The first 200 lines.
Estou?
Sim, Vossa Alteza. Como está?
Sim, olá.
Estou a ligar de uma linha protegida.
Ele tinha uma voz extremamente calma, controlada e simpática.
Enviei-lhe um documento muito confidencial.
CONFIDENCIAL - O MINISTRO
O Ministro Le Drian quer marcar uma videochamada.
Vi o Ministro Le Drian no ecrã à minha frente.
Não sabia se era real ou não.
O ministro disse-me: "Preciso de muito dinheiro."
4,8 milhões.
Recebeu uma ordem de pagamento de 886 mil euros.
Acho que é entre trezentos ou quatrocentos euros, não é mais.
5,8 milhões.
É muito importante, tem de pagar já.
Uma burla inacreditável conseguiu extorquir mais de 80 milhões de euros.
O alegado cabecilha destas operações,
é Gilbert Chikli, o Rei das Burlas.
Há algo na voz dele que faz as pessoas obedecer.
É como os grandes atores, os grandes artistas.
Ou resulta, ou não resulta.
O seu último feito… foi imitar…
… o Jean-Yves Le Drian.
É a audácia extraordinária de tentar tudo.
Transforma-se numa arte e não numa fraude.
É teatro.
O HOMEM DA MÁSCARA
Permitam-me apresentar-me. O meu nome é Gilbert Chikli.
Acho que não sou mau, não sou má pessoa,
mas os outros é que têm de julgar
porque o Gilbert Chikli não é a pessoa que julgam.
Nasci em Paris, numa pequena aldeia chamada Belleville.
Na altura, vivíamos num quarto minúsculo.
A nível financeiro, não tínhamos nada, absolutamente nada
e eu não conseguia aceitar isso.
Eu era um rapaz muito esperto com uma obsessão,
que era tentar aliviar o sofrimento da minha família.
Neste mundo, só há lugar para pessoas espertas.
Pode afastar a cadeira um pouco para a direita? Não, um pouco menos.
- Muito bem, e… - Estou horrível.
Que tipo de pessoa é, Shirley?
É um mistério.
É um mistério.
Quero parecer bronzeada.
E magra. Façam-me mais magra, senão vai ser um desastre.
EX-AMIGA E CÚMPLICE
O dinheiro é excitante.
Dá-me adrenalina, excita-me.
Só saio da cama se houver dinheiro.
Tem de haver dinheiro por todo o lado.
Diria que é uma criminosa?
Eu, criminosa? Não. De todo.
Pelo contrário, sou um anjo. Faço boas ações com o dinheiro.
Bem… ouçam.
Eu vivo a verdade.
Fale-me da sua relação com o Gilbert.
Ele deu-me este anel quando tinha 25 anos e ainda o tenho.
Não, não quero mostrá-lo. Ainda dá azar.
Nos anos 90, vivia em Paris.
Trabalhava numa agência de publicidade,
a criar anúncios falsos.
Era considerado uma burla,
mas não me incomodava muito
porque fazia chamadas com falinhas mansas para conseguir dinheiro.
Sempre me dei com pessoas que ganhavam dinheiro fácil.
Quando conheci o Gilbert, devia ter uns 20 anos.
Estava no meu carro, como sempre. Eu conduzia.
E, quando estou no trânsito, olho para todo o lado, como toda a gente.
E, de repente, fixei o olhar no Gilbert Chikli.
E ele fixou o dele no meu.
E começámos logo a dar-nos bem.
Ele era desenrascado e sabia como ganhar dinheiro.
Sempre tive uma vida de luxo, muito chique.
Mas o Gilbert era de Belleville.
Foi por isso que houve aquele clique entre nós. A burguesa e o rebelde.
O Gilbert sempre tinha jogado muito.
Ele não jogava para ganhar, ele jogava para jogar.
O que adorava nele era a inteligência.
Em 2005, o Gilbert teve problemas financeiros.
Ficou com dívidas do jogo.
Precisava de 200 ou 300 mil euros.
Estava a dever dinheiro a muitos criminosos.
Ele disse-me: "Shirley, estou lixado. Preciso de dinheiro. O que faço?"
Nessa noite, estava em casa com ele.
Estava a ver televisão.
O metro foi evacuado.
As ruas de Londres estão cheias de ambulâncias…
Quando vi na televisão o ataque terrorista que houve
em Londres em 2005…
Houve seis explosões hoje de manhã no centro de Londres.
Lembrei-me logo de começar uma burla.
Aproveitar-me do medo das pessoas
e imitar agentes antiterrorismo.
E aquilo…
… foi uma bomba.
Vou contar-lhe um segredo.
Os seres humanos são curiosos.
Quando encontram uma pessoa mítica e misteriosa,
fazem de tudo.
Nunca imaginei que alguém fosse acreditar em mim.
Sabe porquê?
Porque a parte mais importante é eu acreditar em mim.
O papel do Gilbert era fingir que era um agente secreto.
Procurar os pontos fracos das pessoas é o mais importante.
Assustá-las, dizer-lhes que sabemos um segredo sobre elas.
Já agora, sei um segredo sobre si.
Sim, eu sei um segredo seu.
Jogámos com a mente das pessoas que burlámos.
Conseguimos descobrir se fumavam, se não fumavam,
se tinham filhos, se estavam a enganar a mulher.
Conseguimos entrar nas vidas pessoais.
E conseguimos fazer com que nos dessem dinheiro, muito dinheiro.
O meu nome é Élise le Guével, Sou jornalista.
Trabalho no programa Envoyé Spécial da France 2 há sete anos.
Uma noite, estava com um amigo.
Ele trabalhava numa grande empresa francesa
e disse-me: "Aconteceu-me uma coisa estranha hoje de manhã."
Uma pessoa do meu departamento recebeu uma chamada
de alguém a fingir que era o CEO da empresa.
E o CEO disse-lhe:
"Um dos clientes do banco está a financiar terroristas.
Queremos pedir a sua ajuda para lutar contra o terrorismo."
Fui diretor financeiro muitos anos.
Em março de 2006,
passei por algo que ninguém devia passar,
a morte da minha mulher por depressão.
Ela suicidou-se e deixou-me com três filhos.
Foi uma altura difícil para mim
e precisava de voltar a confiar na natureza humana.
Quinze dias depois, estava na minha secretária.
A certa altura, um colega transferiu-me uma chamada
e disse-me: "É o CEO."
Estou?
Fala o Sr. Roger, como está?"
Ele disse-me que ia receber outra chamada
de outro agente dos serviços secretos.
NÚMERO PRIVADO
Recebi essa chamada.
Sim, estou?
Estou a ligar de uma linha protegida.
Ele tinha uma voz extremamente calma, controlada e simpática.
Disse-me que o meu contributo seria fazer uma transferência bancária
que seria seguida pela equipa dele para tentar apanhá-los
quando recebessem fundos.
Trata-se de um crime interno,
por isso, se conseguir fazer isto,
vamos fazê-lo juntos,
senão, posso contactar outra pessoa.
Não pode haver nenhum contacto entre nós.
Tem de fazer o pagamento sozinho.
Comecei a ter as minhas dúvidas.
Quando ele achou que hesitei,
disse-me: "Nós sabemos quem é, sabemos da sua vida
nestes dias difíceis."
Ele falou-me do suicídio da minha mulher, falou-me dos meus filhos.
Sabia muito sobre mim, muito.
Conto consigo, vou enviar agora. É muito importante.
Eu hesitei.
Hesitei, mas fiz o que ele pediu. Com o meu cargo, fiz aquilo.
No total, esta burla foi de pouco mais de dez milhões de euros.
DEZ MILHÕES DE EUROS
Descobri que tinha capacidade para fazer coisas incríveis.
Claramente, tinha capacidade para ir muito mais longe.
O Gilbert viu que a receita dele dava bons bolos,
por isso, abriu uma pastelaria.
Estou?
- Muito bem. Está ao computador? - Sim.
Recebeu uma ordem de pagamento de 886 mil euros.
Era um trabalho empolgante que dava muita adrenalina.
Parecia que estava num filme.
Acho que é entre 300 ou 400 mil euros, não é mais.
Todas as empresas francesas na bolsa,
grandes e pequenas, costumam receber chamadas destas.
É uma escala industrial.
Não percebi.
A que horas vou receber os dados bancários?
Deve recebê-los amanhã.
Essas vítimas não parecem necessariamente crédulas, nem frágeis.
São profissionais, hábeis
e querem muito ter sucesso
e acho que é disso que o burlão precisa.
Então, tinha de ser apanhado.
Como estás?
Bem, e tu?
Sim, por isso é que estou a ligar.
Sim, eu fui lá. Estou a devolver a chamada.
Quando somos novos, há um líder do grupo,
um número um, um número dois, um número três.
O Gilbert era o número um.
Anda, senta-te.
Espera, o advogado está a ligar-me.
Quando ele começa a burla, quer ganhar muito dinheiro.
Mas porquê? Porque tem uma história e dedica-se completamente a ela.
Prepara-a e não a larga, mesmo que precise de tempo e dinheiro.
Mas melhora-a para resultar. Então, ele experimenta a primeira vez.
Vai ver se consegue a massa
e, se não conseguir, é porque alguma coisa estava mal.
Ele repete a história para saber o que não resultou
e vai melhorando-a até ter os verdadeiros resultados que conseguiu.
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