The first 200 lines.
VERSALHES, 14 DE JULHO DE 1789
Sidonie...
Que horas são? Sou Louison.
São seis e quinze.
O que você quer?
Posso ver o relógio?
-Já o viu umas 100 vezes. -Outra vez...
-Me deixe em paz! -Posso entrar?
Sabe com quem me deitei?
Não me interessa.
Acabará sendo uma solteirona!
Fora daí!
ADEUS, MINHA RAINHA
A Rainha me espera no Trianon.
-Dormiu lá? -Dorme onde quiser.
Jasmim ou violeta?
Violeta.
Como vai a Sra. de Bargue?
Vomitou toda a noite.
Quanto mais chifre leva, mais se empanturra.
Obrigado, Alice. Sinto-me muito melhor.
Sidonie.
Não esquece algo?
Rápido!
10 minutos atrasada!
Para que lhes dei o relógio do Sr. Janvier?
Sinto muito, Sra. Campan.
E está imunda.
-Sua Majestade dormiu bem? -Precisamente, não.
Teve um pesadelo. A Sra. De Soubise a encontrou chorando.
-Que leitura escolheu? -Marivaux.
Esqueça.
Eu aconselharia... "As Orações Fúnebres", de Bossuet.
-A da Maria Teresa da Áustria? -Perfeito.
Tudo o que lhe recorde a Áustria a consola.
Senhorita Laborde!
E tão cedo. Como expresso minha gratidão?
Faria por vós viagens mais largas se assim o desejasse.
Sou consciente de sua devoção. Aproxime-se.
Uma xícara de café.
Prove esta maravilha das Antilhas.
É veludo amargo para as papilas.
Viu? Eu fiz uma rima.
Queimou a língua?
Quase, Majestade.
Este café é uma delícia.
Beba com calma.
Que leitura escolheu?
Pensei na oração do Sr. Bossuet a Maria Teresa...
Não! Que tristeza!
A pobrezinha viveu triste toda sua vida.
Sabe o que disse ao morrer?
"Desde que sou rainha, só tive um dia de felicidade". Apenas um!
E ninguém sabe qual foi.
Não, por piedade...
Me busque... algo um pouco...
um pouco frívolo.
Também me ocorreu... "A vida de Mariane".
O segundo capítulo.
Quando Valville se choca contra ela ao sair da missa.
Marivaux me parece bem.
Mas prefiro o teatro às novelas.
Vá procurar...
"Félicie" na minha biblioteca.
Agora mesmo, Majestade.
E então?
Está tudo muito bem.
Vou à biblioteca.
"Terá que reconhecer que o dia é formoso."
"Entretanto, faz tempo que passeamos."
"E o prazer de estar com você,"
"que sempre é grande, és-me mais grato ainda."
Creio, de fato, que me ama, Félicie.
Crê, senhora?
O quê?
"Só agora tem certeza dessa verdade?"
"Você, percebe quanto é valioso em minh'alma e coração?"
"É certo que sempre foi objeto de mim..."
Por que se arranha assim?
Picadas de mosquito.
Vejamos...
Me desculpe.
Augustine!
Chame madame Campan!
Sabe de onde vêm?
Do lago!
Quando penso que nos asseamos com essa água parada!
Dizem que inclusive há ratos.
Repugnante!
Chamou-me.
Sim, senhora Campan.
Faça a gentileza
de trazer azeite de pau-rosa para a Srta. Laborde.
Tudo isto é repulsivo.
A este passo, acabaremos vivendo em um esgoto.
Eu lamento muito.
Deseja que sigamos lendo "Félicie"?
Não, deixe.
Leia-me a Revista de Modas.
Você trouxe, não?
Estou ouvindo.
"Bordam-se os vestidos com ouro e prata."
"Os ornamentos preferidos na atualidade"
"são acessórios de tule ou de filó,"
"com grinaldas de flores variadas"
"presas por broches em forma de laço de amor..."
Prossiga.
"Acrescentam-se borlas ao estilo chinês"
"ou cornucópias com flores ou frutas..."
Adianta para os bordados.
"As camisolas de linho de cores variadas"
"deram passagem rapidamente aos vestidos bordados..."
Tenho uma ideia para meus vestidos!
Que venha a Sra. d'Ossun com meu caderno de trajes.
Um bordado que imite uma dália.
Está vendo?
Sim, senhora Campan?
Esqueci-me!
Dê-me isso.
Agradeço-lhe a rapidez.
Mostre-me o braço.
Que escândalo!
Um braço tão bonito, tão roliço...
O pau-rosa
é muito bom para acalmar o prurido.
Já não sinto nada.
Senhora d'Ossun!
Aproxime-se.
Dê-me meu caderno.
Tenho um tecido no qual ficaria maravilhoso
o bordado que pensei...
Aqui está.
Terá que ver o que pensa a Sra. Bertin.
É uma fada.
Se coçou diante da Rainha?
Depois conversamos!
Você é italiano?
Você não ouviu?
De uma grande família de Veneza.
O que diz a canção?
É melhor que não saiba.
-Por quê? -É uma canção de amor.
Não é muito original.
A duquesa!
Conhece a duquesa de Polignac?
Toda a corte a conhece.
Eu não frequento a corte, mas ouço coisas.
A Rainha está apaixonada por ela.
Dizem também que Gabrielle de Polignac
ignora o marido dela,
e que é devassa.
Não é da minha conta.
Sei por experiência.
Adora nossos passeios de gôndola.
Pode remar mais rápido?
Deixa comigo.
Dispensará sua camareira para estar sozinha comigo.
A última vez, quis ver "il mio cazzo".
Sabe o que é isso?
Não quero nem saber.
-Me diga como se chama. -Cale-se.
Pode dar meia volta?
Acompanho-lhe, senhora duquesa?
Não, senhora Tournon.
Com o Paolo não tenho nada que temer.
Que tal está a Rainha?
Como uma rosa.
Dizem que escasseia o pão em Paris.
Os lobos acabarão saindo dos bosques.
Que tolices diz?
É o que ouço por toda parte.
Estão divagando.
À minha idade, não temo encarar a verdade.
Em Versalhes não temos nada igual.
Disse à Rainha que borda?
É obvio que não.
Para acabar sendo bordadeira dela?
Já que María Antonieta prefere os vestidos à leitura...
Não voltarei a vê-la.
Não suporto pensar nisso.
Odeio este trabalho,
e a minha senhora por não acabar esta tapeçaria.
Exaspera-me que seja mais rápida.
Não manche as árvores.
Diremos que são amapolas voadoras.
E me dói as costas.
Ai que fome.
Estou farta desta tapeçaria inacabável!
Para mim, é como se viajasse a uma maravilhosa paisagem.
Entendo que a Rainha passe horas olhando seus tecidos.
É quando esquece que é rainha.
Eu nunca esqueço quem sou.
Estamos malucas.
Conhece um rapaz chamado Paolo?
O gondoleiro? Chama-se René.
Chegou há duas semanas.
Mas fala italiano.
É um tremendo fanfarrão, um mentiroso nato.
Não confie.
Tudo bem que é bonito.
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