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TIO FRANK
Betty, sai da frente!
"Depois colocou as mãos atrás das nádegas e levantou-a.
-"Ela deu um pequeno salto." -Como um coelho?
Olá.
O PADRINHO MARIO PUZO
O que queres, Betty?
Estão a ler "Lucy e Sonny no casamento"?
-É tão maroto. -Não.
A mãe e o pai não iam querer que lesses. És nova demais.
A minha parte preferida é:
"A mão dela fechou-se à volta do enorme músculo cheio de veias."
Não é um músculo.
Janis, a tua irmã mais nova é tão estranha.
Betty, vem ajudar-me como os feijões.
Já ouviram aqueles homens tolos?
Porque não corto um pouco de aipo. Podes pôr na casserole.
A casserole está feita, Butch.
Podes escorrer a gordura do toucinho para a lata de Luzianne.
Essa frigideira é pesada?
Tenho bursite no braço bom.
-A sério? -Eu faço isso, tia Butch.
Não queremos que dês cabo do braço bom.
Obrigada, Neva, querida.
O que aconteceu ao braço mau?
Querida, não te lembras? Escorreguei no último Natal.
Tive uma pequena fratura no metacarpo da mão direita.
-Lembro-me disso. -Inchou como um balão.
Tirem os miúdos daqui.
O forno está quente. Não quero ninguém queimado.
Bullet, Mae Ray, ouçam a avó. Vão lá para fora.
-Betty, leva-os lá para fora. -Vamos. Lá para fora.
Qual é o problema daquela criança?
A sério, Bullet, levas um sopapo tão grande que até saltas.
O que perdi?
Se sabem o que é bom, não entram lá tão depressa.
Que nojo, pai.
Pronto. Raios partam!
Desviem-se, estão a tapar o jogo dos Falcons.
Bullet, Mae Ray, mexam-se.
Vamos lá para fora.
Mexam-se!
Bullet, Mae Ray, mexam-se.
Desapareçam daqui!
Raios partam!
Açoito-vos com o serrote.
Valha-me Deus!
Bullet! Mae Ray!
Ficava sempre feliz quando o tio Frank fazia uma das raras visitas dele.
Senta-te.
Mais ninguém na família parecia interessar-se em mim.
Já leste Madame Bovary?
Mas o tio Frank era diferente.
Era professor universitário e vivia em Nova Iorque.
Usava aftershave.
Tinha as unhas sempre arranjadas.
E usava uma corrente de ouro sob a camisola.
Podia ouvi-lo falar o dia inteiro.
Supostamente...
Era o único adulto que conhecia que me olhava nos olhos.
Eu gosto...
Gostava de saber o que eu tinha a dizer.
Eu gosto de o fazer rir.
E no verão de 1969, quando tinha 14 anos,
isso foi estimulante.
Vou abrir esta. Preparem-se. Aqui vai.
Obrigado, Marcia.
Um homem precisa sempre de outro par de meias.
É meu e do Tee Dub.
Parabéns, Papá Mac. Espero poder chamar-lhe isso.
Se vais ser um membro desta família, é melhor que chames.
-Abre outra! -Bullet! Já chega, raios partam!
É assim que se lida com uma criança irrequieta.
Obrigado.
Essa está tão bem embrulhada, deve ser do Frank.
Deve ser.
O que é?
Um engraxador de sapatos elétrico!
Achas que sou velho demais para engraxar os meus sapatos?
Que preciso de uma máquina para isso?
Claro que não. Não.
É... Eu tenho uma.
É mais rápido e fácil.
Próxima!
Eu gosto muito do teu presente, Frank.
Visto ser eu que acaba sempre por engraxar os sapatos do teu pai.
Obrigada, querido.
Aqui tens, pai.
-É minha e da Kitty. -Vejam só.
Vejam, é uma chave de parafusos minúscula.
É para reparar os óculos,
para quando perdes um parafuso das hastes e assim.
Vou dar-lhes uso. Estou sempre a arranjar os óculos de ler.
Obrigado, Mike, Kitty.
E Janis.
-E Betty e Bullet. -Pois.
Parabéns, Papá Mac!
Nunca percebi porque o Papá Mac era tão mau para o tio Frank
ou porque nunca ninguém disse nada.
-Certo. -Posso ir à casa de banho?
Se prometeres lavar as mãos.
Entenderia se o tio Frank fosse egoísta, malcriado ou nariz empinado, mas não era.
Era inteligente, divertido e gentil.
Era o tipo de pessoa que eu queria ser.
Mas era com ele que o Papá Mac implicava e menosprezava em frente a todos.
O tio Frank era bom a esconder como isso o magoava.
Mas eu conseguia ver.
Tio Frank, como é viver em Nova Iorque?
Eu adoro.
Assim que saímos de uma cidade como Creekville,
percebemos quão pequeno era o nosso mundo
e quão grande ele se pode tornar.
De formas que nem pensámos ser possível.
Posso visitar-te um dia?
Sim, claro.
Se os teus pais concordarem.
Claro que não concordarão.
Nem me deixam ir para o campo de majorette.
O meu pai disse que uma filha dele não ia andar por aí
seminua em frente à cidade inteira.
Iria acabar por ser violada, e, sabes que mais, iria merecê-lo.
Ele disse isso?
A mãe diz que é a cerveja a falar.
Como estão as tuas notas, Betty?
Tive A a tudo.
-A a tudo? Nem um B? -Não.
Ótimo. Continua assim.
Se tiveres boa nota no SAT,
podes ganhar uma bolsa para onde quiseres.
Devo ir para a SC State, como a maioria da minha turma.
Então, vá lá.
Vais ser a pessoa que decides ser
ou vais ser a pessoa que todos te dizem que és?
Porque podes escolher.
Podes mesmo.
Quem me dera não me chamar Betty.
É nome de mulher e só tenho 14 anos.
Então, muda-o.
Não posso mudar o meu nome.
Podes fazer o que quiseres.
Que tal Liz?
Não?
Liza?
Betsy?
Talvez Beth?
Sim, gosto de Beth.
E há tanta coisa que a Beth consegue fazer para além de ser uma majorette.
-A minha prima Marcia é majorette. -Pois é.
Não faças o que a idiota da tua prima Marcia fez.
Está grávida. Agora tem de casar com aquele imbecil.
A Marcia está grávida?
Se alguma vez precisares que finja ser teu pai
para conseguires a pílula, fá-lo-ei com todo o gosto.
Olha para mim.
E se um dia engravidares,
liga-me antes de falares com mais alguém da família.
Prometo.
Está bem.
Queres que te deixe a Madame Bovary?
Isso seria ótimo.
Obrigada.
QUATRO ANOS DEPOIS
Novos estudantes,
deixem que os embaixadores estudantis vos mostrem o campus da NYU.
Bledsoe, primeiro nome, Beth.
Elizabeth. Desculpe.
Obrigada.
Aquilo estava delicioso, não estava?
Charlotte, que salada era aquela?
Chama-se tabulé.
Nunca pensei pôr arroz numa salada.
Não, aquilo é triguilho.
O que é triguinho?
Triguilho.
É feito de trigo.
Era interessante.
Aquilo cheira tão bem.
O que é?
É carne.
Borrego.
É esfirra.
-Aquilo? -Esfirra?
Sim. É uma espécie de empada.
Ela cozinha tão bem.
Passou o dia todo na cozinha.
Como uma escrava.
E tu és tão bom namorado.
Charlotte, é um prazer conhecer-te.
Devo dizer que ninguém na família do Frank
-ouviu falar de ti. -Eu sei.
É de loucos, não é?
Ainda por cima porque estamos juntos há quase cinco anos.
Está calada!
Pois, Charlotte, não digas mais nada.
Aposto que é por causa da cena dos judeus.
Que cena dos judeus?
O Frank deve ter pensado que todos desaprovariam
ele viver em pecado com uma judia.
Querida, lembras-te do que decidimos esta noite?
Nada de política...
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