The first 200 lines.
Prestem atenção, crianças,
porque a história que vou contar possui uma lição.
Uma lição que um dia poderá salvar suas vidas.
Então, aproximem-se e ouçam com atenção.
Esta é a história da Linda Menina com um pequeno capuz rosa.
O nascimento dela foi um presente para seus pais,
numa época de sofrimento e escassez.
Todos na aldeia concordavam que ela era a criança mais bonita.
Mas ela foi acometida por uma doença,
e a previsão era de que seu primeiro inverno seria seu último.
Seu pai não era do tipo que aceitaria facilmente tal previsão
e ele havia ouvido falar de uma feiticeira
com o poder de curar qualquer doença.
Tudo que ele precisava fazer era ter coragem
e confiar na escuridão.
E ele teve...
e confiou.
Mas quando a feiticeira curou a doença,
ela deixou um presente no lugar.
A criança recebeu o dom da visão.
Todos queriam saber o futuro,
mas ninguém queria ouvir o que ela via.
Porque era apenas o triste fim que chegaria para todos, afinal.
E ela mesma se encarregava disso,
pois logo ficou claro...
que ela tinha outros poderes também.
Ela não pouparia ninguém.
Nem mesmo seu próprio pai...
que, por ela, havia sacrificado tanto.
E, assim, foi ordenado
que a criança fosse devolvida à escuridão à qual pertencia.
Ela foi abandonada no meio da floresta,
sozinha,
sem ter ninguém com quem brincar.
Mesmo assim, ela tinha sua própria forma
de fazer amigos.
Portanto, crianças, por favor, tenham cuidado com presentes.
Cuidado com quem os oferece.
E cuidado com quem fica feliz demais em aceitá-los.
Contos de fadas têm um jeito engraçado de entrar na nossa mente.
Não me lembro onde estava, nem quando foi que ouvi
pela primeira vez a história da Linda Menina de capuz rosa.
Parece que sempre a conheci.
Como alguém consegue ter seu próprio conto de fadas?
Será que eu iria querer isso?
Você passa por muitos problemas terríveis.
E, na maioria das vezes, um príncipe chega e te acorda.
Mas não vejo nenhum príncipe por aqui.
Só o meu irmãozinho.
Ele me segue aonde eu for,
e preciso dividir tudo com ele.
Mas, pelo menos, ele é meu.
Por que está usando isso?
Vou me encontrar com John Stripp
e sua esposa, se ele tiver uma.
Mamãe acha que ele quer uma governanta.
Mas por que sua boca está com essa cor estranha?
Pronto.
Se eu vir uma migalha de bolo,
será o primeiro a saber.
Tá bom?
Você sabe ler?
Não, mas eu sei cozinhar e lavar.
Seu pai era agricultor?
Sim, era.
Ele foi desta para a melhor.
Mamãe está sozinha agora e faz o que pode.
Acredito que não poderá fazer muita coisa até que esta terrível peste seja extinta.
Dizem que as terras estão amaldiçoadas.
Só com a incompetência dos homens,
assim como quase tudo que existe.
Na verdade, o sistema todo é um absurdo.
Temos que dar a colheita a um Bispo
e nem podemos alimentar nossa própria...
Você deveria cuidar com as palavras que saem da sua boca.
Sim, senhor.
Faça uma gentileza a um pobre velho, está bem?
Tente me chamar de "milorde".
Sim...
milorde.
Que boa menina.
Nossos convidados vão preferir assim.
Agora, preciso fazer uma pergunta.
Você ainda é uma donzela?
Desculpe, não entendi.
Você pode não entender,
mas minha pergunta permanece.
Você ainda é...
intacta?
E se eu tivesse levantado e dado um tapa nele?
Eu teria sentido orgulho disso?
Ou não teria sentido nada?
Custava ter dado ao menos um sorriso?
Ou apenas ter dito "obrigada"?
Ele não queria uma governanta.
Não pode ficar aqui, Maria.
Por que não?
Não tem lugar suficiente.
Esta casa está cheia de fantasmas.
Fantasmas famintos...
de tudo que já se foi.
Seu pai está sentado bem ali.
E o meu logo estará aqui.
Você não devia falar assim.
Pegue seu irmão e vá para o convento.
Jogue-se aos pés das irmãs e reze para que elas os aceitem.
O João nunca será aceito em um convento.
E eu nunca pediria para entrar.
Então, vocês dois podem começar a cavar seus preciosos túmulos.
Maria.
Quando você e seu irmão pegarem as pás...
cavem uma cova para a mamãe também.
Vão embora!
Ou eu cortarei vocês em pedacinhos.
Tirei meu irmão da cama
e fugimos do único lar que conhecíamos.
A porta bateu às nossas costas,
e um mundo grande e cruel se abriu à nossa frente
como a boca do inferno.
Você devia ter ido trabalhar para aquele homem.
Não fale do que não sabe.
Por que você é sempre assim?
Eu não sou sempre assim. Não sou uma máquina.
Sempre cria problemas. Você teria tido seu próprio quarto.
E logo teria visto uma migalha de bolo.
Não se ganha nada sem dar algo em troca.
Quando vamos voltar para casa?
Lembra da viúva Hayes,
que dava ovos para o papai antes das galinhas adoecerem?
Ela mora ali em frente.
Talvez nos deixe dormir lá.
Como você enxerga tão longe?
Não preciso ver as coisas para saber que estão lá.
Aqui mora mesmo uma mulher?
Sei que uma mulher morava aqui.
Pelo cheiro, não parece que mora nenhuma.
Quieto.
E agradeça por termos encontrado um teto.
Não chega a ser um objeto de tortura.
Vamos lá.
Acha que a mamãe está bem?
Acho que está, desde que a gente esteja.
Maria...
nós vamos ficar bem?
No que depender de mim, sim.
Irmão!
Maria! Socorro! Tira ele de cima de mim!
Ei!
Não pode ser!
Vocês foram expulsos de casa, suponho.
Estão por aí sozinhos, apenas com as roupas do corpo,
o que não é muita coisa.
Eu tenho um machado.
Deve estar muito bem escondido, meu jovem.
Eu tenho um machado lá em casa.
Fique quieto.
Posso levá-los até o povo da floresta.
Boa gente.
Eles os recompensarão, se vocês merecerem.
Vão te dar um machado novo
e mostrarão como usá-lo.
Você, garota,
aprenderá a cultivar e cuidar da terra,
para que homens maus não encontrem outro uso para você.
Senhor, o que podemos oferecer em troca da refeição?
Você teria comido se não fosse por nós.
Não gosto muito de coelho.
O que quer de nós, então?
Vocês não têm nada que eu queira ou precise.
"O homem bondoso faz bem a si mesmo.
Mas o cruel a si mesmo se fere.
O perverso recebe um salário ilusório,
mas o que semeia a justiça terá recompensa verdadeira.
Tão certo como a justiça conduz para a vida,
assim o que segue o mal, para a sua morte o faz."
Mas todo mundo morre.
De fato. Mas não agora.
Comam até se saciarem, depois preparo um banho para vocês.
O menino está tão imundo
que passaria por adubo, se não fosse pelo branco dos olhos.
É seguro confiar em quem aparece bem quando você precisa?
Ou será que estava só esperando para dar o bote, como uma serpente?
Sigam para o oeste por dois dias e duas noites.
Sigam o caminho que eu desenhei,
e encontrarão o que estão procurando.
Desviem dele, e poderão cruzar com lobos.
Se os encontrarem, não conversem com eles.
São charmosos e bonitos, mas não são de confiança.
Por que não ficamos com o caçador?
Se ele quisesse filhos, ele mesmo os teria feito.
"Feito"? Com o quê?
Eu preciso explicar tudo?
Mas a mamãe não fez a gente.
Fomos trazidos pela janela por pássaros.
Tem razão, João.
Que tola eu fui esse tempo todo.
Terminou?
Sim, e ainda estou com fome.
É o resultado natural de comer tanto.
Você se lembra bem do papai?
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