The first 200 lines.
Quando faleceu em 1115, em Sevilha, o grande matemático, astrónomo e poeta
Yasid Al Malek deixou como testamento uma frase enigmática
que continua a intrigar os sábios do mundo inteiro:
"O tempo é um ovo cujo mistério desvendei.
Cabe àquele que guarda o seu segredo atravessar os tempos…"
Estamos na plateia do programa História Literária,
excecionalmente rebatizado hoje História Literária e Relato Militar,
por ocasião do lançamento do livro do coronel Beresford,
Missões Secretas.
Voltemos então a este livro bastante surpreendente.
Saem de qualquer situação com uma facilidade inacreditável.
Um exemplo, ao acaso.
Está em missão no mar dos Sargaços. Vou resumir.
É feito prisioneiro a bordo de um petroleiro, é espancado,
drogado, amarrado, amordaçado,
fechado num saco,
atiram-no no fundo de uma arca fechada com cadeado
e com uma cinta e atiram a arca para o mar.
Fim do capítulo.
Como que é conseguiu safar-se?
Leia o início do capítulo seguinte.
"Regressei à costa a nado."
Aí tem.
- É assim tão simples? - É.
Neste livro, surge como um homem que age sozinho.
O que acha?
Naquelas circunstâncias, e mesmo acompanhado,
há que agir rapidamente e, muitas vezes, sozinho.
É a ação que nos guia.
Afirma querer reformar-se e dedicar-se à pintura.
Custa a crer, coronel.
Na guerra, o mais difícil é a retirada. Há que evitar demasiada aventura.
Caro Jean-Jacques, que bom ter vindo.
Não se importa?
Acompanhe-me. Vou apresentar-lhe o nosso autor.
É belo, forte…
Diria mais: é fabuloso.
Foi direto ao assunto.
Tentei, modestamente.
Albane, ajude-me.
Vai receber o prémio Duménil, sem dúvida.
Obrigado.
Vi-o há pouco. Foi maravilhoso.
O máximo!
Morri. Como é que estive?
Extraordinário.
Aquela clareza de dicção, a presença de espírito,
a modéstia.
E as anedotas, tão novas, tão surpreendentes…
Estás a meter-te comigo.
A sério, como é que estive?
A sério? Um patife.
Certo. E que mais?
Um patife.
Prudence, o que te deu?
O que é que te deu?
- A noite foi má? - Não, foi deliciosa.
Não olhaste para mim a noite inteira nem falaste comigo.
E a serigaita da tua editora, a tua Albane,
tratou-me como uma funcionária de casa de banho
que gratificamos normalmente com uma gorjeta.
Estás com ciúmes, Prudence?
Nada disso. Estou magoada.
Seja como for, o teu livro é um rol de gabarolice.
Capítulo sete, página 122.
Quem fazia a dança dos Sete Véus diante dos guardas fronteiriços albaneses
para os distrair enquanto rastejavas
como uma minhoca em direção à Grécia?
Não podia contar isso, Prudence.
É uma estratégia de marketing .
Isso.
A Albane achou que o livro teria mais sucesso
se o teu papel fosse, digamos, secundário.
É espantosa, a tua Albane.
Como que é passámos sem ela até agora?
Os gémeos. Socorro!
Vovó!
"Pastral", "Pastrick"!
Pascal e Patrick, arrumem isso tudo.
Não. Estão encharcados.
A vossa mãe?
Vovó, vimos o vovô na televisão!
Já pedi para não me chamarem "vovó".
Pai, temos uma prisioneira!
Jerónimo!
A prisioneira do deserto!
Marie-Christine, és tu?
Que confusão é esta?
- Sogrinha? - Chamo-me Prudence.
Há dez anos que lhe peço para me tratar pelo meu nome.
E também não quero ouvir "vovó".
Lembra-me os Belgas, e eles vão deixar de existir.
- Que confusão é esta? - Nada, sogrinha.
Eu arrumo tudo num instante.
É demasiado difícil.
O que é que eu disse? É demasiado sensível, Rudi.
E a minha filha, que cuida tão bem da minha casa, onde está?
- A Marie-Christine partiu. - Como assim, partiu?
Deixou-me. Só me deixou isto.
"Rudi, preciso de ficar sozinha. Não tentes contactar-me."
"Podes esperar por mim com as crianças em casa dos meus pais."
"Em casa dos meus pais"?
Que lata.
Também ficou transtornada por ela nos ter abandonado assim.
Abandonar-vos é uma coisa,
mas abandonar-vos aqui, em minha casa…
Ela vai voltar, não pode ser.
Não pode deixar-vos aqui indefinidamente.
É minha filha, conheço-a.
É demasiado acomodada.
E se ela me deixou de vez?
Pela primeira vez, teria feito algo inteligente.
Rudi, não seja dramático.
Beba.
Não vamos ver televisão à mesa, pois não?
"Pastrack"! Pascal!
Patrick!
"Pastral"… Pascal, Patrick.
- Confundo-os sempre. - É simples, sogrinha.
O gémeo com aparência
ligeiramente asiática é o Pascal.
O que parece mais helvécio
é o Patrick.
Se decorar isso, é impossível trocá-los.
Mas até são difíceis de confundir, é um facto.
Os genes fazem o que querem,
mas nunca vi gémeos falsos tão falsos.
É por isso que me baralho.
- Não tem vinho para ajudar? - Não.
Mas tenho chá verde, se quiser.
É Genmaicha.
Chá verde japonês com arroz torrado.
É muito bom.
Tudo isto cansa. Com licença.
- Para quem? - A Marie.
- Aqui tem. - Obrigada.
Bom dia.
Bom dia.
- Tenho de ir, estou preocupado. - O que foi?
Tenho de ir.
A sério? Não pode fazer-me isto.
A Prudence precisa mesmo de mim.
- Não é nada profissional. - Sim, mas…
Táxi!
Caro amigo!
Doutor.
Muito gosto em vê-lo.
- Como está ela? - Mal.
Mal?
As crises de melancolia,
em pessoas com um caráter tão forte como a Prudence,
podem ter muitas consequências.
O que aconteceu?
- Sabe que a sua filha desapareceu. - Fugiu de casa.
Não deve ter sido isso a abalar a Prudence.
A casa virada do avesso, os gémeos abandonados,
o seu fiel Georges que vai de férias
e o seu genro que não para de chorar, gemer, fungar.
Pobre Prudence, não suporta isso. O que fez ela?
- Sacudiu-o. Disse-lhe… - "Um dia sem rir é um dia perdido."
Exatamente.
Desde então, ele passa o dia a contar-lhe as piadas dele.
Todas?
Sim, Bélisaire.
Todas.
O camelo que se peida?
O lagostim que não consegue enfiar um preservativo?
Infelizmente.
Para quem está deprimido,
tens um apetite voraz.
Bom dia, coronel. Está de volta?
Sim. Bom dia, Rudi.
Onde é que vou pôr isto?
Eu ajudo-o.
A propósito, tenho uma boa.
Sabe o que é isto?
Sogrinha, não lhe diga nada.
- Sabe o que é isto? - Não estou a ver.
- Vá lá. - Não.
Claro que sabe.
É um tipo a esticar as peles.
Esticar as peles!
Já nos contou essa três vezes.
Estava a dizer que continuas com um apetite voraz.
Passa-se alguma coisa.
Não se ouvem os rapazes.
Subornei-os.
Cinco euros para três horas de silêncio.
- Cinco euros cada um? - Cada um.
Vamos precisar de mais dez euros.
Obrigado, vovô.
Um general sobe pela escada do…
Nada de piadas ao domingo.
Não é uma piada, sogrinho.
Um general sobe pela escada do pátio.
O general!
General! Que bom vê-lo!
Igualmente.
Como vão as coisas, cara Prudence?
Nunca imaginei terminar a minha carreira
No comments yet. Be the first to leave one.