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PELO TEMPO, SOMOS AFOGADOS NUM ESTADO DE PERDA.
Meu, já ouviste falar da ilha de Pemba?
Népia. Onde fica isso?
-É uma pequena ilha na Tanzânia, África. -Sim?
Ouvi dizer que aquilo é lindo,
inacreditável.
Parece brutal.
Sol, céu limpo,
uma vida simples, meu.
Longe desta merda.
Eu sei, puto.
Hei de ir lá, acredita.
Um dia, em breve, lá estarei eu.
Esta terra ainda é a nossa casa.
Tenho pensado muito nisto, meu.
Sim? Pensado no quê?
Sobre nós, sobre esta vida que andamos a levar.
Mano, meu, fala comigo. O que se passa?
Estás bem?
Esta porra é traumatizante.
É profunda e nem nos apercebemos, mas é.
Profunda, como assim?
Sabes de onde vem a palavra "trauma"?
Qual é a origem e isso?
É uma palavra grega. Vai ver.
"Ferida."
FERIDA
A sério?
Uma ferida, uma cicatriz.
CORTE
Isso é profundo.
DOR
GOLPE
É só gente abatida, meu.
-E sabes uma coisa? -O quê?
Sabes qual é a melhor maneira para cicatrizar como deve ser?
Estou-te a ouvir.
Tens de arejar, meu.
Arejar para respirar.
Por isso, tenho de bazar.
Tenho de sair daqui, meu.
Tenho de respirar.
Sinto que, se ficar aqui...
O que acontece?
Vou morrer.
Esquece, mano.
Se calhar, estou a ficar maluco. Só a dizer merda, como sempre.
Ouve, meu, vou andando.
Aonde vais?
O Slim espera-me lá fora. Temos uma cena.
Ainda andas metido com o Slim?
Sim.
É só mais esta noite.
Acabou, para mim.
Quantas vezes já te ouvi dizer isso?
Algumas,
mas desta vez é diferente.
Espero que valha a pena.
Sim, eu também.
Falamos depois?
Não digas nada.
Até logo.
E se eu vos dissesse que era tudo real?
Que isto não era só uma rábula
ou montes de câmaras, atores e músicos,
reunidos para vosso gáudio.
A mensagem importaria menos?
E se eu vos dissesse
-que isto aqui... -Bonitão.
-Só preciso de... -Não.
...é o nosso mundo.
Então, põe-te a andar!
Coisas que vivemos, coisas que vimos.
Mudariam elas os termos da vossa perceção?
Dar-vos-iam uma melhor compreensão de nós?
Provavelmente não, certo?
Seja como for, talvez seja mais fácil acreditar que é só uma história,
porque, se é só uma história, não é real,
e, se não é real,
quando acabar, podem desligar a TV
e esquecer tudo.
Fechar os olhos e sossegar,
dormir descansados.
A verdade é que vivemos num mundo diferente do vosso.
As regras são outras.
Esplêndido.
A vossa ideia de carne é um bife do lombo tenro,
servido malpassado e assim.
Enquanto a nossa...
Digamos que a nossa é algo diferente.
Portanto, sim, vamos só dizer que isto é uma história.
Outra história do bairro.
E, como se sabe, todas as histórias têm um começo.
E, dito isto,
melhor é deixar a história começar.
Bem-vindos à Selva.
BEM-VINDOS À SELVA
Meu puto, como é?
Quatro minutos atrasado Aperta o cinto
Não gosto de esperar sentado A tentar permanecer calmo
Pronto, temos de falar
Depois desta Acabou
Acabou? Como assim acabou?
Achas que vim armado Porque sim
Já chega Há mais do que isto na vida
Tu não estás de saída Tem juízo, isto é a vida
Hoje vamos arrumar isto
Como assim? Fiz o combinado
Pelo menos Nunca falhei nada
A sério Não durmo nada
Tem sido fixe Estás a filmar?
Quero lá saber Se dormes ou não
Preparaste esta cena?
Só sei que só lá está um tipo Nem precisas dessa arma
Não preciso desta arma?
Levo-a sempre para esquemas
Eu não brinco Já vi resmas
Ele passa o pó ou vai de vela
Há pó e fundos em bruto
Está no papo
Pareces idiota, puto
Vamos só manter o plano
Não vou largar esta arma
Desliga as câmaras Fica de olho na carrinha
Se reagir, dou-lhe um balázio
A TORRE DO OURO
CONTROLO MANUAL
ACESSO PERMITIDO
Atina, idiota.
Não te mexas. Volta aqui!
Dá valor à tua vida antes que a percas. Procura.
-Onde está o pó? -Não sei do que falas.
Caluda.
Tira o colar, mano. Tira.
Onde está o pó?
Eu acabo contigo.
-Está a andar? -Sim, sim.
Estás a ouvir-me? Onde está o pó?
Onde está o pó? Eu mato-te aqui!
-Tens noção? -Merda.
As pessoas morrem por isto.
Queres ir desta para melhor?
Queres que eu me passe? Queres morrer à pala disto?
Abre a boca, meu. Eu dou cabo de ti.
Onde está aquela merda? Onde está o ouro em pó?
Onde está o pó?
Achas que estou a brincar, sacaninha?
-Encontrei-o. -Fala.
Já o tenho.
Estás a ouvir? Nunca gostei da tua atitude.
Estás a ver se arranjas problemas.
Dá-te por feliz.
Vamos.
Gogo.
Vemo-nos por aí, sim?
Que disseste?
Que caralho disseste?
Que caralho disseste?
Repete, mano!
Diz mais uma vez e vais ver o que acontece!
Mano, tu não sabes quem eu sou.
Merda! Céus! Merda!
Desculpa, mano.
Porra! Desculpa, mano. Desculpa.
Ajuda. Ajuda-me.
Ajuda-me.
Ajuda.
Por que caralho Foste fazer aquilo
Sabias que ia ser fácil Nada a perder
-Porque atiraste? -És louco?
Fala baixo Quando falas comigo
Deixar cair o telefone Que ridículo
-Eu sei... -Tinha de ser
-Mas e o que combinámos? -Aborta tudo
Estou fora, seu merdas Faz como quiseres
Porra! Foste longe demais Diz-me, que fazemos?
-Deste-lhe um tiro -E?
-Deve ter morrido -E?
-Viste o sangue? -Ainda bem
Acho que ouço a bófia
Atina, meu Estás parvo?
Esteja ele morto Esteja ele vivo
Não é comigo
É assim a vida Pareces um chibo
Vê se não te fazem a folha!
E se os vizinhos me viram? Tenho manchas de sangue na roupa
A miúda vai fazer perguntas Que vou eu dizer às tantas?
Ela que se lixe Escuta bem
Queima o telefone e a roupa
Não dês nas vistas Não brinques
O Don levou um tiro Porque falou
Em cheio. De doidos.
Insano.
O que é isso?
Dá cá.
Isto é de loucos.
Isto vale dinheiro, de certeza.
Slim, deixa-me ficar com isso.
O quê?
Não é bem ficar. Estou a dizer, tipo,
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