Cherchez La Femme

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Cherchez La Femme 2026 PORTUGUESE NF WEB-DL DDP5 1 H264-D3abL3
A Commentary by tedi
Retail NF | 1:18:42

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Published on: 2026-08-17
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The first 200 lines.

[música instrumental, algo inquietante]

Cumpridos dez anos de prisão

por um crime que não pratiquei,

e do qual, no entanto, nunca me defendi.

Morto para a vida e para os sonhos,

nada podendo já esperar,

e coisa alguma desejando,

eu venho fazer, enfim, a minha confissão.

Isto é,

demonstrar a minha inocência.

Talvez não me acreditem.

Decerto que não me acreditam.

Mas pouco importa.

Não preciso que me reabilitem.

Só digo a verdade,

mesmo quando ela é inverosímil.

Cherchez la femme.

Meu caro!

Meu querido Lúcio, perdeu a maior festa do século!

Paris inteira esteve ontem no Palácio da americana! Um espetáculo inesquecível.

Cataratas de luz, labaredas eletrizantes!

Tanto sensualismo explorado, absolutamente inesquecível.

Impossível de descrever.

Não sou eu, nunca, que possuo as minhas amantes…

- São elas que me possuem! - Falsas modéstias, meu caro.

Sabe, Lúcio, aquilo que faz do artista um grande artista…

- Diga. - Não é apenas o estilo da sua obra,

é também a maneira como se veste,

os seus gestos, a forma como ama, toda a sua maneira de ser.

Tudo isso define o génio do grande artista.

Porque, meu amigo, chamar "génio" a um patusco obeso como o Balzac…

Não está certo. Não é justo, nem admissível!

Mas há por aí tantos grandes artistas, bem inferiores quanto ao aspeto físico.

Saber roubar um pouco da alma de Deus, é isso um grande artista.

Ali vem Ricardo de Loureiro. Poeta das Brasas!

- Conhece o Ricardo, Lúcio? - Não, mas admiro-lhe a obra.

É fundamental que o conheça,

um homem brilhante que levita acima dos mortais.

Ainda bem que o encontro! Por pouco temi ter vindo aqui em vão.

Essa agora, venha!

O escritor e dramaturgo, Lúcio Vaz,

o poeta, Ricardo de Loureiro.

Um privilégio conhecê-lo pessoalmente,

sou um leitor humilde e dedicado da sua poesia:

"Olho em volta de mim

Todos possuem um afeto Um sorriso ou um abraço

Só para minhas ânsias se diluem E não possuo

Mesmo quando enlaço

Ah poder

Poder sugar um dia

Enfim

O gosto roxo e macerado Do mistério"

O mistério da escrita! Sentemo-nos, senhores.

O Gervásio falou-me de si.

Conheço o volume das suas novelas.

Gosto sobretudo do conto "João Tortura".

É raro encontrar uma prosa de melancolia tão genuína.

Dá-me grande prazer sabê-lo.

- E é curioso… - O quê?

Ter escolhido esse conto.

É de longe o meu preferido entre os poemas que escrevi,

e o único que os críticos não destacam. - Ah, críticos!

Você quer que os merceeiros de romances nos entendam?

Sabe bem o que podemos esperar da imprensa portuguesa.

E nunca é tarde demais para encontrar uma alma gémea.

No sentido estético e literário, bem entendido.

Se me dão licença.

A mim, já nenhuma novidade me encanta.

Tudo me aborrece.

Os meus raros entusiasmos, ao medi-los…

… acho-os mesquinhos.

Já não me aborrecem apenas as coisas que possuo,

como também me fartam as que não tenho.

Escreva.

Não pare de escrever.

Deixe que a sua obra…

Deixe que a sua obra o salve.

Eu sei que acabámos de nos conhecer,

mas permita-me que lhe ofereça toda a ajuda de que precisar.

Pense no futuro,

pense…

… no mundo que há para conquistar. - O futuro…

O futuro…

Até hoje ainda não me vi nele.

E as coisas em que não me vejo, nunca me sucederam.

Tenho saudades desse futuro de que fala.

Mas agradeço-lhe o ânimo, estimado Lúcio.

Talvez conhecê-lo me ajude a mudar.

Estou certo que sim.

Lúcio!

Tem alguma coisa marcada para amanhã, às 15 horas?

- Que me recorde, não. - Então passa a ter.

No Teatro Robert Oudin?

Combinado.

Boa noite.

[música instrumental algo inquietante]

Diga-me, Lúcio,

não é sujeito a certos medos inexplicáveis?

Como assim?

Eu tenho medo daquelas dançarinas.

- Está a brincar? - Repare bem.

Todas vestidas nos mesmos fatos,

as mesmas pernas nuas, as mesmas feições ténues,

o mesmo ar gentil, todas iguais.

Não lhes podemos atribuir uma vida,

um amante, um passado,

hábitos ou maneiras de ser.

Não as podemos destrinçar do seu conjunto.

É pavoroso. Pavoroso…!

- Ricardo! - Ah!

Meu caro. Caro Lúcio!

Como bendigo a hora em que nos encontrámos.

Ah… "La Bocca della Veritá".

Não sei se conhece a lenda desta estátua.

Um verdadeiro detetor de mentiras.

Diz a lenda que se se estiver a mentir,

a estátua arranca-nos a mão.

Aceita o desafio?

Seria bom se desse para averiguar a fidelidade das mulheres.

E o Lúcio tem facilidade em conquistar novas amizades?

Esta boa gente que aqui vai, vive, não pensa.

A sua maioria é feliz, normal.

Já eu, não sei ter afetos.

Bem vejo como as mulheres olham para si,

não procuram outra coisa senão esses afetos.

Sempre me senti um estranho social, sabe?

Ai, sim? Olhe que não parece.

Sou um isolado que conhece meio mundo. Pelo menos, é assim que me sinto.

Acredita que não me concebo na minha velhice?

Se não houvesse a certeza absoluta de que todos morremos,

eu, não me vendo morto, não acreditaria na minha morte.

E não aspira, como qualquer artista, à imortalidade?

Assim escapando à morte?

Todos me crêem um homem misterioso,

por não me apaixonar, não ter amantes.

Não posso ser amigo de ninguém.

Não proteste, não sou seu amigo.

Para ser amigo de alguém, forçoso me seria antes possuir…

… quem eu estimasse, mulher ou homem.

Mas uma criatura do nosso sexo, não podemos possuir.

Só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo

se essa criatura, ou eu, mudássemos de sexo.

Em face de todas as pessoas por quem adivinho ternuras

surge este desejo que sinto na alma, de as beijar.

Retribuir,

estreitar, possuir.

Não julgue que sinto isso na carne. Não! Eu sinto na minha alma.

Tudo nesta cidade me é litúrgico…

A minha religião é Paris!

Paris, Paris…

Professamos a mesma fé, meu caro.

Venha comigo amanhã à exposição do Saint-Croix, no Grand Palais.

Dizem que é o escultor mais excitante deste século!

Adoraria, mas infelizmente não poderei.

Tenho um encontro com um advogado.

Documentos para assinar, por causa da herança do meu pai.

Lamento que atravesse essas preocupações.

Teria todo o gosto em tê-lo por companhia.

Para me dizer o que pensa.

Escrevi ontem à noite, depois de nos conhecermos.

Não sei o que dizer.

Não diga nada.

Conceda-me esse gosto.

Amor é chama que mata

Dizem todos com razão

É mal do coração

E com ele se endoidece

O amor é um sorriso

Sorriso que desfalece

Madeixa que se desata Denominam-no também

O amor não é um bem

Quem ama sempre padece

O amor é um perfume

Perfume que se esvaece

- Sim, senhor? - Bom dia.

Sou o Lúcio Vaz. Tenho uma reunião com o Sr. Ricardo às 10 horas.

Um momento, por favor.

Isto é para si.

- Obrigado. - De nada.

[passos a afastar-se e música instrumental suave]

Meu querido Lúcio.

Tive de regressar com urgência a Lisboa.

Encontrei o meu destino.

Anseio por voltar a vê-lo e assim partilhar consigo tanta felicidade.

[continua música instrumental serena e contemplativa]

Caro Ricardo,

estivemos um ano separados.

A nossa correspondência foi nula.

Três cartas minhas e duas suas.

Em dezembro, volto a Lisboa.

Um grande, grande abraço,

Lúcio.

Semana sim, semana não, tenho de levar o carro à oficina!

Ah!

Sabe quem encontrei ontem na Brasileira?

O nosso "Rodin do Chiado": Gervásio Vila-Nova!

- Regressou há um mês! - É.

Tem a irmã doente, segundo me constou.

- Pareceu-lhe bem? - O costume,

mais cheio de si próprio e explodia.

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