Coda

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Published on: 2020-07-22
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The first 200 lines.

Nietzsche uma vez disse que, sem a música, a vida seria um erro.

Filósofos alemães costumam exagerar,

mas isso faz sentido.

Eu sei que sem a música a minha vida teria sido incompleta

de uma maneira fundamental.

Como se eu não tivesse amigos

ou lembranças.

Até já tentei ser uma pianista uma vez,

até perceber a fragilidade que é tocar piano...

Principalmente na frente de duas mil pessoas.

PORTA DO PALCO

Merda.

Estou bem.

Você tem...

Segurança, por favor...

Henry?

Henry.

Só estou fumando.

Você nem fuma.

Teve calafrios?

Tem ideia da imprudência que é tocar na frente de uma plateia?

É por isso que estão aqui.

Como aquelas pessoas que pulam de penhascos na TV.

Até gostam do espetáculo, mas, na verdade,

é o desastre iminente que deixa especial.

Posso?

Está ouvindo?

Henry, relaxe, são só alguns jornalistas.

-Por que decidiu voltar a tocar? -Tocar é a minha vida.

Feliz com sua performance?

Como é voltar a tocar em um recital depois de tantos anos?

É como viajar para a lua.

Por que não tocou um bis?

-Desculpe. -Eu gosto...

-Desculpe. -Gosto de finais definidos.

A maneira...

que o mar...

termina abruptamente aos seus pés, no limite da morte da última onda.

E não pensei em mais nada para tocar.

A necessidade de compartilhar não é o que motiva os músicos?

Acho que o que motiva os músicos não é diferente das outras pessoas.

E o que é?

As pessoas querem ser valorizadas.

Exatamente.

Por que Fantasie?

É porque se trata de um grito de desespero após ele se separar de Clara?

Quando perguntaram ao Schumann sobre a intenção dele,

sabe o que ele disse?

Não disse nada. Apenas sentou-se ao piano e tocou novamente.

No entanto, alguns cientistas afirmam que devemos a Fantasie,

assim como várias outras obras de arte, à Treponema pallidum .

É uma compositora?

É a bactéria da sífilis.

É verdade que nem tocou no piano por três anos?

Obrigado, terminamos aqui. Muito obrigado por terem vindo.

Agradecemos muito. Obrigado.

-O que aconteceu, Sr. Cole? -Por favor, mais uma!

Por que se importam tanto se eu saí ou não do meu quarto?

Não se importam, só querem fofoca.

E você, Paul?

Sabe o que importa para mim?

É que você está aqui.

Exatamente onde é o seu lugar.

Foi uma noite importante, Henry, e você mostrou muita força, foi ótimo.

Sim?

Olá.

Desculpe por antes,

não quis me intrometer.

Sou a Helen Morrison, escrevo para o The New Yorker.

Música nunca é sobre desespero. É uma celebração,

uma vitória.

E ser valorizado não é o suficiente.

A maioria das pessoas

só quer superar algo.

Estava comemorando uma vitória hoje?

Já está se intrometendo.

Desculpa.

Eu só toco as notas.

Você engana bem.

Bem, obrigado.

Sinto muito,

você nem se lembra de mim,

mas você mudou minha vida, quinze anos atrás.

Mudei?

Você estava dando uma aula no Juilliard,

e eu tinha sido eliminada de uma pequena competição.

Não tinha aquele talento básico...

de não tremer inteira.

Que injustiça.

"O que mais importa é a experiência, e não a performance", você disse.

"O maior dom, o que realmente destaca alguém,

é a capacidade de sentir."

Eu disse isso?

Sim, disse.

Também teve...

Deixa para lá.

É uma longa história.

Pode contar.

Mesmo?

Passei um mês em um vale na Alta Engadina,

nos Alpes Suíços, depois do desastre da minha eliminação.

Há um lago chamado Silvaplana.

Eu gostava de caminhar todos os dias ao longo da margem.

Pensando no que você disse.

Ao lado do caminho tinha uma grande rocha.

Nada de especial, era só uma pedra grande e velha.

E todo dia que eu passava por ela, ela estava lá, sempre igual,

apenas parada, silenciosamente, do mesmo jeito por milhares de anos.

Havia algo reconfortante naquela pedra,

como um...

lembrete de um mundo além de mim.

Quero escrever um artigo sobre você.

Algo sensível.

Soa bem desagradável.

Eu agradeço,

mas se diz muito sem passar da superfície.

Quero escrever principalmente sobre música,

sobre sua carreira.

Posso fazer uma entrevista?

Quando tiver tempo.

Não vou me intrometer muito, prometo.

Não é uma boa ideia, e, se me dá licença, tenho um compromisso.

Obrigado, boa noite.

Boa noite.

Dizem que essa rocha foi onde Nietzsche teve sua visão,

do eterno retorno de todas as coisas.

A ideia de que todos os eventos e todas as vidas se repetem infinitamente.

Mas se não me lembro de ter vindo aqui antes,

que diferença faz?

A menos que ele estivesse se referindo a outra coisa, como destino.

Ou, simplesmente, que a vida é um desafio.

POEMAS POR HENRY D. COLE

Se precisar de algo, não hesite em pedir.

Eu me chamo Felix.

Obrigado.

No folheto tem um mapa de todas as trilhas da região.

Recomendo a experiência.

Pensarei a respeito.

Acabaram de chegar para o senhor.

Obrigado.

São lindas.

"ENQUANTO A CRIANÇA CORRE PELO JARDIM,

EU ME RENDO À DÁDIVA INDOMÁVEL."

OBRIGADA PELA LINDA NOITE. HELEN MORRISON.

Como você está hoje?

Que cara de felicidade é essa?

-Já leu o jornal? -Não.

"Como Viajar Para a Lua:

O encantador retorno do grande mestre britânico do piano."

Não saí do telefone a manhã toda! Todos querem entrevistas, até a BBC.

Vão passar um especial antes do concerto na segunda.

Estão comentando em todas as redes sociais.

E o mundo inteiro

poderá assistir ao seu recital ao vivo pela internet, Henry.

Estamos alcançando o público jovem.

Gostei, isso me deixa feliz.

Alguma coisa do The New Yorker?

Até agora nada.

Que flores bonitas.

Sabia que algumas das mais belas flores imitam o cheiro de matéria fecal,

para atrair insetos que gostam de esterco?

Por que não atraem os outros insetos?

Preciso ir. Vou ver o pessoal da DDI Classics.

Podemos nos ver à tarde? Por volta das duas...

E não se esqueça de experimentar o novo Steinway hoje à noite.

-Eu sei, eu sei... -Isso.

Paul?

Sim, Henry?

Sem jornalistas hoje à noite, viu?

Certo.

Sem jornalistas. Apenas o gerente e o técnico.

Aqui.

Leia você mesmo.

Alô? É o Paul.

Desculpe incomodar, Sr. Cole. Posso pedir seu autógrafo?

Eu estava no concerto ontem.

Foi magnífico. Vim de Boston, dirigindo.

Mas não precisava, vou tocar em Boston daqui uma semana.

Eu sei, vou levar meu filho.

Isso automaticamente a qualifica para um autógrafo.

-Qual seu nome? -Maya.

Mas não é para mim, é para o meu filho, Daniel.

-Quantos anos ele tem? -Doze.

A música é tudo para ele.

-É só com o que se importa. -Tenho uma sugestão.

Traga-o ao camarim após o recital na semana que vem.

Vou assinar para ele.

É mesmo? Ele tem um pôster seu no quarto.

-Um pôster? -Sim...

Espero que não tenha pesadelos.

-Deveria colocar na água. -Sim, eu deveria.

-Maya? -Sim?

Você gostou mesmo do recital?

Mas é claro!

-Obrigado. -Obrigada.

Você toca piano?

Sim, um pouco.

-E você? -Sim.

Principalmente de ouvido.

Consigo tocar qualquer música.

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