The first 200 lines.
"MOVIMENTO EM FALSO"
Quero que você vá embora daqui.
Vou vender a loja para o supermercado...
e te darei uma parte.
Não, você não precisa dizer nada, querido Wilhelm.
Espere até você não aguentar mais.
Não perca seu sentimento de mal-estar e mau humor.
Você precisará deles se quiser escrever.
A partir de agora, farei os meus dias ficarem bonitos.
Vou fumar, quando eu passar pela praça...
e no Heider Hof tomarei, todas as tardes, o meu Martini.
Enquanto leio suas cartas.
Por favor, com sorvete, eu direi, ao pedir o Martini.
Eu não estou desesperado, só aborrecido e desanimado.
A sensação que tenho é que a língua sumiu da boca.
Há dois dias não consigo pronunciar uma palavra.
Eu converso a noite toda, enquanto durmo, segundo minha mãe.
Quero ser escritor...
mas como isto será possível com minha aversão às pessoas?
Se eu ao menos soubesse escrever... escrever!
Tchau, você ainda tem uma apresentação noturna?
Não.
Janine?
Gostaria de te ver hoje, de novo.
Não consigo olhar para você, neste traje ridículo.
Você tem algo aí.
Não, aqui!
No decorrer do tempo...
No dia, em que deixei minha cidade natal...
esta me pareceu, pela primeira vez, animada...
mesmo com a desolação daqueles que ali ficaram.
Janine, a quem eu feri naquela noite, por causa do seu traje...
eu já havia esquecido.
Mamãe fez minha mala.
Em cima dela, colou dois livros:
"Aus dem Leben eines Taugenichts" de Eichendorff...
e "Educação Sentimental" de Flaubert.
Eu decidi que, quando saísse de casa...
e ela me desse o braço eu não iria, como sempre...
tirá-lo assim que alguém passasse por nós.
No táxi ela me disse para eu não me deixar intimidar...
quando alguém me apresentasse o ofício sério de um carpinteiro...
ou de um médico e me censurasse pela minha vida inútil.
Para ela, pessoas com atividades limitadas lembravam lesmas secas...
em um gramado recém cortado.
Eu a escutava, mas meus pensamentos já estavam longe.
Sua passagem!
Na outra mão, mãe.
Por que está pensando em Bonn?
Eu folheei o último romance que você leu.
Sou muito ligada a você, Wilhelm, e te peço para não me esquecer.
Deixei a mamãe a cargo do destino...
no qual, no que me dizia respeito, eu não queria acreditar.
Imaginei como o motorista que nos trouxe...
iria perguntar para ela, se ele deveria levá-la de volta para casa.
Sozinha ela provavelmente tomaria o ônibus.
Tive vontade de pentear meu cabelo diante da janela do vagão.
Mas preferi esperar, pelo menos, até o trem partir.
Mais tarde, em outro lugar, passou pela minha cabeça...
que eu poderia me lembrar até melhor dela.
Como se ela precisasse se afastar, para que eu pudesse senti-la.
Este pensamento me pareceu tão repugnante que logo o esqueci.
Era um dia bonito, de profunda paz.
Gaivotas, que haviam feito algazarra sobre o mar, voavam em silêncio.
À beira do canal, ao longo do qual o trem passava...
vinham-me muitas lembranças. Comecei a pensar no futuro.
Nesta viagem, eu queria saber mais sobre mim.
No banco ao meu lado alguém deve ter sangrado pelo nariz.
"Primeiro capítulo: A roda do moinho do meu pai...
rangia e rumorejava, de novo, alegremente.
Neve pingava sem parar do telhado...
e os pardais trinavam e amontoavam-se no meio disso.
Eu estava sentado na soleira, esfregando meus olhos sonolentos.
Me sentia muito bem com o calor do sol.
Então, o pai saiu da casa.
Desde o nascer do dia, ele já estava trabalhando no moinho...
e estava com a... touca de dormir torta na cabeça."
HAMBURGO - ALTONA
A mulher, pela qual o senhor ficou tão saudoso...
chama-se Therese Farner.
Ela é artista.
O senhor vai querer saber por que estou sangrando pelo nariz.
É a lembrança.
Vou contar-lhe a história amanhã, no café.
O senhor conhece a história do santo Januário...
cujo sangue seco está guardado em uma igreja em Nápoles?
Uma vez por ano ele fica líquido, borbulha...
bem no dia de sua morte.
Para onde o senhor vai?
Para Bonn.
Mas aqui só há uma passagem.
Não, o senhor não está sonhando. Há duas passagens a menos.
Para seus acompanhantes o senhor pode, é claro, comprá-las no trem.
Hoje aconteceu algo horrível comigo...
algo totalmente singular.
Mas pela menina espero pagar só a metade do valor.
Ainda estou totalmente confuso.
Bem, eu saio de casa e percebo, na rua...
que esqueci meu guarda-chuva.
Não, não, eu o abri.
E eu também estava com um par de meias trocadas.
É impossível descrever algo assim.
Afinal estava chovendo?
Que nada, não era por isso.
Esta saudação eu conheço de velhos guias de filmes.
Vamos lá, agradeça ao senhor pela passagem.
Não, não, não, não.
O senhor já escolheu?
Estava pensando em pedir escalopes de vitela com Spätzle e salada.
Vamos tomar uma Pils e uma fanta laranja.
Aliás, o funcionário do trem me deu um bilhete.
Para o homem na janela do vagão 83, terceiro compartimento...
Isso só pode ser para o senhor. Com certeza não é para mim.
E o que o senhor indica como sendo sua profissão?
Eu? Eu sou cantor e ela é...
artista.
ESCRITOR
Boa noite.
Hoje à tarde, ao olhar para uma mulher, no outro trem...
a mera contemplação me pareceu uma grande aventura.
E eu achei que lamentaria pelo resto da vida...
se não tentasse levar isto adiante.
Ligue, por favor, para 063517270.
Mas no quarto comum de hotel com colchas de penas estufadas...
cesto plástico de lixo e luz néon em cima da pia...
eu fiquei quieto, como tudo ao meu redor.
Eu já estava decorando o que eu diria a ela.
Por exemplo: "Eu estou ansioso para te ver."
Eu tentava livrar-me dessa pressão, e planejei...
não procurar palavras. Se ela permanecesse calada...
eu também ficaria quieto. Olhei para a praça lá embaixo.
De repente, fiquei ávido por escrever.
Eu não teria de ficar imaginando a aventura com a mulher.
Com esse pensamento, o medo de uma nova pessoa desapareceu.
De repente, tive vontade de conhecer sua voz e esperava...
que esta fosse tão natural quanto seu olhar pela janela do trem.
Em seguida, eu queria escrever algo nos mínimos detalhes.
E, há duas noites, não sonho mais.
E, há uma semana, não corto minhas unhas.
E, há um mês, calço todos os dias os mesmos sapatos.
E, há anos, não penso mais em morrer.
Sempre tive a sensação que sem mim tudo seria igual.
Mas quando eu te conheci, finalmente soube o que acontecia comigo.
O senhor acha que pode fazer uma canção sobre isso?
Se você me deixar o verso.
Logo te contarei a minha história.
Talvez hoje à noite.
Só como alusão: Eu participei dos Jogos Olímpicos de 1936...
em Berlim, como corredor dos cem metros.
Também se recusou a apertar a mão de Jesse Owens, como vosso Führer?
Eu só cheguei até a semifinal, mas...
certamente, eu não teria dado a mão a um negro.
- E agora? - Não.
Vamos passear.
Eu pretendia, na verdade, começar a escrever hoje.
Mas, à noite, eu sonhei tanto que é impossível...
escrever sobre qualquer outra coisa que não seja sobre isso.
E só anotar sonhos, isto é como...
Gostaria de escrever algo que fosse indispensável.
Necessário como uma casa ou uma taça de vinho à noite.
Não, mais necessário, é claro.
"Ei, saiam daí! Saiam da frente da minha câmera!"
A caminho daqui, me dei conta...
de que na Alemanha ainda existe natureza.
Eu queria ficar parada para sempre...
só que eu dirigia cada vez mais rápido.
Tive vontade de passear com você pela cidade.
É isso que estamos fazendo.
Eu queria falar com você.
Nada de especial, somente falar com você.
De repente...
- Gostaria de ficar a sós comigo? - Agora não.
É bom... É bom estarmos acompanhados.
Senão seria ainda pior.
Assim, pelo menos, me parece como se eu tivesse um segredo.
Vocês sabem, por acaso, o que é dor?
Escrotos, já ouviram o zunido de um planador dentro da cabeça?
Por aqui.
Você desconhece tantas coisas.
Eu gosto disso em você.
Acho que caso contrário você nem conseguiria escrever.
O que eu não gosto é que...
quem se surpreende é sempre você.
Confie a todos seu estado.
Perdão.
Hoje, no hotel, ouvi o senhor recitar um poema.
Eu mesmo escrevo poemas e...
segui o senhor para lhe perguntar, o que acha deste.
Posso lhe recitar algum?
"Eu ainda estava meio adormecido, quando ouvi os sinos tocando.
Um batia tão alto, como se batesse em mim.
Aí eu comecei, por causa da desgraça, a trocar de pele.
A sensação de não ser nem sequer um contorno no universo...
se tornou assustadora.
Como Medusa, oniricamente sem forma...
me senti escorregar pelos ambientes."
Não tem ninguém atendendo aqui.
"Uma criança veio até mim...
como se andasse sobre cogumelos podres, gosmentos, cheios de lesmas.
Eu ansiava por me esguichar com a mangueira dentro do bueiro...
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