantas coisas de que quero falar contigo.
A Eve era fraca de corpo e de mente.
Foi enganada pelas artimanhas da língua da Serpente.
Iremos cortar essa língua. Iremos...
- Bom dia. - Bom dia.
Trouxe-te algo para comeres.
- Obrigado. - Bom dia.
Bom dia.
Ia ter com a Atal e os outros ao bosque de sementes,
mas posso ajudar-vos a procurar os vossos daemons, se quiserem.
Não é preciso, acho eu. Desenrascamo-nos sozinhos, certo?
Sim. Desenrascamo-nos sozinhos.
- Sim. - Obrigada.
- Está bem. - Adeus.
Adeus.
É estranho o Pan estar aqui, mas não se mostrar.
- Espero... - Esperas o quê?
Espero que não esteja zangado comigo.
Acho que ele vai entender.
E ela também. A minha daemon.
E se a forma final for algo muito mau? Como...
... um mosquito, ou uma lesma? Ou um peixe?
Um homem tinha um daemon que era um golfinho.
Mas era marinheiro.
Imagina-me a andar por Oxford com um golfinho na mão.
Havemos de descobrir.
Achas difícil responder às perguntas da doutora?
Parece impossível explicar aquilo por que passámos.
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