The first 200 lines.
Existem vários tipos de situações
em que gostaríamos de ter mais controlo sobre o que o cérebro pode fazer,
para termos mais escolha
sobre exatamente o que estamos a absorver, o que apreendemos,
e o que fazemos com isso.
E há situações em que gostaríamos de poder experienciar mais.
Digamos, por exemplo,
que gostaríamos de poder detetar coisas que agora não conseguimos.
Querem conseguir ver o ultravioleta,
ou ser capazes de ouvir o ultrassom,
ou se quiserem ser capazes
de lembrar mais coisas do que normalmente.
A parte mais emocionante do futuro, para mim,
é o potencial para atingir a inteligência humanista.
Esta ideia comentada pelo falecido Marvin Minsky,
de ser possível criar um ambiente
onde temos uma relação simbiótica com a inteligência artificial
e onde veremos o dissipar
dos nossos mundos físicos, digitais e biológicos.
Não como partes separadas,
mas como sendo partes harmoniosas de um organismo humano integrado.
Provavelmente, será possível ler
o que está no cérebro de alguém e perceber o que está lá,
ao traduzi-lo em algo que se possa compreender,
e talvez, até colocá-lo de volta, dá-lo a alguém, ensiná-lo.
Quando decidimos algo agora,
temos a impressão de que somos nós que tomamos a decisão,
e que a tomamos porque queremos,
mas, se os nossos cérebros estiverem ligados à net, à cloud do computador,
e os seus algoritmos conseguirem tomar decisões,
então, quem vai decidir?
Temos curiosidade em perceber quem somos, porque pensamos como pensamos
e o que motiva os nossos pensamentos,
as nossas memórias, a imaginação, as emoções.
Perceber este órgão incrivelmente complexo,
que dá origem a tudo o que nos torna humanos.
Tudo o que vemos, sentimos, ouvimos, o nosso sentido de identidade.
E portanto, dada a vasta complexidade do cérebro,
cem mil milhões de neurónios,
centenas de biliões de conexões,
trabalhando numa rede dinâmica que está sempre em mutação,
é, realmente, um sistema muito complicado
para estudarmos com ciência.
É um grande desafio, mas que me dá grande prazer.
No cérebro humano,
temos cerca de três milhões de quilómetros de fibras interligadas.
Um só cérebro tem suficientes para dar a volta à Lua várias vezes.
O lugar no universo
que é, provavelmente, o mais complexo e misterioso.
O lugar de onde as emoções, pensamentos e memórias surgem,
o lugar no universo que tenta continuamente compreender-se a si próprio,
um enigma por resolver.
Hoje, não sabemos e não conseguimos construir
nada que seja tão intimamente ligado
como o que vemos no cérebro humano.
Há uma hipótese que sugere que o que os cérebros fazem,
que o que o nosso cérebro faz, é gerar uma realidade virtual,
um modelo do mundo que está a acontecer nas nossas cabeças a toda a hora.
Isto tem a ver com ideias
que têm sido discutidas em filosofia há alguns séculos,
especialmente, com a sugestão de Immanuel Kant, o filósofo alemão,
que diz que a razão por que o mundo nas nossas mentes,
as nossas visões do mundo são concordantes,
não é porque as nossas mentes refletem o mundo.
Não, não, é o oposto.
É porque o mundo é criado pelas nossas mentes.
Por outras palavras, o que compreendemos não está lá fora.
Está aqui dentro.
Pesa menos de 1,5 kg.
Consome somente 20 ou 30 watts de potência,
e, ainda assim,
é capaz de fazer cálculos mais complexos do que um supercomputador.
Existem entre cem e mil biliões de sinapses
do tamanho de uma bactéria.
Elas são, basicamente, máquinas químicas.
Recebem um impulso elétrico e libertam químicos.
Chegam aos recetores, uma maquinaria muito complexa é acionada.
Isto resulta numa alteração no comportamento dos neurónios.
Faz com que os genes se expressem, entrem novas proteínas…
A sucessão de processos bioquímicos e biofísicos
é de uma complexidade enorme.
Se quiserem descrever como as redes de células funcionam,
eu diria: imaginem que estão ao telefone
com dez mil pessoas ao mesmo tempo,
e o que fazem
é o mesmo que fazem todas as pessoas que vivem no nosso planeta, na Terra,
cerca de sete mil milhões de pessoas.
E quando depois tentas descrever toda esta comunicação que está a acontecer
dos tais sete mil milhões de pessoas,
e depois, pensas que isso deve ser apenas um décimo da capacidade,
e que isso está só dentro do vosso crânio,
e que está restrito a 1,5 kg,
eu consideraria isso complexidade.
Apesar dos cem anos da neurociência,
ainda não percebemos como funciona o cérebro.
Ainda não temos uma teoria geral sobre o funcionamento do cérebro.
A primeira razão
por que eu diria que é fundamental perceber como funciona o cérebro
tem a ver como a nossa definição como seres humanos.
Somos uma espécie mental.
Somos definidos pelas nossas mentes,
não pelos nossos corpos,
então, somos um tipo de animal muito especial.
Não compreendemos o órgão que cria a nossa mente,
então, quando compreendermos como funciona o cérebro,
conseguiremos compreender como é a nossa mente por dentro,
e vamos compreender-nos pela primeira vez.
A segunda razão tem a ver com a parte clínica, os pacientes.
A humanidade tem de perceber como funciona o cérebro, porque é preciso.
É urgente ajudar os pacientes com doenças mentais e neurológicas
e temos de compreender o sistema para conseguir consertá-lo.
Estimamos que, talvez, uma em cada duas,
ou uma em cada três pessoas na Europa
tem algum tipo de distúrbio relacionado com o cérebro.
Ao todo, talvez existam mais de 200 milhões de pessoas na Europa
com um destes distúrbios.
E também está associado a um custo elevado para a sociedade.
O custo das doenças afetas ao cérebro
é mais elevado do que o custo de todos os cancros
e de todas as doenças cardiovasculares e do diabetes juntos.
E a terceira razão tem a ver com a tecnologia e a economia.
E é muito provável que os cérebros,
não só dos humanos, mas os de todos os animais,
tenham descoberto após centenas de milhões de anos de evolução,
formas de calcular que podem ser muito mais eficientes e poderosas
do que as que usamos agora com os computadores digitais.
Então, se for o caso, se compreendêssemos,
se conseguíssemos decifrar este código neural
e compreender como o cérebro calcula
e quais são os algoritmos presentes nos nossos sistemas nervosos,
provavelmente revolucionaríamos a ciência e tecnologia da computação,
e eu diria que até a economia.
O Santo Graal disto seria criar uma relação muito mais simbiótica
com a inteligência artificial.
Como podemos ver hoje,
a inteligência artificial está a avançar a passos largos,
oferecendo-nos uma miríade de novas formas
de sermos mais produtivos e mais eficientes
na forma como fazemos os nossos negócios
e como gerimos o nosso quotidiano.
Com a introdução de cada vez mais dispositivos
que compreendem de verdade o humano
e como os humanos otimizam o seu próprio desempenho,
teremos uma forma de criar um tipo de inteligência diferente.
É o que chamo de inteligência humanística.
A distinção entre o mundo biológico, o mundo físico
e o mundo digital vai dissipar-se
e integraremos harmoniosamente todas estas dimensões.
Uma compreensão profunda do funcionamento do cérebro humano
poderia trazer respostas a grandes questões filosóficas,
tais como o que é a consciência e como é criada
ou se há livre-arbítrio.
Conceitos como o eu interior, a culpa,
ou até mesmo a realidade poderiam mudar para sempre.
Estamos a abrir a porta para um mundo
onde comunicaremos diretamente com o computador através do pensamento.
Um mundo onde seremos capazes de partilhar os nossos pensamentos
e as nossas emoções pela Internet.
Podemos imaginar um futuro
onde seremos capazes de decifrar os pensamentos alheios e até manipulá-los.
Estamos a construir tecnologia que lê a atividade
de todos os neurónios nos cérebros
e que imputa atividade para controlar
e manipular a sua atividade no cérebro.
E estas tecnologias são necessárias para conseguirmos curar pacientes humanos.
Mas estas mesmas tecnologias…
A tecnologia é neutra. Pode ser usada para o bem ou para o mal.
A mesma tecnologia para decifrar e incutir atividade nos cérebros
pode ser usada para decifrar o que as pessoas estão a pensar
ou para influenciar a atividade das mentes das pessoas.
Podem dizer que isto é ficção científica. Nem por isso.
Em meados nos anos 90,
na última década do século XX e no segundo milénio,
deu-se uma completa revolução no mundo da neurociência:
apareceram as técnicas de neuroimagem.
As técnicas de neuroimagem são importantes para esta revolução
para aprender e explorar o cérebro,
porque é uma forma não invasiva
de entrar no cérebro.
Uma das técnicas de imagem que teve maior impacto
foi a imagem de ressonância magnética.
Pela primeira vez, pudemos ver o funcionamento interno do cérebro
enquanto experiencia sensações e emoções.
Na verdade, as imagens de ressonância magnética funcionais,
capazes de detetar a presença de oxigénio no sangue do cérebro,
permitiram-nos descobrir algo inimaginável há anos:
como é que as várias áreas do cérebro interagem enquanto o doente fala,
vê uma imagem, ouve um som ou simplesmente pensa.
Mas, se lhe pedir para se focar numa tarefa,
como ouvir um som,
só a região dessa tarefa específica, o córtex auditivo, por exemplo,
terá mais concentração de oxigénio,
e esta região sobressairá no contraste ao analisar os dados.
Distinguir o "ouvir um som" e o "não ouvir um som".
A razão por que não percebemos como funciona o cérebro
não é devido à sua complexidade,
mas porque nos faltam os métodos de estudo adequados.
Se pensarem no assunto, tentar perceber um sistema
tão complexo quanto o cérebro, que tem cem mil milhões de neurónios,
estudando só por um neurónio
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