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INSPIRADO EM ACONTECIMENTOS VERÍDICOS
Em dezembro de 1983, a Argentina recupera a democracia
após sete anos de ditadura militar.
Alfonsín ordena levar os ex-comandantes a julgamento
por crimes contra a humanidade.
Os comandantes acham-se vencedores da guerra contra a subversão,
só aceitando ser julgados por um tribunal militar.
Passaram-se sete meses desde que o novo governo tomou posse
e o julgamento não avançou.
O rumor de que o julgamento pode ser feito pela justiça civil espalha-se rapidamente.
Se isso acontecesse,
o Tribunal Federal de Recursos teria de fazer o julgamento.
A responsabilidade da acusação recairia sobre o procurador: Julio Strassera.
-Então? -Ela chegou e trancou-se no quarto.
-Trancou a porta? -Sim.
Acabou de chegar.
Vem.
Vá, fala.
Ele foi buscá-la à casa da Bettina.
Foram a um bar e ficaram lá por um tempo.
-Que bar? -O Plus Ultra. Na Rua Libertad e Arenales.
E depois?
Depois, saí.
-Saíste, como? -Sim, fiquei lá fora durante uma hora.
-Não gosto daquele tipo. -Nem eu.
O que estão a fazer? O que estão a sussurrar?
-Nada. -Nada.
A Vero preocupa-nos.
Porquê?
O novo namorado dela é muito estranho.
-Estranho? Como sabes que é estranho? -Sim.
Como chegaste a essa conclusão?
Suspeito que ele possa ser uma toupeira.
Podem estar a tentar chegar até mim através dela.
Uma toupeira?
Significa um espião, mãe.
Sei o que é uma toupeira, amor.
Javi, vai dormir.
Vai.
-Veste o pijama. -Está bem.
Não durmas de joggers!
Espero uma explicação.
Eles encontram-se no Plus Ultra. Isso não te diz nada?
Não.
Na esquina da Secretaria de Inteligência.
Estás a brincar?
Andas a seguir a nossa filha?
-Não. -Julio.
-Mandaste alguém seguir a tua filha? -O Javier encontrou-a por acaso na rua.
Julio! Andas a obrigar o teu filho a seguir a tua filha?
Acabei de te dizer que não.
Estás doente.
Sabemos que ele é primo daquela miúda da escola.
-Neta de um piloto. -Um civil.
-Piloto civil! -Da LADE. LADE.
São todos militares.
Voluntariaram-se para a guerra. O avô e o pai!
Percebes que estás a criar um lunático?
-O que foi? -Porque te estás a maquilhar?
Porque quero e posso.
Vivemos em democracia, certo?
A minha escola proíbe.
Como sabes? Nunca te maquilhaste para a escola.
-Ainda. -Não!
-Para! -Vá lá, Javier, ficarás muito bonito!
-Idiota! -Vamos lá.
Chega, para com isso.
Irei por aqui.
-Dás-me um, pai? -Sim.
-Queres almoçar? -Hoje não posso.
Não disse quando.
Pensei que te referias a hoje.
-Quando puderes. -Eu adoraria.
Quando puderes.
-Adeus, até logo à noite. -Está bem. Adeus.
Bom dia. O Bruzzo ligou.
Doutor, o Dr. Bruzzo ligou. Disse que era urgente.
Eu ouvi-a. E se não quiser falar com ele?
-Pode fazer isso? -Claro que posso.
-O que faço se ele voltar a ligar? -Desligue.
-Não posso, doutor. -Pode, sim.
Pode e deve. É uma ordem.
Desligue o telefone ao Bruzzo.
-Lembre-se de que trabalha para mim. -Não, doutor, sou efetiva.
Não me pode despedir.
Susana.
Por favor.
Desligue o telefone ao Bruzzo.
Obrigado.
-Doutor. -Peço-lhe que não me arruíne este momento.
-O Bruzzo. -O que foi?
Ele vem aí.
-Despreza-me, não é? -Se desprezasse, não o avisava.
Tem razão.
Ouça.
Não estou cá, fui-me embora. Diga-lhe que fui almoçar com a minha filha.
-Tratarei disso. -Obrigado.
4 DE JULHO DE 1984, "NUNCA MAIS": EMISSÃO ESPECIAL DA CONADEP
Irá testemunhar um relatório
da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas.
Feridas que obviamente se refletirão nos testemunhos...
Quanto tempo mais? Não mais de cinco segundos. Ouve.
O que está prestes a ver
é apenas um lado do drama e da violência na Argentina.
Lá vai ele.
Do outro lado, o outro aspeto disso
começou quando a subversão e o terror
atracaram nas costas da Argentina,
ANTONIO TRÓCCOLI - SECRETÁRIO DA SEGURANÇA INTERNA
apoiados por lugares distantes...
Porque não puseram o Massera a falar?
-Acabou-se. Pronto. -Não!
Javi, podes ligá-la, por favor?
Esta estratégia subversiva...
-O que está ele a dizer? -O que esperavas?
...situação complexa para o nosso país.
Eu vou abrir.
Uma sociedade enfraquecida que não tinha...
O que está ele a dizer? Este é um anúncio de ditadura.
...nem a maturidade política...
Volto já!
Deverias ter falado dos desaparecidos!
Já entendes o que quero dizer?
...na espiral diabólica da morte e do terror.
A nossa sociedade ficou comovida e chocada
e exigiu pôr-se fim a este ataque subversivo...
Não, não, estás a culpar as vítimas!
-Olá, tudo bem? -Como estás?
-Ótimo, e tu? -Também ótima.
Os desaparecidos.
Um problema que afetou vários argentinos,
uma situação trágica e sem precedentes
que apunhalou a nossa história pelas costas e comoveu o mundo inteiro.
Muitos viram como os seus entes queridos...
...foram levados das suas casas para continuar desaparecidos desde aí.
A minha filha, a Laura Estela Carlotto,
foi sequestrada juntamente com o companheiro.
Ela tinha 21 anos.
Estava grávida de dez semanas.
Soubemos dela durante o sequestro, através de uma carta anónima,
a dizer que ainda estava grávida,
que estava a enviar-me uma mensagem a mim e ao pai,
para que estivéssemos atentos a quando desse à luz.
Durante esse tempo, como qualquer mãe faria,
procurei-a, recolhi informações.
A nossa esperança diária era...
...que ela, um dia, aparecesse em casa.
Apresentei recursos de habeas corpus. Entrei com ações judiciais...
O Bruzzo está lá dentro.
Homem,
podes entrar, por favor?
Sim, claro.
Tome.
Obrigada.
Senta-te, por favor.
Ouve, Bruzzo, não vou discutir contigo. Respeito-te e estimo-te.
Sou grato pela minha nomeação e tudo mais,
mas há algo que não estou disposto a ser. Sabes?
Sabes o que não estou disposto a ser?
-Posso imaginar, Julio. -Um idiota.
Era o que imaginavas?
Não serei o idiota
que tem de defender algo em que o governo não acredita.
-Julio. -O que foi?
Vivemos de repente no País das Maravilhas?
De repente, todos os ditadores irão para a prisão.
Quem os irá prender? O Martín Karadagian?
Achas mesmo que o tribunal militar irá prender o General Videla?
Eles fizeram parte disso, Bruzzo.
E se o tribunal civil tratar do julgamento?
Chamam-me Louco, mas não sou.
Isso não acontecerá. Quem permitirá isso? O Tróccoli?
Ouviste-o ontem à noite? Poupa-me.
Terminaste?
Senta-te, por favor. Senta-te, Julio!
Sabes que, se os juízes aceitarem fazer o julgamento, não podes recusar?
Sei perfeitamente o que o meu trabalho implica.
Sou procurador.
Podes contar-me como foi?
Prefiro não falar sobre isso, Silvia.
-Vão fazê-lo, certo? -Não quero falar sobre isso, Silvia.
Então, irão.
Não o podem fazer.
Sim, podem.
Sabes que, se os juízes quiserem um julgamento, isso acontecerá.
Eles não vão deixar.
Não sabes disso.
Podemos não falar sobre isso?
-Do que queres falar? -Nada.
Há algo que não entendo.
Por favor, não me ponhas de mau humor.
-Não entendo se és assim... -Silvia.
-...porque temes... -Por favor.
-...que isto não aconteça. -Silvia.
Ou temes que aconteça.
Às vezes, sinto que estás cheio de medo.
Claro que estou cheio de medo.
Claro.
-Tens medo de quê? -De tudo, Silvia! De tudo!
De que isto seja uma armadilha,
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