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Memórias de um Homem Invisível
Cá vai.
Vamos a isto.
Estão a olhar para uma cadeira porque estou sentado nela.
Chamo-me Nick Halloway. Não sou doente nem maluco.
Mas sou invisível. Como posso fazer-vos acreditar?
Vamos tentar assim.
Estão a ver? Não há fios.
Esperem aí. Isto deverá convencer-vos.
Estou a gravar isto porque, em horas, posso estar morto. É a última hipótese.
Tenho uma história dos diabos para contar. Vamos a isso.
Tudo começou numa terça-feira, em Março.
90 centímetros de neve?
Consegue-me um quarto no Aspen Lodge até domingo?
Um quarto simples com uma cama king-size. Nunca se sabe.
Óptimo. Obrigado, Cheryl. Depois, falamos.
O Boykin perguntou se viste o comunicado
da proposta de fusão petrolífera da Allied-Security.
O Kaplan ligou sobre a Magnascopics. Chegou a coisa da OPEC.
Ainda não começou a tal análise do xisto de petróleo para o Roger.
-Continuo? -Que análise para o Roger?
-Estás aqui! -Roger. Entra.
Andei atrás de ti, a tarde toda. Passei o dia a trabalhar nisto.
Recomendo que a empresa examine as suas posições de xisto de petróleo.
Formidável. Tudo bem com o resto? Continuas a sair com a Denise Lee?
Saí com ela uma vez. Onde tens a cabeça, Rog?
É o maior aldrabão para quem já trabalhei.
Obrigado, Cathy. Tire o resto do dia de folga.
-Vou para o meu clube. -O quê?
Magnascopics amanhã. Um carro irá apanhá-lo às 7h30.
-Prometeu a Kaplan que o substituiria. -Como vou fazer tudo? Vá você.
-Deu-lhe a sua palavra. -Estava bêbado.
-Peça ao Moynihan para ir. -Tem de ir.
E os meus compromissos? A minha família?
Não tem família.
O dia estava a correr como qualquer outro dia da minha vida.
Mas o que estava prestes a acontecer iria alterá-la para sempre.
O Academy Club é um dos últimos clubes exclusivos para homens.
Era um lugar onde os magnatas e os barões do roubo conviviam,
comiam rosbife, contratavam uma pega ocasionalmente
e discutiam quanto tinham roubado nesse dia.
Uso os cortes de ténis. Gosto do bar.
Não. Lesão no ombro. Não tem profundidade.
Aposta-me no St. John's/Villanova.
E quero também apostar no Duke/Carolina.
Está bem. Obrigado, Buzz.
Alguém está a tentar despertar a sua atenção. É o Mr. Talbot.
Não olhe, Patrick. Finja que não viu.
-Obrigado, Patrick. -Olá, Nick.
Olá, George. Como está o cólon espástico?
-Que estás a fazer? -A redigir a minha demissão.
Vou abrir um lar de acolhimento para crianças pobres.
Mais para raparigas. 20 e muitos, 30 e poucos. Preciso de uma família.
Junta-te a nós. Vim com alguma da malta.
-Não, hoje não posso. -Vá lá. Um copo, está bem?
É só a Ellen e uns amigos dela.
Alice Monroe, a amiga da minha irmã Amy, que voltou agora do Brasil.
-Tenho de acordar cedo. Não... -Antes de ires, dá só uma olhada.
Bem, um minutinho.
-Conheces toda a gente, não? -Olá, Ellen.
-Olá, Nick. -Alice Monroe.
Apresento-te Nick Halloway. Esta é a Alice.
-Olá, Nick. -Prazer em conhecê-la.
-Onde tens andado escondido? -E tu, onde estiveste?
-Cortaste o cabelo. Fica-te bem. -Gostas?
A Alice produz documentários do Smithsonian.
A sério? Adoro o Smithsonian.
É uma das minhas instituições preferidas.
Que tipo de documentários produzes?
Documentários antropológicos, culturas tradicionais, cosmologias.
Cosmologias...adoro!
É uma das minhas ciências preferidas. Patrick!
Tiraste Direito e exercias advocacia em Boston. O que aconteceu?
Os meus pais queriam que eu fosse advogada, mas não era para mim.
-Vais ser Indiana/UNLV. Ou Arkansas. -Carolina.
O salto para os filmes... Angariaste dinheiro?
-A tua firma representava alguém? -Não, demiti-me.
Arranjei emprego como assistente de produção para um canal de TV.
-Quando dei por mim, estava na selva. -Acho que vai ser UNLV.
Primitivo, não achas?
Há só alguns lugares na Amazónia que ainda são considerados virgens.
Do que tiveste mais saudades, quando lá estiveste?
De duches quentes e cheeseburgers.
Acho que Seton Hall vai vencer.
-Odeio TV. -Eu também.
-Gosto de música. -Adoro jazz.
-Odeio halterofilistas. -Narcisistas.
-Adoro esquiar. -Adoro o oceano e a floresta.
Adoro cabelo loiro.
Adoro alho.
Nick...
-O que estamos a fazer? -Espero que sejam preliminares.
-É melhor voltarmos. -Sim, é melhor.
Não façamos nada baixo e sem significado.
Está bem. Quanto te devo?
Não tens posses para isso.
SENHORAS
-Tchau. -É bom ter-te de volta.
-Obrigada, George. -Até breve.
-Vais deitar-te cedo, Nick? -Pensava que íamos jantar.
-Prometi encontrar-me com alguém. -A sério? É melhor eu levar-te.
Não é boa ideia jantar, com tanto trabalho que tenho.
Gostas de comida italiana? Vamos ao Fiorello's. É escuro e sossegado.
Adoraria, mas tenho um compromisso.
Estás a brincar.
-Pensava que estavas a enganá-los. -Não.
Queres ir almoçar na sexta-feira, no Brasserie?
Almoçar? Vamos para Maui.
Nick, temos muito tempo.
Tens razão.
-Vou arrepender-me por te conhecer? -Já estás arrependida.
De certa forma, a culpa era toda da Alice.
Se eu não a tivesse conhecido e ela não fosse tão bonita,
talvez não tivesse voltado ao bar e apanhado uma valente piela.
Na manhã seguinte, tinha a maior ressaca da minha vida.
LABORATÓRIOS magnascopics
Tenho o prazer de apresentar o presidente do conselho científico
e o professor Sidney Leavitt da Física Teórica em Berkeley,
o Dr. Bernard Wachs.
Bem-vindos. Habituados, como estamos hoje,
a pensar no magnetismo como o vector de órbitas de partículas subatómicas,
é com surpresa que descobrimos como homens diferentes
enquadravam o conjunto de fenómenos que agrupamos juntos
sob o termo "magnetismo".
O filósofo grego Tales, logo no século VI a.C.,
observou a capacidade extraordinária dos ímanes de atrair outras peças...
...voltou ao seu valor original. Uma quantidade vectorial que especifica
a direcção e a magnitude da força no nosso campo magnético...
-...pode temporariamente converter... -Já passaram 15 minutos
e ainda não chegámos ao nascimento de Cristo? Chame-me na Inquisição.
Com licença.
Desculpe. Há alguma casa de banho?
Sim, ao fundo do corredor.
-Bolas! -Obrigado.
Está cá alguém?
Para trás!
EMERGÊNCIA SOBRECARGA
AVISO FALHA CRÍTICA
Dez minutos. Dez minutos. Ficarei como novo.
A descoberta da concepção de Von Erxlebren aperfeiçoou...
O quê?
Saiam! Saiam!
Não é verdade, Mr. Jenkins, que esteve nas Honduras
no mesmo dia em que o Dr. Mendoza caiu para a sua morte
do 21ọ andar do Hotel Presidente?
Sr. Presidente, estive nas Honduras como consultor
da Organização Pan-Americana da Ajuda Humanitária Democrática.
Não é pago pela CIA?
Nunca foi chefe de posto com o nome de código Escorpião?
Não esteve na Alemanha há dois anos,
quando um químico-chefe desertor da IG Farben, o Dr. Hans Bodnik,
desapareceu e mais tarde caiu para a morte num hotel em Würzburg?
Importa-se de repetir a pergunta?
Como é que as pegas me colocaram em Würzburg?
Não te preocupes com isso. Temos um caso de alta prioridade.
Aconteceu uma coisa na Magnascopics. Precisamos de ti na Califórnia.
-Lê isto. -O que é?
Não interessa o que é, mas o que não é.
Anda. Não sei se...
Não sei quanto tempo estive inconsciente nem lembro de acordar,
mas quando acordei, estava num pesadelo.
Nada à minha volta estava certo.
Via bocados do escritório, pontas irregulares do edifício.
Estaria a ter alucinações?
Parecia que todas as leis da Física tinham sido suspensas.
A vossa atenção, por favor!
Se forem entrar no local, tenham cuidado.
Embora o edifício pareça ter sido gravemente danificado,
não encontrámos escombros. Não há sinal de uma explosão.
O edifício permanece intacto. Só não vêem certas partes dele.
A instabilidade molecular pode ter tornado algumas partes transparentes.
Avancem com cautela. Podem deparar-se com superfícies invisíveis.
Levem água ao Decon!
Pessoal, cautela ao entrarem no local.
Há sinais de que o edifício pode ainda estar alterando-se.
Tudo no meu ser dizia: "Sai daí!"
Mas quando me movia, ficava a flutuar num sonho.
Atravessei a sala, ou o que restava dela.
Tentei reorientar-me. O que acontecera?
Teria eu morrido? Seria um fantasma?
Tinha de pensar. O que era real e o que não era?
Onde...? Onde estava a minha mão? Não via a minha mão. Meu Deus!
O que me tinha acontecido?
Precisava de ajuda, mas de quem?
Tinha de ligar a alguém.
E depois percebi.
Não era só o edifício.
Era eu.
Meu Deus... Dirigi-me ao espelho.
Eu tinha razão. Não havia reflexo. O meu corpo, a roupa, nada existia.
Eu era invisível.
Também estou a ver.
Apontem a luz lá para cima.
Ei!
Ajudem-me!
Socorro!
Socorro! Socorro!
Que se passa convosco? Socorro! Céus, não me vêem?
Ajudem-me! Estou aqui! Aqui!
Ajudem-me! Meu Deus, o que me fizeram?!
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