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Por volta das quatro da manhã, recebi uma chamada.
Tinha havido um acidente de barco
e a maioria dos miúdos estava no Hospital Beaufort,
mas não sabiam da Mallory.
Recebi uma chamada da mãe da Mallory, ela só gritava.
O telefonema que recebi naquela manhã...
Não o desejo a nenhum progenitor.
Dizia a mim mesmo
que aquilo não podia acontecer, que não podia ser verdade.
Foquei-me em ir para Beaufort.
Não conseguia pensar.
Ainda não sabíamos aonde íamos.
Fomos para Beaufort.
Não queria ir ao hospital, porque a Mallory não estava lá.
Parámos o carro e questionámo-nos: "Aonde devemos ir?"
Depois, descobrimos que o acidente aconteceu em Archers Creek.
Quando lá chegámos, havia polícias por todo o lado.
O Anthony recusou-se a ir para o hospital.
Sabiam que tinha um problema no ombro, mas ele não saía de lá,
porque não queria ir embora sem a Mallory.
Eu rezei e perguntei a Deus
porque é que tinha de ser a minha filha.
O que dizemos a alguém que vem ter connosco,
ao nosso filho,
e ela tinha desaparecido?
Ele estava destroçado e sentia-se muito culpado.
Estávamos no mesmo sítio.
Porque é que eu vim à superfície e ela não?
CRIMES NUMA FAMÍLIA SULISTA
A equipa de mergulho chegou
e os mergulhadores tentaram encontrá-la,
mas a corrente era muito forte.
24 DE FEVEREIRO, 2019
A corrente deve estar a levá-la para mais longe.
Tens de pedir o helicóptero.
Está muito nevoeiro.
E eu continuava lá, à espera.
A Miley ligou-nos. A viagem foi horrível.
Não sabemos o que dizer ou pensar.
Só nos restava rezar.
Só nos restava rezar e foi isso que fizemos.
Na altura, apenas eu, o Paul e o Connor estávamos no hospital.
O Connor mal conseguia falar porque tinha o maxilar inchado
e tinha um corte enorme.
Fiquei em pânico por causa da Mallory e só queria saber se havia novidades.
Sabem alguma coisa? Encontraram-na?
Tentei ter esperança.
No hospital, começámos a interiorizar o que tinha acontecido.
Havia vários enfermeiros a entrar e sair, a fazerem-me perguntas
e eu só conseguia pensar se já tinham encontrado a Mallory.
E só queria a minha mãe.
Quando lá cheguei, levaram-me para um quarto
e iam suturar os dedos dela, porque a pele tinha sido puxada para trás.
Um dos enfermeiros que lá estava, estava a mudar o soro dela e disse:
"Não te devia dizer isto, mas o Paul é um bêbedo nojento
e tens de te afastar dele o mais depressa possível."
Depois, quando lhe fizeram o raio-x,
uma das enfermeiras veio dizer-me:
"De enfermeira para enfermeira e mãe para mãe,
tem de a afastar dele."
Dez minutos após entrar no hospital, fui interrogada pelo agente Pritchard.
Ele disse que precisava do meu depoimento.
Foi aí que comecei a perceber
que isto era uma investigação.
O Alex Murdaugh e o avô do Paul, o Randolph, não demoraram a chegar.
Estes homens que têm grandes reputações no Condado de Hampton
seriam capazes de mentir, enganar e encobrir qualquer coisa.
O Paul estava muito bêbedo.
Passámos a esquina e conseguia ouvir o Sr. Randolph e o Alex.
Lembro-me do Randolph Murdaugh dizer: "Não, não pode interrogá-lo agora.
Ele está totalmente embriagado."
O Connor ligou e disse:
"Pai, tivemos um acidente e a Mallory desapareceu."
O meu telefone voltou a tocar e era o Alex Murdaugh.
E ele disse-me e à Christine que o Connor ia a guiar o barco.
Ele estava preocupado com duas tragédias.
Ele disse-nos para não nos preocuparmos
porque eles iam proteger o Connor.
Foram buscar-me ao quarto para fazer um raio-x ao maxilar
e o Alex sussurrou-me ao ouvido:
"Fica de boca fechada. Não digas nada."
Basicamente, estava a insinuar que eu ia a guiar o barco.
Quando chegámos ao hospital, tentei ir ter com o meu filho,
mas ele impediu-nos.
O Randolph e o Alex falaram com as autoridades.
Depois, entraram no quarto do Connor e ele disse:
"Disseram que tu ias a guiar o barco."
Enquanto me operavam a mão,
o Randolph entrou e ficou a olhar para mim.
Bateram à porta.
O Alex Murdaugh bateu na porta de vidro e disse:
"Tenho de entrar aí. Eu represento-a."
Antes de eu chegar lá, o Alex disse
que ele era o representante e tutor legal dela.
Eu olhei para a enfermeira-chefe e disse: "Não quero aquele homem aqui."
O Sr. Randolph veio falar comigo e eu disse:
"Há alguma novidade sobre a Mallory?
Já sabem alguma coisa?"
E ele disse:
"De quem está a falar?"
E eu disse: "Da Mallory Beach, Sr. Randolph."
E ele disse: "Acho que já todos sabemos qual foi o fim dela."
E eu não conseguia acreditar no que estava a ouvir.
6 HORAS APÓS O ACIDENTE
Mallory Beach, de 19 anos, não é vista
desde que o barco onde ela estava com cinco amigos
bateu num pilar em Archers Creek, às 02h00, num domingo.
Equipas de resgate do Condado de Beaufort e de Parris Island
têm procurado nas águas no local e na zona envolvente.
Liguei o meu computador e a primeira coisa que vi
foi que uma rapariga do Condado de Hampton tinha desaparecido.
Quando soubemos que um Murdaugh estava envolvido,
pensámos: "Caraças!"
Soube de tudo na manhã seguinte, na igreja.
A Mallory foi minha aluna.
O acidente foi divulgado rapidamente.
A tensão estava a aumentar porque o Paul guiou o barco bêbedo.
Muita gente ouviu dizer que havia dúvidas sobre quem tinha guiado o barco.
Após sair do hospital, fui à ponte.
Havia equipas de busca.
O meu coração parava quando os mergulhadores vinham à superfície
e ficava destroçada quando diziam que não tinham encontrado nada
e tinham de passar a outro local.
A BUSCA CONTINUA
Fui ter com o Anthony e os pais dele, mas ele recusava-se a sair de lá.
Cada vez era mais difícil para mim sair de lá.
Fiquei lá o dia todo.
Ele não queria ir embora. Queria estar lá.
Todos os dias, o Anthony ia até à água.
Ele falava com ela, rezava e...
Naquele dia, ouvi-o a dizer a um amigo:
"Não sei o que vai acontecer,
mas, se ela saísse da água agora mesmo,
eu casava-me com ela hoje.
Casava-me com ela neste momento."
Chegámos à ponte, lembro-me de ver os pais dela
e de voltar a ter noção de tudo.
Parecia ainda mais real quando tínhamos de enfrentar a situação.
A Miley era a melhor amiga dela desde o infantário
e eu só podia abrir os braços, abraçá-la e chorar.
Nunca me esquecerei da imagem da Miley a chorar pela Mallory.
Quando crescemos com alguém e temos uma ligação como elas tinham,
parecia que ela estava a implorar a Deus que a ajudasse.
Havia um agente
entre o barco e a equipa de mergulho.
Mas eu disse
que só queria ir até ao local.
Eu só queria ver o barco. Queria ver onde tinha acontecido.
E ele disse-me que eu não podia,
que tinha ordens para não deixar passar ninguém.
E, pouco depois disso,
vi o Sr. Randolph Murdaugh e a Maggie Murdaugh
a irem até ao local do acidente.
Porque é que eles podiam ir lá?
Quer dizer, andavam à procura da minha filha.
Foi aí que percebi que os Murdaugh
estavam mais preocupados em encobrir a situação
do que com encontrar a Mallory.
Isso não nos surpreendeu nada.
O Anthony queria estar perto de onde ela caiu na água
e também não o deixaram.
O irmão do Alex, o John Marvin, tirou o barco de lá.
Na altura, não sabíamos disso.
Ele não o devia ter feito. Era um local do crime.
72 HORAS APÓS O ACIDENTE
Três dias de busca e ainda não há sinal da adolescente.
Ainda há nove ou doze barcos de patrulha,
equipas de mergulho e helicópteros.
A questão do tempo é fundamental
no que diz respeito a resgates e assim.
Se alguém caiu à água nesta altura do ano,
queremos encontrar a pessoa rapidamente.
As autoridades do Condado de Beaver têm dois suspeitos de guiar o barco.
Paul Murdaugh e Connor Cook.
O objetivo do Alex era incriminar o meu filho em vez do dele.
Foi muito chocante e difícil de assimilar.
Crescemos com os Murdaugh. Eu e o John Marvin éramos bons amigos.
O Marty e o Alex eram amigos.
Fazíamos desportos juntos.
Após o liceu, o Alex seguiu o caminho dele e eu segui o meu.
Afastámo-nos.
Três noites após o acidente, recebi uma chamada do Alex.
E ele disse: "Marty, temos de falar."
Quando lá cheguei, era de noite e não havia carros na rua.
Eu saí do meu carro, ele saiu do dele, tirou o telemóvel do bolso,
desligou-o, pousou-o na carrinha e disse-me:
"É para saberes que não estou a gravar."
Quando entrámos, ele disse: "Escolhe uma sala, Marty."
Perguntei: "Como assim?"
E ele disse: "Quero que saibas que não te estamos a lixar."
Não estamos a gravar nem a filmar isto."
Mas, naquele momento, eu pensei:
"Sim, estou a ser lixado à grande."
Ele estava sentado na mesa e disse:
"Quero saber de que lado estão.
Não consigo fazer o luto pela Mallory
porque tenho medo do que pode acontecer ao meu filho."
Eu disse: "Alex, eu só consigo pensar no desaparecimento da rapariga."
Ele queria certificar-se...
... de que, basicamente, eu não abria a boca.
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