The first 200 lines.
"Há alguns anos...
não importa há quanto tempo exatamente,
com pouco ou sem dinheiro em minha carteira,
e nada que realmente me interessasse em terra,
pensei em navegar por um tempo
e conhecer as águas do mundo.
É a minha forma de espantar a melancolia
e normalizar minha circulação.
Sempre que bate aquela sensação amarga,
mesmo que seja em um novembro úmido e chuvoso em minha alma,
eu já penso que é hora de sair para o mar
o quanto antes.
Não há nenhuma surpresa nisso.
Poucos sabem,
mas todos os homens, em um momento ou outro,
compartilham do mesmo sentimento que tenho em relação ao oceano."
Agora, vejo claramente.
O começo de Moby Dick explica quase que exatamente
o que aconteceu conosco.
Tudo começou há três anos,
quando Luciano foi estudar na Espanha.
Desculpe, querido. Me perdoe.
Não sei o que há de errado comigo.
Juro que me preparei para esse dia, mas...
- Eu nem vou para a guerra. - Eu sei.
Pai.
- Boa viagem. - Obrigado.
- Cuide-se. - Amanhã ligo pelo Skype.
- Está bem? - Vai com calma.
Obrigado.
- Tchau, meu querido. - Tchau, mãe.
Pegou o remédio?
Que remédio?
- Para o enjoo. - Você está exagerando!
Conseguimos.
- E nos saímos bem. - Sim, muito bem.
- Quer comemorar? - Sim.
- Sim? - Vamos.
Já vi que começou a ficar melancólica.
O avião nem passou pelo Uruguai e você já está olhando fotos?
- Vai deitar? - Por que pergunta?
- Está de pijama. - Queria ficar mais confortável.
- É errado? - Não.
Só achei que gostaria de algo sexy em nossa 1ª noite sozinhos.
Não fico sexy assim?
Olhe essa foto. O Luchi tinha acabado de nascer.
- Olha seu rosto. - Não sou eu.
Esse cara não sou eu.
Ele não tem cabelo grisalho, tem todos os dentes.
Não sou eu.
- Olha essa! - Qual?
- Tenochtitlan. - Nem me fale.
Você estava viciada em chili.
- O quê? - Viciada em chili.
Estava agindo como uma mexicana.
"Gosto de comida apimentada, quero mais,
amo comida apimentada."
E passamos o resto da viagem comendo cereal.
Lembro-me perfeitamente.
Porque gosto de provar
a culinária local quando viajamos.
Ao contrário de você, que leu literatura latino-americana,
adora Rulfo e Fuentes,
mas acaba comendo no McDonald's.
Claro, porque todo mundo vai ao McDonald's.
A burguesia iluminada, como você,
prefere a culinária local.
Além disso, aquele taco
era a coisa mais nativa que provei em minha vida.
Aqui estávamos em Córdoba.
Ainda conseguia dobrar os joelhos, nessa época.
Olha esses tênis, nem são mais fabricados,
- são do século passado. - Bem...
- O que foi? - Nada. Amanhã as olharei.
Ficarei triste, com ninguém me incomodando.
Estava tentando fazê-la rir, querida.
- Outro dia, por favor. Tome. - Certo, obrigada.
Obrigado, querida. Saúde.
O quê? O que está fazendo?
- O que foi? - Você é tão sexy.
Eu disse que eu era sexy. Seja gentil comigo.
Desculpe, querida, estou atrasado.
Tenho aula em 30 min. Não sei o que aconteceu comigo.
Você sempre erra os horários!
Sempre se atrasa para todos os compromissos.
Talvez devesse comprar um relógio.
Por quê? Tenho o celular.
- Então veja o celular. - É minha culpa, eu sei.
- Quer um café? - Sim, mas aqui, aqui.
Aí? Quer uma garrafa de café popular?
Não importa. Ele fica quentinho o dia todo.
- Certo. - Está bem.
- Dirija com cuidado. - Sim, não se preocupe.
Tchau, desculpe. Desculpe. Me dê um beijo. Tchau.
- Arrume a camisa. - Sim, sim.
Tchau.
Hoje, vamos falar sobre tédio, desgaste.
Esse é um universo adequado
para um escritor latino-americano?
Não, com certeza não é.
A única coisa da qual podemos nos inspirar da Europa
é o modelo de Nietzsche.
Precisamos questionar tudo.
Discutir, sermos apaixonados...
Não entender.
Nos perder.
Talvez esse seja o ponto-chave. Não entender.
Mas não escolher o tédio, por favor.
Nossa pressão, aqui,
é a fome, a miséria,
a ansiedade pelo futuro que está por vir.
Qual seria o único sinal de identidade
de um escritor latino-americano?
Aguardar a ligação de um editor espanhol?
Ouçam-me agora, pessoal,
não fiquem enrolando.
Sei que não parece muito acadêmico,
mas é aqui e agora. Se quiserem escrever,
não fiquem enrolando.
Isso se aplica à vida, também.
Esse é o meu quarto, mãe.
Tenho uma mesinha pequena, mas tudo bem.
Muito bom.
Sim. Ela é Lao Phen.
Estou a dois quarteirões da Praça Carabajai.
Que bom.
E você? Como está o pai?
Estamos bem, querido. Tudo bem.
O papai deve chegar a qualquer momento.
Quem é ela? Não ouvi.
É Lao, minha companheira de quarto.
Você divide o quarto com ela?
Sim, sem problema. Por quê? Há algo errado?
Não... olha só, chegou seu pai.
Espere um segundo. Venha ver aqui.
Estou falando com o Luchi.
Olá, filho. Como está?
Bem, e você? Aqui é ótimo, estou feliz.
Começaram as aulas?
Sim, há vários dias.
Que bom. Quem está aí?
- A companheira de quarto dele. - Lao. Divido o quarto com ela.
- Lao, venha conhecer meus pais. - Companheira de quarto?
Sim. Olá! Olá!
- Olá! - Olá, muito prazer!
Ela é do Vietnã.
Acho que você não vai estudar.
- Que engraçado, pai. - Estou falando a verdade.
Não seja pervertido, pai.
Preciso dormir, tenho aula amanhã.
- Está bem, boa noite. - Sentimos sua falta.
- Eu te amo! - Tchau, se cuide!
- Tchau . - Tchau.
Nunca vi algo assim. Ele foi estudar na Espanha
e tem uma companheira de quarto vietnamita
com as tetas de uma italiana.
- Luchi tinha razão. - Sobre o quê?
- Você é um pervertido. - Não! Só me preocupo com ele
- e sua integridade física. - De onde era a garota?
Vietnã.
O que vamos jantar?
Empanadas. Não estou com vontade de cozinhar.
Pedi caprese e tucumanas.
Caprese? Por que caprese?
Italianos sabem nada de empanadas.
- Você adora caprese. - Você que gosta, não eu.
E carne de Tucumán? Já te disse que gosto de Salteña.
- É tudo igual, pelo amor. - Não são iguais!
Você acha que Jujuy, Salta e Tucumán são iguais.
Vou explicar a você, mais uma vez, as diferenças.
Mas precisa prestar atenção.
- Estou ouvindo. - Está bem.
As de Salteña vêm com batata,
ao contrário das de Tucumán.
As de Salteña vêm com carne moída,
enquanto as de Tucumán são acompanhadas de fraldinha.
Entre outras diferenças,
uma vem com pimenta doce, e a outra não.
- Continuo? - Não, já chega.
Um dia, farei um pedido de Salteñas,
Tucumanas e as variantes e você terá
que adivinhá-las. Se acertar, ganha.
Qual a vantagem que levo?
Poderá fazer o que quiser comigo.
- Vamos fazer agora mesmo. - Não, agora não.
Sim, agora. Estou cansado dessa briga que não acaba.
- Vamos fazer isso agora. - Certo.
- Sem trapacear ou bisbilhotar. - Sim, vai logo.
Vamos começar.
O que está fazendo? É sommelier de empanada?
- O cheirinho me diz... - Morda.
- Tucumana. - Muito bem.
Por que é Tucumana?
Porque a fraldinha foi cortada com uma faca, e também...
porque tem um caldo leve, que as de Salteña não têm.
Está bem.
Vamos tentar outra.
Você deu sorte.
- Sorte? - Vamos.
É Tucumana também. Pelo cheirinho.
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