The first 200 lines.
Não se esperava que eu vivesse.
Nasci dois meses prematuro.
Quando foi determinado que eu não sobreviveria…
… o meu pai voltou para casa…
… com uma caixa de sapatos.
Estavam preparados para me enterrar.
Acredito que a minha vida teve
mais do que algumas maravilhosas reviravoltas indescritíveis.
O mundo que eu conhecia era bastante simples.
Eu não sabia que existia algo como a eletricidade.
ILHA CAT, BAHAMAS
Não sabia que existia algo como
ter água a entrar em casa através de um tubo.
Aprendi através da observação como era o mundo.
Eu via criaturas. Via pássaros.
E tive de descobrir por mim próprio o que eram.
Eu era o mais novo dos filhos.
E fui o mais massacrado, claro, pelos outros.
Mas eu era o mais novo
e que, muito frequentemente, era deixado em casa
quando os meus pais iam para os campos.
Os meus pais eram produtores de tomate.
Havia muito pouca escolaridade. Muito pouca.
Tudo o que eu sabia em termos de valores, em termos de certo e errado,
em termos de quem eu era, em termos de valor, teve de vir dos meus pais.
Eu estava sempre a observá-los.
A forma como se tratavam. Como se preocupavam um com o outro.
Como se comportavam com os seus amigos.
Como se comportavam com outras pessoas da aldeia.
E eu comportava-me o mais parecido possível,
porque via os resultados do seu comportamento.
O governo da Flórida decretou um embargo
aos tomates provenientes das Bahamas.
O negócio do meu pai desmoronou-se.
Por isso, enviou a minha mãe, e ela levou-me, para Nassau,
para encontrar um lugar que pudéssemos pagar.
Enquanto íamos para o porto, vi algo a mexer-se.
E parecia um escaravelho a descer a rua.
E eu perguntei à minha mãe: "O que é aquilo?"
E ela disse: "Aquilo é um carro."
Eu disse: "O que é um carro?"
E ela descreveu-mo. Eu fiquei fascinado.
Enquanto caminhávamos pelas ruas, vi janelas de vidro
com todo o tipo de coisas maravilhosas por detrás do vidro.
Mas depois vi uma mulher.
Mas ela estava em frente a outra mulher que era exatamente igual a ela.
E fosse o que fosse que a mulher fizesse, a outra também fazia.
Obviamente, era um espelho.
Mas eu não sabia que existiam coisas como espelhos.
Estão a ouvir? Eu não sabia o que era um espelho.
Nunca pensara no meu aspeto.
Eu só via o que via.
Havia uma pessoa branca na Ilha Cat.
Quando cheguei a Nassau, vi outras pessoas brancas,
mas eram uma minoria.
Os negros representavam 90 % da população.
Eu andava com um grupo de rapazes que tinham praticamente a minha idade.
Em poucos meses,
três ou quatro desses rapazes acabaram num reformatório.
E o meu pai decidiu
que eu provavelmente iria arranjar algum tipo de problema.
Fui mandado para Miami, na Flórida.
MIAMI, FLÓRIDA
Deixei as Bahamas aos 15 anos com uma certa noção de mim mesmo.
Tivera dez anos e meio disso na Ilha Cat.
Depois tivera quatro anos e meio disso em Nassau.
Portanto, cheguei a Miami, Flórida, com uma noção de mim mesmo.
E desde o momento em que saí do barco, a Flórida começou a dizer-me:
"Não és quem pensas que és."
SÓ PARA PESSOAS DE COR
Quando se cresce numa comunidade na Ilha Cat
onde todos são negros,
tudo o que sabemos e vemos à nossa volta é poderoso
e bom e acolhedor,
e é negro.
Mas não existe, na realidade, nenhum conceito de raça.
Por aquela ser a sua visão do mundo e a sua visão pessoal,
ele comportou-se daquela forma.
Ele sempre pensou que era quem era.
E, sabem, houve alturas em que isso o meteu em sarilhos.
Fui mandado para viver com o meu irmão, o único parente que lá tínhamos.
Arranjou-me um emprego numa loja chamada Burdines
em Miami, Flórida, a fazer entregas.
E disseram-me o nome da senhora e…
Então, subi para a bicicleta, e fui para Miami Beach.
E cheguei à morada, dirigi-me à porta da frente
e toquei à campainha.
Depois saiu a dona da casa e disse:
"O que estás a fazer na porta da frente?"
E eu disse… … "Vim entregar esta encomenda."
Ela disse: "Vai pela porta das traseiras."
E bateu-me com a porta na cara.
Bem, eu era novo nisto das raças nos EUA.
Simplesmente não conseguia entender.
Porque é que eu tinha de ir pela porta das traseiras se ela estava mesmo ali?
Mas ela bateu-me com a porta na cara e eu não sabia o que fazer.
E a minha decisão foi colocar a encomenda ali à entrada.
No final da tarde, fui para casa do meu irmão.
Cheguei lá. Estava escuro.
Aproximei-me da casa. Não havia luzes.
E perguntava-me porque não havia luzes, mas fui até à porta da frente.
A mulher dele abriu a porta e agarrou-me
e puxou-me para dentro, para o chão,
e bateu a porta.
E eu… Ela disse: "O que fizeste? O que fizeste hoje?"
E eu disse: "Eu não fiz nada. O que é que eu fiz?"
Ela disse: "O Klan esteve aqui. O que fizeste hoje?"
Decidi que tinha de sair da cidade. Eu queria sair da cidade.
Eu tinha posto algumas peças de roupa
na lavandaria.
Fui a um local. Era numa comunidade totalmente branca.
No caminho de volta, vou para o que seria a paragem de autocarro,
e os autocarros tinham parado de circular.
Um carro parou e encostou mesmo à minha beira,
e estava cheio de polícias.
E perguntaram-me: "O que estás a fazer?"
Eu disse que estava só a tentar apanhar boleia de volta para a cidade.
"O que estás a fazer aqui?" E eu expliquei tudo.
Ele sacou da pistola
e inclinou-a para fora da janela do carro.
E encostou-a à minha cabeça.
Aqui.
E disse aos seus compatriotas:
"O que fazemos com esta pessoa?"
Eles não usaram a palavra "pessoa".
Ele disse: "Se te deixarmos ir,
achas que consegues ir para onde vieste
sem olhar para trás? Achas que consegues fazer isso?"
E eu disse: "Sim, eu consigo fazer isso."
Ele disse: "Se olhares para trás uma vez, damos-te um tiro."
Nos 50 quarteirões seguintes, ou mais,
sempre que passava por uma janela, só virava os olhos
e via aquele carro da polícia atrás de mim.
E ficaram lá…
… até chegar à ruazinha
onde os meus familiares viviam.
E, nessa altura, simplesmente continuaram a conduzir.
Numa questão de poucos meses,
tive de mudar toda a minha visão da vida.
Comecei a aprender quem tinha o poder.
E testemunhei a aplicação desse poder.
Nessa altura, já sabia que tinha de sair da cidade.
Eu sabia que tinha de sair.
Não sabia se alguma vez iria encontrar
um lugar diferente da Flórida.
Ouvi dizer que havia um lugar
onde tínhamos um leque diferente de oportunidades.
Nova Iorque.
Cheguei a Nova Iorque, à estação de autocarros Greyhound…
CIDADE DE NOVA IORQUE
… na 50th Street e 8th Avenue.
E saí para a rua
e fiquei maravilhado com aquele lugar.
E um tipo afro-americano aproximou-se de mim.
Ele disse: "Como estás?" E eu disse: "Bem."
Ele disse: "Para onde vais?"
Eu disse: "Podes dizer-me como posso chegar ao Harlem?"
Ele disse: "Sim."
Disse: "Vais ali abaixo e apanhas o comboio A."
Fiquei muito cético porque ele disse: "Vais ali abaixo."
Há uns degraus a descer para o chão.
Então, eu disse: "Está bem."
Eu desci muito cautelosamente as escadas.
Depois, ouvi um barulho, um roncar.
E, em pouco tempo, chegou um comboio…
Chegou à 116th Street e eu saí.
E segui as pessoas que estavam a sair
e subi as escadas.
E lá estava eu, em Harlem.
Para onde quer que olhasse havia negros.
Eu dizia: "Olá." E eles cumprimentavam-me.
Estava radiante.
Os artistas negros eram muito presentes em Harlem.
CRÍTICO CULTURAL, MÚSICO
E havia uma noção da grandeza que nos rodeava.
Sabem, Ellington.
Lena Horne. Billie Holiday.
Sabem, quero dizer, as superestrelas andavam por ali.
Na altura, sabia-se qual era o valor de um artista.
Estava mesmo ali à nossa frente, tipo, sem filtros.
Portanto, esta foi a forma como esta era
aguardou pelo Sidney Poitier.
Veio em busca de fama e fortuna.
- Vim em busca. - Em busca.
Devo dizer que a minha busca foi infrutífera durante bastante tempo.
Na 49th Street e Broadway,
havia um bar e uma churrasqueira.
Na montra, dizia: "Procura-se lavador de pratos."
Eu entrei. Ele disse: "Quando podes começar?"
Eu disse: "Posso começar agora mesmo."
E ele contratou-me.
Não só me deram trabalho, como me pagavam quatro dólares por noite.
E eu podia comer.
Quando terminei a primeira noite de trabalho,
fui para a estação de autocarros.
AUTOCARROS RESTAURANTE
Fui dormir para a casa de banho.
Havia lá casas de banho pagas e custavam cinco cêntimos.
Então, colocava cinco cêntimos. E entrava.
Baixava o assento. Sentava-me ali, encostava os pés à porta
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